Praxes: a humilhação e a infantilização dos jovens para perpetuar a alienação e a submissão e castrar-lhes a irreverência e o espírito crítico

por Carlos Vieira | 2018.10.08 - 10:53

“P`ra entrar na universidade
é preciso
prender o humor
na gaiola do riso

ter médias altas
hi-hon, ão-ão
zurrar, ladrar
lamber de quatro o chão

Mas há quem ache
graça à praxe

É divertida (Hi-hon)
Lição de vida (Ão-ão)
Maçã com bicho
acho eu da praxe
É divertida (Mé-mé)
Lição de vida (Piu-piu)
Maçã com bicho
acho eu da praxe

(…)”

Sérgio GodinhoMaçã com bicho (acho eu da praxe)

 

 

 

 

Quando vejo uma mulher vestida com uma burka ou um niqab, não posso deixar de sentir uma certa comiseração, independentemente de ela ser obrigada pelo marido ou pela sua comunidade a tapar-se da cabeça aos pés, deixando apenas uma rede ou uma fresta para os olhos, ou se aceita essa alienante indumentária de livre vontade, por imperativo religioso ou cultural (tradição).

Da mesma forma, quando vejo jovens estudantes universitários a passearem-se pelas ruas da minha cidade,  vestidos à moda antiga, com trajes ditos “académicos”, mas que na verdade mais não são do que meros símbolos medievais de anacrónico elitismo social,  sinto uma vontade enorme de lhes dizer: “mas porque é que foste obrigar os teus pais a gastar tanto dinheiro nesses trapos horrorosos que mais te fazem parecer um corvo ou uma coruja?!…

Respeito a vontade de cada um(a), claro, mas fico triste. Mais do que triste, fico revoltado quando vejo estudantes universitários a deixarem-se humilhar por colegas mais velhos, armados em “doutores”, com praxes abusivas ou sem graça nenhuma, talvez por se sentirem obrigados a cumprir pela pressão colectiva, ou de serem parvos o suficiente para estarem mesmo convencidos de que será assim que conseguem integrar-se e subir de estatuto na hierarquia dos imbecis (no período de um ano passam de “caloiros” a “doutores”).

Já este mês foi notícia a queixa de um aluno da Universidade da Beira Interior por ter sido submetido, juntamente com outro colega, a uma praxe violenta, por parte de um grupo secreto que os levou para a Serra da Estrela, durante a noite, obrigando-os a despirem-se, a colocarem-se de gatas e agredindo-os com pás. No mês passado, o Bloco de Esquerda denunciou outro caso de praxe abusiva, de um aluno da Universidade de Évora que foi obrigado a ajoelhar-se no chão e a meter a cabeça em cima de um monte de farinha, apesar de suplicar pelo fim daquela humilhação.

Até agora, no presente ano lectivo, chegaram à Direcção-Geral do Ensino Superior, cinco denúncias de praxes abusivas; no ano anterior foram dez e no ano 2016/17 foram 18. Já morreram estudantes por causa de praxes abusivas e violentas.

Mais do que invectivar quem as pratica, importa perceber como é que tantos jovens aceitam passivamente a humilhação das praxes. Para isso, sugiro a leitura do livro “Praxe e Tradições Académicas”, do sociólogo, Elísio Estanque. Deixo-vos um resumo:

A praxe “é um teste de resistência perante a autoridade”. A adesão à praxe e o “respeito” que os caloiros são levados a demonstrar perante os colegas mais velhos significa, por um lado, que os momentos de “submissão” são vividos segundo a perspectiva de quem já se imagina ”do lado de lá”.

Há uma “nova experiência de redescoberta da vida e o sentimento de solidariedade entre iguais. Ao mesmo tempo que ocorre a vivência de uma ascensão de ”status”, quando a vertigem do estatuto de “doutor” já se encontra no horizonte”. A inserção comunitária dá-se no momento em que o jovem se sente inseguro, individualmente vulnerável e mais exposto (sem a protecção da família). Daí a importância do grupo, que “constitui o espelho que devolve a segurança e consolida a identidade social de cada um”. Por isso, não é raro ouvir-se as vítimas a reclamar “o direito a sermos humilhados”.

”As praxes são a sobrevivência simbólica dos rituais de passagem, de presentificação e de hetero-reconhecimento, balizadas por gestos que tentam assinalar a “des-bestialização do aprendiz e a sacralização do ofício intelectual” . A designação do caloiro como “magna besta” vem dessa concepção do ”ser humano como uma besta à nascença, que só pela formação intelectual e espiritual se liberta dessa primitiva condição”, segundo o historiador  Paulo Archer de Carvalho. Os ritos de iniciação, ”próprios das comunidades primitivas, sem história e submetidas à lógica do tempo cíclico e à repetição” são um garante da integração comunitária.

Na verdade, o termo “praxe” só começa a ser usado na segunda metade do século XIX, identificado com o adjectivo “selvagem”, ou seja, um termo que invoca a natureza cruel e violenta já então atribuída a esses actos”, segundo o prof. António Manuel Nunes (comunicação proferida no Instituto Piaget de Viseu, em 2003).   No século XVIII, as “investidas” chegaram a ser proibidas por D. João V, devido à morte de um novato e infligidas fortes sanções aos infractores”. Até meados do século XX a Universidade era uma instituição exclusivamente masculina, de espírito marialva, elitista, patriarcal, apesar da crescente feminização após a década de 1950. Nessa época, em Coimbra, os caloiros podiam ser rapados pelas trupes de estudantes mais velhos se apanhados nas ruas depois do toque da “cabra” (sino da torre da Universidade). Com a crise académica de 69, os estudantes decretaram o “luto académico” e suspenderam a praxe. Após o 25 de Abril, a praxe continuou a ser considerada uma prática anacrónica e reaccionária, incompatível com a irreverência da juventude. A sua recuperação a partir dos anos 80 é um sinal da involução do espírito crítico dos estudantes que os levou a aceitar como inevitável o aumento das propinas e o consequente retrocesso na democratização do acesso ao Ensino Superior.