Para discutir…

por Nuno Rebocho | 2017.08.22 - 16:13

Desde a composição e impressão a chumbo, foi toda uma transmutação tecnológica da Comunicação Social a que tive oportunidade de assistir: primeiro nos jornais impressos, depois na rádio e, finalmente, nos jornais digitais. Do periodismo regional á grande imprensa diária, dos semanários, da imprensa especializada (económica, cultural, desportiva ou de moda), da rádio local à rádio nacional, do jornalismo digital (em Cabo Verde), por tudo passei nestes domínios. Assisti aos últimos dias da impressão a chumbo, à introdução do offset em Portugal, à introdução da informática. Sou dos tempos da redação em chamado teclado nacional e confrontei-me com a necessidade de escrever via computador. Nos velhos tempos, os textos eram remetidos fora da redação via telefone, ditando palavra por palavra. Depois passou a recorrer-se ao fax. Até que o computador e a internet forjaram novos modos para acelerar o processo informativo.

Após os jornais em grande formato, surgiram os formatos reduzidos. O papel impresso foi desaparecendo: os jornais entraram em crise, apareceram os jornais digitais. Razões económicas e ecológicas pesaram na racionalização dos processos, contribuíram enormemente para a profunda revolução havida na Informação. Em cinquenta anos o mundo mudou por completo: não mais o jornalista é o que foi. Quando entrei para o jornalismo, exercia-se a profissão por vocação (havia jornalistas com a 4ª classe). Integrei o primeiro processo de formação feito em Portugal com formadores vindos dos principais órgãos europeus (França, Inglaterra, Alemanha): i Governo Constitucional, ministro Manuel Alegre, fia parte da primeira leva de formandos do CENJOR, dei formação em Comunicação no IJOVIC, na Meriberica e em Cabo Verde.

Nos velhos tempos, discutia-se profundamente os problemas da Comunicação Social, que hoje são completamente diferentes. Por exemplo, antes da generalização da internet e do you tube, pensou-se que rádio e televisão seriam complementares, chegando a rádio mais longe que a tv – a tv não chegava a todo lado, tinha horas sem emissão, era difícil gravar programas para os rever, etc. Andei com o pastega às costas: era pesado o material para gravar e emitir.

Hoje, a desaparecerem os jornais, ameaçadas as rádios e televisões, nasce a ideia de que as chamadas redes sociais irão substituir os tradicionais processos de Informação: qualquer um seria um informador, um emissor de Informação. Nessa perspetiva, um mundo novo estaria a aparecer.

Na minha opinião, nada mais falso. Generalizando-se as chamadas redes sociais, a comunidade continuará a necessitar de âncoras que separem o trigo do joio, definam “critérios de verdade” (seja isso a maior falsidade deste mundo – a verdade, é mais do que subjetiva. Mas tem regras, fundamentos avalisados pela sociedade. É nesse “critério de verdade” que o profissional assenta bases. E é esse “critério de verdade” – que a sociedade, o cidadão e grupos organizados de cidadãos requerem – que as redes sociais não podem fornecer. Os meios de Informação, digitalizados que sejam, serão sempre uma necessidade social: haverá a regra – “é verdade, foi o jornal Y que o disse”. Está aberta a porta para as técnicas da manipulação e da propaganda, que têm e terão regras.

Sei que tudo isto é discutível. Que há quem com estes aspetos não esteja de acordo. E proponho que discutamos, sem tabus de nenhuma espécie, estas questões.