Pobreza e abandono

por Carlos Cunha | 2019.08.21 - 18:44

Quando duas crianças vivem até aos 10 anos com os pais numa garagem sem quaisquer condições de salubridade e privadas da mais elementar vida em sociedade, não há quem se possa sentir indiferente, e terminar tranquilamente a refeição se for o caso disso, sem lhe dar uma enorme volta ao estômago.

É caso para se dizer que há animais de estimação incomparavelmente mais bem cuidados e amados do que aquelas duas infelizes crianças, confinadas na sua curta existência a quatro paredes, numa pobreza material e de espírito proporcionada por quem delas deveria cuidar.

Parir não é amar, amar é cuidar, dar o melhor todos os dias para que cada criança se sinta verdadeiramente amada.

Escrevo estas linhas com profunda revolta, porque TODOS falharam com estas crianças. Falharam os progenitores, porque ser pai e mãe vai muito para além do acto físico de pôr um filho no mundo. Falhou a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, porque se limitou a dar um tratamento meramente administrativo ao processo destas crianças, que foram sinalizadas quando tinham apenas 4 anos. Falhou a Assistência Social, porque dadas as carências económicas do casal deviam ser acompanhadas por uma assistente social da Segurança Social, que provavelmente acumulou o processo numa qualquer gaveta da secretária ou procedeu ao seu arquivamento. Falhou o Município e os serviços de ação social, visto que havendo duas crianças preferiram ignorar que estas viviam numa garagem sem as mínimas condições de habitabilidade.

Estas crianças passaram por um incontável número de privações que lhes deixarão sequelas graves ao nível da aprendizagem, afetivo e psicológico que as marcarão para toda a vida.

Nesta história tem de haver culpados, porque se não os houver estaremos a perder toda a humanidade, atingindo o underground da existência.

Carlos Cunha

(Fotos DR)

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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