Políticas de nicho ou políticas Sociais

por Manuel João Dias | 2019.12.28 - 17:19

Os partidos do Socialismo Democrático têm vindo a perder peso eleitoral. Mesmo os que têm vencido fazem-no com menos votos e percentagem que em anteriores vitórias. 

Estes partidos têm vindo a dar primazia às questões relativas aos direitos das minorias, a políticas fraturantes e com esta atitude têm abandonado a sua matriz histórica – a luta contra as desigualdades.
Sejam as desigualdades na redistribuição, sejam as desigualdades salariais ou de acesso na carreira, sejam as desigualdades no acesso ao mercado de trabalho.

Este abandono aconteceu quando o liberalismo (capitalismo) mais se instalava e mais aceite era a todos os níveis sociais.
A imagem do “novo capitalismo” em nada se parecia com a que víamos aquando da Revolução Industrial, é mais insinuante.
Agora a “exploração” é mais subtil, mais “natural” é disfarçada e apresentada como propiciadora de acesso social.

No entanto ele contém em si a mesma iniquidade. 

O “segredo” foi dar acesso ao “consumo“.

Os grandes centros comerciais, o crédito, o propiciar a possibilidade de consumir de forma “igual” a todos criou a ilusão de uma sociedade  democrática e com imagem de igualdade.
O consumo passou a ser  tido e a funcionar como o elevador social.
Consumo, logo sou “gente“, parece ser o novo axioma.
Posso consumir ao lado de todos os outros, logo a sociedade onde estou é a melhor, é a que me serve. Se podes consumir como qualquer  outro é porque vives numa sociedade democrática, é  a mensagem.
Mas na verdade não deixa de ser que se vive numa sociedade de exploração que continua a ser tão ou mais desigual que a da revolução industrial (ricos mais ricos e pobres mais pobres).

A ideologia do mercado livre passou a dominar as decisões.
O capital fazia e faz chegar a sua influência através de várias formas.
Os grupos de pressão e as fundações “filantrópicas” foram, são meios usados para se impor.
O cinema e a televisão  que nos mostram, há décadas, a “normalidade, naturalidade e justeza” das relações existentes na sociedade resultante do modelo capitalista, são outro meio privilegiado.
As redes sociais e a internet são-no também e os todo poderosos FAANG (Facebook, Amazon, Apple, Netflix and Google) impõem, todos os dias, a sua lei ou seja tudo é possível desde que lhes traga lucro. 

Urge, assim, que os partidos da social democracia ou socialismo democrático redefinam a sua orientação.
O valor da solidariedade, a redução das desigualdades e a não conformação com a pobreza têm que ser a estrela polar da sua ação.
A promoção de uma cidadania ativa, divorciada do consumismo, que nos reconduza à solidariedade e à fraternidade têm que adquirir centralidade. 
Assim como garantir condições de vida dignas, garantir bem-estar familiar, devolver a esperança coletiva.
Os destinatários tradicionais das políticas  social democráticas e seus eleitores não podem continuar a ser empurrados para o colo de partidos extremistas. 

As lições do que aconteceu aos partidos socialistas na Grécia, Itália, França e, até mesmo, na Alemanha, bem como em outros países não podem ser ignoradas.
O PS, em Portugal, tem esse desafio .
Não pode priorizar “políticas de nicho” por mais que precise de votos na Assembleia da República e desleixar a defesa dos efetivos interesses do seu eleitorado natural.

É altura de tirar, de vez, o Socialismo da gaveta!


Manuel João Dias

Técnico de Segurança Social aposentado

Pub