Política para Tótós

por Alexandre Borges | 2017.02.13 - 17:52

 

 

 

Os partidos políticos consolidados, os grandes, os de mainstream, aqueles que valem acriticamente “sempre” uma quantidade pré-determinada de votos independentemente das propostas que ostentam ou das lideranças que apresentam, puxam para a sua órbita, uma quantidade grande de oportunistas unicamente interessados em contar com esta multidão mais ou menos acrítica e que vê a política como se uma claque desportiva fosse, ou que dá demasiado valor à história que decide, e bem, relevar.

Isto acaba por ter vários efeitos sendo que o mais pernicioso será o desvirtuar do propósito mais nobre dos partidos – discutir ideias, programar políticas, querer o poder para as aplicar. Em vez disto usa-se como instrumento pessoal. Outro efeito, ao fim de uns bons anos, é o afastamento dos eleitores, caídos na armadilha do “são todos iguais” (e alguns serão mesmo), limitando-se aqueles à abstenção ou à mais participativa punição do poder instalado, trocando-o por outros do “arco da governação”, e muito provavelmente contribuindo para o tal cliché da má “igualdade”.

Particularmente responsáveis para esta degradação da imagem da política – inevitável participação cívica dos cidadãos no governo da res publica, são os ambiciosos cidadãos transumantes políticos, sempre à procura de pastos políticos mais verdes, suculentos e nutritivos e sempre acompanhados de um pequeno rebanho, contribuindo para destruir pela base o campo ideológico que deveria servir para o florescimento da confiança da sociedade nas estruturas fundamentais que são, em teoria, os partidos. Qualquer partido lhes serve. Migram da esquerda para a direita e da direita para a esquerda com mais facilidade que uma churra mondegueira vai e vem à Serra da Estrela e atribuindo aos eleitores níveis de falta de vergonha ao nível da consciência da popular ovelha.

A “peste” alarga e sobe naturalmente a pirâmide. Paralelamente instala-se a desculpabilização dos actos dos correligionários, o spin (quando aqui aplicado) do principio da presunção de inocência, como se a confiança fosse coisa de somenos em política.
Vemos dirigentes a navegar à vista e a contribuir activamente com isso para a degeneração do sistema, preocupados em ganhar a qualquer custo e a dizer, com o ar mais cândido, enormidades como “a política é isso mesmo”, como se um líder não existisse para definir rumos.

É já muito usual ouvirmos que “nas autarquias vota-se nas pessoas”, como se isso não fosse válido em qualquer eleição, como se não devêssemos validar um binómio política-cidadão, até pela confiança que quem se devia propor aplicar uma política, nos inspira. Mas ouvimos isso de dirigentes distritais e nacionais como forma de desculpa.

Eu que, por incapacidade ou porque gosto do método científico – não sei, tenho frequentes dúvidas, fico sem saber se são os eleitores ou outros os tótós…

 

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC.
Virulentamente bombeiro.
Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

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