Politiqueiros e seus mensageiros

por PN | 2017.05.23 - 09:30

 

 

“Degradar a dignidade da palavra humana reduzindo-a ao nível do uivo dos lobos.”

  1. Steiner, “O milagre oco” (ensaio)

 

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança

Tomando sempre novas qualidades.”

Luís de Camões, “Sonetos

 

 

Todo o mundo é composto de mudança“. Só os néscios o ignoram. E aqueles que não gostam da mudança, são aversos à evolução.

Porém, a evolução, hoje, faz-se a uma velocidade estonteante, mal permitindo que assimilemos adequadamente algo que de novo surge, perante a rapidez da sua desactualização.

Nestes tempos, estar desactualizado é fatal. Se os profissionais das mais diversas áreas o têm presente, mais presente o têm os políticos. E um dos instrumentos que eles mais utilizam, a linguagem, é alvo de uma mudança radical.

O que, para lá de conceder a tal instrumento um valor inestimável, uma dinâmica tumultuosa, lhe confere, também, uma efemeridade conceptual que, pela apropriação, uso, abuso, afastamento do significante ao significado, desvio, desvirtuamento e ausência de escrúpulos dos enunciadores, a transforma não já num primordial instrumento de comunicação, mas – paradoxalmente – num objecto básico e flexível para ajeitar às necessidades circunstanciais. Que na boca dos políticos são as verdades convenientes, mesmo se porventura mentiras pungentes.

Esta capacidade de alteração do signo – aquilo que significa – ao significado oportuno, concede um carácter regressivo e de abjecção à linguagem, porque a afasta do seu valor primicial e moral da partilha pura de ideias, conceitos, sentimentos…

Hoje, os políticos, nomeadamente à frente de um microfone e de uma câmara de filmar, preocupam-se pouco com a limpidez duradoura da verdade da mensagem para erigirem as palavras que usam no seu discurso às exigências momentâneas. Mesmo que sejam, apenas, cínicas e oportunistas “inverdades”.

A comunicação de massas e a crescente acefalia e desinteresse dos destinatários – ciente da desvalorização da palavra neste contexto – transformou a verdade num impune e leviano discurso de mentiras ao sabor das conveniências do destinador.

Quando, a título de mero exemplo, um ex-primeiro-ministro, em directo, para microfones, câmaras e fiéis ululantes, acusou os jornalistas e comentadores de serem “pateticamente preguiçosos“, evidenciou, com inequívoca clareza, a ideia da função que deles tem e da sua utilidade: câmaras de eco glorificadoras e propagandísticas das suas mentiras, ao sabor dos ventos quotidianos e das suas causas. Que o mesmo é dizer: jornalistas e comentadores são importantes, mas de espinha caída, cangote no cachaço, subserviência ao poder e correia de transmissão da publicidade governamental.

Contudo, salvo raras excepções logo transmutadas em assessores de imprensa ou “agamelados”, há excepções que só têm uma verdade: a dos factos. E como os factos fluem frequentemente em contra-maré de muitas lesivas políticas de muitos reles politiqueiros, estes não mudam a mensagem (porque ela é abominável) tentam apenas matar os mensageiros.