Paula Rego: uma vida que explica a obra ou uma obra que explica a vida?

por Amélia Santos | 2017.05.16 - 16:30

 

Desde há uns anos que sou uma admiradora fervorosa da pintora Paula Rego. Recordo com nitidez a exposição que dela vi em Serralves. Aquelas telas grandiosas representando mulheres de carne e osso, reais e quotidianas, de corpos roliços e rostos que transpiram vivências verídicas e sofrimentos autênticos, nunca mais me saíram da cabeça. Não consigo evocar essas mulheres sem ser invadida por emoções várias e, às vezes, contraditórias. Estas imagens impactantes ficam efectivamente gravadas na nossa alma.

Mulheres submissas. Imagens dominadoras.

Esta semana vivenciei outro momento alto relacionado com Paula Rego. Fui ver o filme/documentário «Paula Rego, Histórias e Segredos», realizado por um dos seus filhos, Nick Willing. Devo confessar que este momento não foi menos poderoso que aquele em que tive à minha frente os seus quadros, as suas pinturas, aquelas mulheres de carne e osso, que nos atiram mensagens, frases, às vezes gemidos, outros gritos. Neste momento, vemos no ecrã a própria Paula, mulher primeiro, artista depois. Ainda que a Paula-mulher seja indissociável da Paula-artista, fica-se a conhecer a mulher real que sofreu como qualquer mulher banal, que experimentou o risco e vivenciou as mais duras adversidades e que conseguiu, numa espécie de catarse, exorcizar os seus demónios e medos nas, e com, as suas magníficas pinturas.

O que o seu filho, Nick Willing, nos apresenta é mais uma série de quadros da Paula, em que ela é a personagem representada em vários momentos da sua vida. Quadros honestos, tocantes, viscerais, como os demais… Mas aqui ela aparece aos olhos do espectador sem o filtro da arte pintada, mas com a expressão da arte feita vida, ou melhor, da vida feita arte. Ao longo do documentário o seu filho faz-lhe algumas perguntas íntimas, e ela, despindo-se de preconceitos perante o filho, e perante o mundo de espectadores que irão assistir ao documentário, responde com uma assustadora honestidade e frontalidade. É essa frontalidade sem interdições, que nos habituámos a ver nos seus quadros, que nos toca no mais recôndito de nós… Que desperta os nossos medos, os nossos monstros. Que traz à luz da consciência o que tantas vezes queremos adormecido, num quase torpor letárgico ou ansiado esquecimento…

(foto DR)

A Paula fala de si, da sua vida, das suas opções, das suas fraquezas, dos seus medos com uma encantadora serenidade, trazida certamente pelos seus oitenta anos. Mas consegue atingir-nos com a mais precisa pontaria… E faz-nos pensar. Muito. Obriga-nos a tentar encontrar o sentido das coisas e das relações humanas. Quem foram as nossas mães? Talvez não tenham correspondido à imagem ideal que delas temos. Talvez tenham sido mais humanas, do que aquilo que alguma vez tiveram coragem para contar ou nós para ouvir…

E quem somos nós? Como lidamos com as nossas fraquezas, com os nossos erros e com as nossas dores mais silenciosas? Teremos a capacidade de enfrentar aquilo que nos atormenta? Conseguimos destralhar o nosso inconsciente? Qual a fase da vida em que conseguimos libertar os segredos recalcados, inconfessados e inconfessáveis, que farão de nós seres humanos pouco convencionais? Será esse o nosso momento apoteótico? Aquele em que de alguma maneira também somos, e nos expomos, dramaticamente de carne e osso como a “mulher cão”? Como disse Agustina Bessa LuísToda a grande obra é cruel. Porque arrasta almas”.

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

Pub