Procurar refúgio

por Alexandre Borges | 2015.09.17 - 13:39

Vivemos num pais que gostamos de catalogar de solidário, onde o racismo e a xenofobia não vingam e ostentamos no peito a medalha da abolição de pena de morte com enorme orgulho.

Esta semana, a propósito da crise humanitária que se agudiza no médio oriente, temos visto que as coisas não são exactamente tão cândidas. Parte não negligenciável do país parece ter adormecido com a miríade de programas sobre futebol (onde se analisa futebol, a análise da análise e os comentários à análise da análise) e alheou-se do que se passa no mundo e à sua volta. É de tal forma este alheamento que Portugal parece justificar a profusão de iniciativas televisionadas em directo ao longo do ano onde se tenta vender a festa permanente por este país fora.

Ao ler, no universo social em rede que temos ao nosso dispor, algumas opiniões sobre os três mil refugiados que Portugal terá de acolher, fico preocupado e carregado de dúvidas.

Como é possível que com ligeireza se confundam refugiados, que fogem à morte às mãos dos terroristas sanguinários do Estado Islâmico, com o seu agressor? Será por serem muçulmanos?

Se a profissão religiosa fosse razão atendível, e voltando ao futebol, então seria útil pararem de idolatrar jogadores do Sporting, Benfica e Porto que ora se orientam para a baliza ora para Meca.

Ter dúvidas e cautelas é legítimo. Ser preconceituoso e extremista é um manifesto de maldade. Promover notícias mentirosas e não procurar a verdade é lamentável. Não ser solidário com o semelhante é a negação da humanidade que nos une. Invocar razões culturais é ignorar e negar a própria história que nos trouxe até aqui enquanto povo.

Sei que a vida hoje é imediata mas, já se esqueceram dos vídeos de decapitações, violações, desfenestrações, imolações e toda uma panóplia de imagens de actos bárbaros que nos levariam a todos a fazer a fugir a sete pés? Não terá Portugal a dignidade para acolher meia dúzia de refugiados em cada concelho?
Isto num país que nos últimos anos viu partir 500 mil concidadãos para o estrangeiro por, muito justamente considerarem que no seu país não há condições para terem a vida que consideram digna mas, convenhamos, comparado com o que se passa na Síria e no Iraque vivemos numa espécie de paraíso.

Se a solidariedade e a humanidade não vingarem, ainda nos arriscamos a ver repetidos tempos onde os nacionalismos absurdos vingaram com as consequências sobejamente conhecidas por todos os que acham que a bola gira mas nem tudo gira à volta dela.

Portugal pela sua história e pela sua diáspora tem responsabilidades especiais e nem precisamos de referir que a Cimeira das Lajes foi logo ali.

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC.
Virulentamente bombeiro.
Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

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