Porque não Biblioteca Beatriz Pinheiro?

por Anabela Silveira | 2018.06.27 - 21:10

 

Leio sempre com prazer acrescido as tomadas de posição da CDU na Assembleia Municipal de Viseu, bem como os artigos da deputada municipal Filomena Pires. Ambos tocam no cerne de muitos dos problemas com que se debate o concelho e a postura construtivamente crítica da deputada permite pensar que há alternativas à política concelhia. Assim o quisessem os eleitores.

Mas o presente artigo não tem por objecto analisar as propostas da CDU, antes debruçar-me sobre uma proposta deixada na última assembleia municipal. Filomena Pires propunha que fosse criada uma Biblioteca Pública Municipal, a instalar no centro histórico da cidade, a que fosse atribuído o nome da poetiza Judith Teixeira, “dando visibilidade a uma notável mulher natural desta cidade”[1].

Contraponho eu: porque não Biblioteca Pública Municipal Beatriz Pinheiro, de forma a dar visibilidade a outra notável mulher nascida e criada em Viseu?

Quero afirmar, desde já, que nada me move contra Judith Pinheiro, bem pelo contrário. Tenho, entre os meus livros, devidamente lido e notado, um volume com a sua obra completa, “Poesia e Prosa”, organizada por Cláudia Pazos Alonzo e Fábio Mário da Silva, publicada pela D. Quixote em 2015. Achei particularmente interessante a “Notícia do maior escândalo erótico-social do século XX em Portugal”, organizada por Zetho Cunha Gonçalves, para a editora Letra Livre, (2014), em que se faz menção à obra Decadência, de Judith Teixeira, publicada em 1923. Como me interesso pela vida e obra da poetiza, vasculhando na net, encontrei uma série de artigos que descarreguei e guardei: “O mito da Medusa e a sua relação com a poesia de Judith Teixeira” de Fábio Mário Silva; “Que o desejo me desça ao corpo. Judith Teixeira e a Literatura Sáfica”, dissertação de mestrado de Andreia Boia, defendida na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2013); “Quem tramou Judith Teixeira? (Uma História Com Fantasmas)”, da autoria de Sara Marina Barbosa, publicada no nº4 da revista Estrema, Outono de 2014; e na falta da leitura da dissertação de Mestrado de Martim de Gouveia e Sousa, “Judith Teixeira: originalidade poética e descaso literário na década de 20 (2001), do mesmo autor o texto “ Lesbianismo e interditos em Judith Teixeira”, inserto na revista Proa-UA (2009).

Mas, por mais que leia e reflicta sobre Judith Pinheiro, o âmago de parte do meu trabalho de investigação, reflexão e produção escrita vai para essa outra notável viseense: Beatriz Pinheiro. Quem sabe, digo eu, se uma e outra não se encontraram no Adro da Sé, subindo e descendo a rua direita, nas festas do instituto liberal ou do Teatro Viriato… Tinha Beatriz onze anos quando Judith nasceu…     

Chegados aqui e para que os leitores da “Rua Direita” se apercebem de quem foi Beatriz Pinheiro: escritora, feminista, republicana, professora, a quem Viseu dos finais de oitocentos tanto deve e que tão depressa a esqueceu ou não quis lembrar, apresento, ainda que abreviada, a sua biografia possível.

Beatriz Pinheiro nasceu em Viseu, na rua da Nossa Senhora da Piedade, a 29 de Outubro de 1871. Filha de um alentejano de Elvas, funcionário dos correios, Joaquim António Pinheiro, e de Antónia da Conceição Pais, de Paços de Silgueiros, um lugar da freguesia de Silgueiros do concelho de Viseu[2], teve acesso a uma educação formal, frequentando, segundo as suas palavras, o ensino primário e liceal. O fim do liceu e, mais tarde, o diploma em Ciências e Letras, conduziu-a à docência, primeiro do ensino primário e, mais tarde, do ensino liceal feminino. O gosto pela escrita levou-a, ainda estudante, a colaborar na revista académica Mocidade, criada pelo seu futuro marido, Carlos de Lemos, então aluno do Liceu de Viseu. Os dois fundaram, foram proprietários e dirigiram a revista Ave Azul, que se manteve activa durante dois anos: 1899-1900.

A Beatriz Pinheiro não faltava a veia artística: poetisa, prosadora, música – tocava harpa primorosamente -, actriz. Eram célebres os saraus literários em casa do casal Pinheiro-Lemos, frequentados pela intelectualidade do burgo. Em 1906 estreou-se no teatro amador, participando em récitas promovidas pelo Grémio de Viseu e pelo Teatro Viriato. À artista somava-se a mulher feminista, empenhada em causas sociais. Lutava pelo direito das mulheres ao trabalho remunerado, ao salário justo, à educação e ao ensino. Pinheiro foi particularmente activa na sua cidade natal ao defender uma educação feminina e laica. Como presidente da União das Senhoras Liberais de Viseu, fundou, em 1901, Escola Liberal de João de Deus, destinada à educação de raparigas pobres, encerrada em 1909, após sua debandada de Viseu. Dois anos antes, em 1907, foi a responsável pela introdução do projecto das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus. Desde o primeiro momento esteve, de alma e coração, com a Liga Portuguesa da Paz, fundada em Lisboa a 18 de Maio de 1899, tornando-se na correspondente viseense. Pertenceu, ainda, ao Grupo Português de Estudos Femininos, à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e à Associação de Propaganda Feminista. A16 de Novembro de 1915, em Lisboa, foi iniciada na Loja maçónica «Fiat Lux». No ano seguinte, com o nome simbólico de «Clemence Roger», integrou o quadro da Loja Carolina Ângelo, que abandonou em Janeiro de 1920.

Se o desfecho da revista Ave Azul não pôs um ponto final na colaboração de Beatriz Pinheiro com a imprensa do seu tempo, bem pelo contrário, publicando em periódicos como A Beira, Nova Aurora, Almanaque de Senhoras, A Crónica, Alma Feminina ou O Garcia de Resende, o mesmo não aconteceu com a sua permanência na cidade natal. O ambiente adverso quanto à militância republicana e à ideologia perfilhada, claramente assumidas, a que se poderá somar o conservadorismo católico reinante na urbe, teriam obrigado o casal Pinheiro-Lemos a trocar Viseu por outras paragens. A proclamação da República, a 5 de Outubro de 1910, encontra Beatriz Pinheiro em Lisboa, participando na campanha a favor da aprovação da Lei do divórcio ou na reivindicação do laicismo quer no ensino, quer na prática da enfermagem. Em 1911, como professora provisória, leccionava as disciplinas de Francês, Geografia e História no Liceu Feminino Maria Pia, onde, a 8 de Junho de 1916, proferia uma conferência em defesa da participação de tropas portuguesas no cenário bélico europeu, A mulher portuguesa na guerra europeia. Três anos antes, em 1913, juntamente com Ana Augusta de Castilho, Ana de Castro Osório, Luthgarda de Caires, Joana de Almeida Nogueira e Maria Veleda, fez parte da comissão portuguesa presente no 7º Congresso Internacional «Women Suffrage Alliance», realizado em Budapeste.

Aos 51 anos de idade, no dia 14 de Outubro de 1922, Beatriz Pinheiro falecia na capital portuguesa. Seis meses depois, a 26 de Abril de 1923, em sessão ordinária da Câmara Municipal de Viseu, a proposta do vereador Monteiro Júnior, que convidava “a Comissão Executiva a, na primeira oportunidade, dar a uma rua ou praça de Viseu, o nome D. Beatriz Pinheiro, em atenção às altas qualidades desta escritora e poetisa ilustre que foi desta cidade”[3], era aprovada por unanimidade. Mas a oportunidade, de que falava a moção, nunca surgiu e Beatriz Pinheiro é hoje uma personalidade obnubilada na cidade que a viu nascer e onde exerceu uma activa e empenhada militância social e artística.

Quem sabe se não poderá ser nome de Biblioteca…

 

[1]  In http://www.ruadireita.pt, 22 de Junho de 2018, em linha.
[2] Cf. Assento do baptismo de Beatriz Pinheiro in Arquivo Distrital de Viseu, cx. 31, nº75, fl. 141
[3] Livro de actas da Câmara Municipal de Viseu, 26 de Abril a 24 de Novembro 1923, Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, Viseu, Portugal

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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