Propósito e (des)interesse

por Norberto Pires | 2014.06.23 - 10:00

Os tempos que correm são de vacuidade e ausência de propósito. Atuar por convicção, por princípio, tendo em mente (des)interesses coletivos é algo de mirífico e raro… e perigoso. Os políticos sucedem-se sem novidade, sem entrega e sem momentos de clarividência que sejam capazes de mobilizar. Ressalvo aqui, para ser claro, que sou militante do PSD e que entendo a militância como um ato de liberdade, de clareza e de identificação com os princípios e a história de um partido que reforçam a necessidade de um posicionamento sério, firme e frontal dentro de um quadro ideológico em que acredito (a social-democracia).

O padrão é conhecido e repete-se incessantemente à frente dos nossos olhos. Quando aparecem são sempre muito palavrosos, cheios de ruturas com o passado, apontando com eficácia os defeitos dos outros, a ausência de resultados que nos conduziram ao descalabro, os vícios e a necessidade de mudar. Sucedem-se os eventos. E o discurso repete-se. Está bem, admitimos, é necessário passar a mensagem e isso implica repetição. Mas a cena continua a repetir-se, e a repetir-se e… a repetir-se. Os efeitos são nulos, os resultados inexistentes mas… o discurso continua a repetir-se.

Um dia, o discurso é desmentido. E o homem, ou mulher, das ruturas aceita uma pequena imposição de um aparelho de pressão qualquer. E o que diz, agora esvaziado de sentido e de propósito, continua a ser a repetição das muitas promessas peregrinas de mudança. Não percebe que nesse dia, morreu tudo o que disse e defendia. Convenceram-no que é preciso jogo de cintura, que é necessário contemporizar para atingir objetivos superiores. Coitado. Coitados de nós.

No meio, alguém passa a falar por ele, a anunciar o que ele “decidiu” e a estar seguro da cedência. E apresenta isso como um marco histórico da “mudança”. Assisto triste a este filme, e a pensar que a seguir, de novo, o mesmo argumento, com outros atores mas sempre com os mesmos realizadores, se vai converter em filme e passar, vezes sem conta, à frente dos nossos olhos. De novo.

Lembro-me de algo que li de Adriano Moreira, uma das personalidades mais marcantes da nossa história política mais recente, e que cito de memória. Adriano Moreira foi durante uns meses, entre 1961 e 1962, ministro do Ultramar, sendo o autor e impulsionador de um conjunto de medidas corajosas e muito interessantes como o fim do regime do indigenato, a política laboral e a descentralização dos órgãos administrativos e económicos das províncias ultramarinas. Depois da reunião do Plenário do Conselho Ultramarino (realizado em Outubro de 1962) em que se discutiu a Revisão da Lei Orgânica do Ultramar, Salazar, percebendo que as coisas corriam mal, chama-o a Sº Bento e diz-lhe que teriam de mudar de políticas e ideias para o ultramar (falou-se nesse plenário de uma solução federalista para o ultramar), provavelmente fazer algum tipo de cedências para aguentar o regime e ele próprio como Presidente do Conselho. O instinto de sobrevivência de Salazar era muito apurado e ele era francamente pragmático, pelo que confessou a Adriano Moreira a impossibilidade de continuar a linha descentralizadora pois as “iniciativas aberrantes” ameaçavam multiplicar-se. A resposta teria sido algo do tipo: perante essa indicação, o Sr. Presidente do Conselho teria também de mudar de ministro. E assim se demitiu.

Lembro-me ainda do Francisco, o Primeiro-Ministro de Portugal falecido em Camarate, que tinha a vertigem do risco e vivia como pensava, sem pensar como viveria. E que dizia coisas fantásticas como “cabe-nos cada vez mais dinamizar as pessoas para viverem a sua liberdade própria, para executarem o seu trabalho pessoal, para agirem concretamente na abolição das desigualdades. Para isso mais importante que a doutrinação, é levar as pessoas a pensarem, a criticarem e a discernirem”, e ainda que “a política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha”.

Lembro-me disso porque sem propósito e sem convicções, o resultado é uma espuma de dias sem valor.

(Publicado no Diário As Beiras de 23 de Junho de 2014)

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal “Robótica”. Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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