Perfeito vazio

por Vítor Máximo | 2018.03.10 - 11:39

 

 

Fui a uma entrevista de emprego onde me apresentei como lenhador, quando me foi inquirida a minha experiência profissional, contei que tinha sido lenhador no Sahara. O entrevistador pensou que estava a gozar com ele e exaltado retorquiu logo de imediato que o Sahara é um deserto, não tem árvores!

Pois. Agora é! Respondi eu.

A desertificação é o bicho papão que, se não atormenta devia atormentar os sonhos dos autarcas do Interior. Ninguém quer ficar com o rótulo de lenhador e por isso todos os concelhos se desdobram em medidas para fixar a população e cativar caras novas.
Tem sido uma luta desigual, com uma sangria lenta mas constante e não há cheque bebé que a estanque.

Acredito que Viseu tenha tentado um pouco de tudo com bons e maus resultados. Mas não creio que já se tenha parado para avaliar onde e que medidas foram bem sucedidas e onde o dinheiro do erário público foi bem gasto.

Será que a falta de investimento privado, aquele que gera centenas de postos de trabalho apenas se deve ao mau estado do IP3? Será que a A25, a A24,o aeródromo não chegam? É mesmo necessário o comboio, o funicular não chega? É mesmo só uma questão de rodovias?

Podemos até dizer que as tão faladas auto estradas e ip’s apenas serviram para levar as pessoas do interior para o Litoral. Não será melhor parar, escutar e olhar. Parar para avaliar os sucessos e insucessos, escutar a população, as juntas de freguesias, associações privadas, serviços públicos, os jovens, os idosos, os empreendedores locais e depois olhar para o futuro, projectar a médio/longo prazo devidamente munidos de informação relevante e objectiva. Está na hora de reflectir e agir com políticas concretas e nós cidadãos temos a obrigação de ser a primeira barreira ao disparate.

Andámos anos felizes e contentes quando qualquer terra embora sem precisar e a perder população exigia pavilhões desportivos, salas de espectáculo, piscinas, centros disto e daquilo. Todo este novo riquismo que marcou o sucesso eleitoral de muitos autarcas, pesa agora e muito nos bolsos dos municípios, que tal como nós não souberam avaliar o estrago de tão ocupados que andavam em ter a cidade mais verde, a cidade com o melhor ar, que se esqueceram de criar as raízes para o investimento privado, fixar população com um crescimento sustentado, então aí já fariam falta as piscinas e tudo mais o que fosse necessário ao nosso bem estar.
Já há muito que o Interior perde poder, e perde-o porque quis ser grande antes do tempo, não quis as dores do crescimento e com a ajuda de um estado que lavou as mãos, tratando-nos como portugueses de segunda tirando-nos serviços, apoio financeiro adequado, uma fiscalidade atractiva (que ainda dá para as ilhas), condenou o nosso futuro.

Para um homem com um machado uma árvore é sempre um problema e a mesma receita não pode ser usada para todas as maleitas.
Teremos de ser criativos, diferentes, inovadores e sabedores do melhor que a região tem. Teremos de definir as nossas prioridades e pensar porque motivo não somos atractivos ao grande investimento. Se pensam que o turismo vai ser o eterno sustento, apenas porque temos alguma ruralidade e paisagens bonitas, esqueçam. As modas mudam. Temos de estar em constante evolução.
Depois disso temos que aceitar que nunca seremos como a capital e ainda bem, é nessa diferença que está uma das nossas forças. Haverá sempre quem deseje conhecer mundo. Isso é uma inevitabilidade. Mas é uma via de dois sentidos uns vão mas virão outros, mas mais importante são aqueles que ficam porque terão um mundo de oportunidades ao alcance da mão.

 

Victor Máximo

Militante CDS-PP

 

Educador de infância. Militante CDS-PP

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