Políticos, padres e promessas…

por PN | 2017.04.17 - 12:08

 

 

É sempre um regalo reler Aquilino Ribeiro.

Cinco Réis de Gente”, viu prelo em 1948. De uma forma romanceada, conta-nos os 10 primeiros anos de vida de Amadeu (o jovem Aquilino) na aldeia de Lomba (o Carregal).

No período pré-eleitoral, o fidalgo da quinta do Amparo, D. Nicéforo Fernandes, padrinho de Amadeu, ia com o pai deste de aldeia em aldeia à cata de votos e em luta com o administrador do concelho de Sernancelhe, o capitão José Francisco Vicente.

Neste período que atravessamos, a cinco magros meses das eleições autárquicas, deixam-se estes extractos pelo humor e ironia que contêm e pela verdade que, ainda hoje, 117 anos passados sobre o tempo da acção, em certos passos e certos territórios se revela.

Aí vai:

 

“– Com que sim, o fura-bolos do Pe. Nazaré tem andado a pedir votos…?

— (…) O capitão José Francisco Vicente esteve em Bouçal há uns três dias. A apalpar o terreno. Ouviu uns, ouviu outros, prometeu o seu e o alheio. O padre é o seu braço direito…

(…)

— Na minha opinião, o mais prático é tocar o sino e, uma vez juntos os paroquianos, deita-se-lhes a falácia…

(…)

Seria absurdo oferecer-lhes estradas, pontes, chafarizes, escolas. Por tudo isso professa um profundo desdém. Mais que desdém, azar. As estradas servem de vau aos fiscais do governo e ao venéreo da cidade. É ou não é verdade? Quanto a escola, os pais também não sabiam ler: para que serve saber ler e escrever? Sim, digo eu também, que têm eles que ler e que ganham em conhecer a ortografia e respectivas regras, confinados em suas portelas? O Amílcar perguntará: e a obra da civilização, objectivo necessário de todo o governo que se preza? A civilização com semelhantes brutinhos tem que impor-se à má cara. À parte um ou outro melhoramento de índole eclesiástica, não se interessam por coisa nenhuma…

(…)

— Promete-se tudo. Não se diz a ninguém que não, seja o que for…

— Se algum lapuz quiser ser bispo…?

— Se algum clérigo quiser ser bispo, prometem-se-lhe até as púrpuras de cardeal.

— O Pe. Nazaré é um trunfo de respeito. Se o senhor compadre lhe passar a mão pelo lombo, vira-o para o nosso lado…

— Amen. Por que preço nos venderá o sufrágio?

— Por um prato de lentilhas e mais alguma coisa.

— Tudo vai nesse alguma coisa. Mas venderá? Sim, deve vender. Vende a mulher de César as graças, quanto mais um homem de saias a influência! E ponha lá na carta, Amílcar, que é mais prático comprar o cura que os fregueses.”

 

Se a leitura o interessou, a Câmara Municipal de Sernancelhe, conjuntamente com a Bertrand, reeditou esta obra em 2016 e facilmente a encontrará nas livrarias…