Pedrógão. Luto e vergonha

por Luís Ferreira | 2017.09.27 - 11:09

 

Ano após ano os verões em Portugal são quentes de calamidades e cinza. Sofremos, lembramos, criticamos e esquecemos. Esquecemos mal nos bate na cara o primeiro vento mais fresco de Setembro e adivinha-se que para a ano há mais.

Há pouco mais de três meses, durante uma semana quente de verão ardia Pedrógão como se de rastilho se tratasse. Os números finais arrepiam de tão estrondosos serem. Quase 26 mil hectares de terreno ardido. Levaram-se quase 70 vidas. Arderam as histórias vividas em quase 500 casas.

Desde o início do trágico acontecimento que tudo tinha para correr mal e tudo começava a ficar mal (muito mal) contado. Primeiro, o incêndio tinha sido provocado por uma “trovoada seca”. Depois vieram os experts dizer que afinal a trovoada apenas tinha sido sentida a muitos quilómetros dali. Foi então que os bombeiros começaram a revelar dificuldades de comunicação entre si. A culpa parecia ser também das trovoadas secas. E toda esta desorganização, infelizmente, revelou-se fatal para as 64 pessoas que tentavam a salvação ao fugir daqueles infernos. Culpa? Que culpa? … A culpa não é de ninguém. E mesmo com tantas respostas em falta, ninguém se honrou ou dignou demitir. A Ministra da Administração Interna ainda quis demitir o Comandante Nacional da Proteção Civil, mas ele bateu o pé e recusou. Só que depois veio uma jornalista trocar-lhe as voltas, estudou o seu caso a fundo e percebeu-se que afinal esse mesmo comandante era licenciado em equivalências. (Eu tinha-lhe atribuído o título de mestre, até). Demitiu-se, então. Não por honra ou dignidade. Vergonha, diria eu.

No entanto, passados esses dias duradouros, cansativos e traumáticos para todos nós, depois de muito dinheiro e muitas vidas ali queimadas, foi então que a sociedade civil se uniu empenhadamente em diversas campanhas solidárias e conseguiu arrecadar, ao que dizem, mas ninguém sabe ao certo, 13 milhões de euros. Mas como estamos em Portugal, agora ninguém sabe do dinheiro. Ou sumiu, ou ardeu também com algum trovão seco.

Não o costumo dizer com tal frontalidade ou veemência, mas tenho vergonha desta caricata história que vivemos em Portugal, que além de indigna, é triste. Pedrógão Grande e os concelhos limítrofes sofreram ontem, mas amanhã podemos ser nós. Ia gostar de ter respostas concretas, não ia? Somos um país de ou não-respostas, ou respostas “originais”. Lembre-se da resposta que deram a Tancos: pode até nem ter acontecido nada em Tancos! E às tantas pode até nem ter acontecido nada em Pedrógão e isto ser ficção também. Já não sei de nada. A propósito, Tancos e Pedrógão existem mesmo, certo?

 

 

Foto: Agência Lusa

 

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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