Outra vez Abril!

por Maria Sobral | 2017.04.24 - 11:29

 

Não me refiro claro, e nem apenas, ao mês que corre…mas sim ao ato libertário e revolucionário, de cariz moderno e pseudoeuropeísta, que teve o seu apogeu no dia 25 de Abril de 1974. Defino-o assim, talvez de uma maneira menos usual, porque esse é também o intuito deste artigo, pensar como podemos e devemos (re) definir indefinidamente os valores de Abril.

A roleta do Ministério da Educação tem-me apontado nos últimos anos o destino de alguns meses. Para alguns, este ato ad continuum é de grande infortúnio e não lhes confere a tão ansiada estabilidade; para outros (isto porque quero acreditar que são pelo menos alguns), como eu, é só o abrir de novas possibilidades, novas oportunidades; adquirir novas experiências e enriquecer-me como pessoa e como profissional. Uma das coisas com as quais me perco demoradamente é ver de que forma as escolas de diferentes regiões, com diferentes tradições, homenageiam, recordam e celebram certos feriados e datas de relevo. Por vezes, nem a proximidade quilométrica é sinónimo de homogeneidade, mas tirando as óbvias celebrações do Natal e Carnaval com maior dedicação artística, o feriado de 25 de Abril tem sempre um destaque especial, e até à data é regra sem exceção.

Este ano, na Escola Secundária de São Pedro do Sul decorre uma pequena exposição no espaço de convívio, a que não pude passar indiferente, primeiro pela simplicidade dos elementos e das cores, depois pelo conteúdo escorreito e algo intrigante, que acabou por me fazer aproximar mais e mais, até me deleitar pela leitura dos retalhos noticiosos em destaque, pelas letras de Zeca Afonso, e pelas fotografias tão bem escolhidas (vide fotos anexas). Nas quatro ou cinco vezes que subi e desci as escadas de acesso à sala de professores, houve sempre um aluno que consciente ou inconscientemente traçava o mesmo trilho de observação até ao detalhe dos painéis expositores…numa altura em que nos batemos pelo interesse e motivação escolar, numa luta direta contra as novas plataformas tecnológicas, é extasiante ver como um simples painel, bem feito, com uma mensagem clara e objetiva pode cumprir tão bem esse objetivo. Mas se o objetivo pedagógico foi atingido, considero que talvez, num pequeno universo de deambulantes interessados, mais aqueles que por obrigatoriedade de uma qualquer aula farão visita a esta pequena Exposição dedicada a José Afonso e o 25 de Abril, sairão jovens adultos que farão exatamente aquilo que todos devemos fazer todos os dias, como cidadãos filhos da liberdade, fazer Abril, hoje, fazer Abril para sempre…e que melhor maneira de fazê-lo, do que lembrar Abril, mostrá-lo, explicá-lo, ensiná-lo… Francisco Sá Carneiro em campanha pela AD em 1980 e perante um país dividido, com a aproximação da data em vez de falar em Abril, propôs ao eleitorado que se construísse Abril, parece-me estranhamente actual esta necessidade.

É assustador pensar que na “nossa” europa se elegem ditadores pela via democrática, é assustador pensar em ascensões de extremas direita, ou de qualquer coisa com “extrema” no nome ou conotação….em tão pouco tempo, tanta coisa mudou, o mundo não se está a tornar naquilo que a minha geração idealizou na década de noventa, pensávamos que a luta ia ser só ambiental, dos direitos na igualdade de género e orientação sexual, ou quem sabe, de conquistas ao espaço e ao mar profundo…e vai que a palavra “terror” marca a vermelho sangue os últimos anos e os últimos meses. Mas este seria tema suficiente para outro artigo, com isto pretendo apenas mostrar, o quão perto estamos da necessidade constante de reavivar os ideais de Abril, temos de garantir que as nossas gerações futuras não esqueçam valores fundamentais que nasceram no dia 25 de Abril de 1974 e que eu sei que vão crescendo na sociedade portuguesa devagarinho, mas nunca esmorecendo.

Ainda há pouco mais de 40 anos éramos um país fechado, isolado, em que o analfabetismo de quase todos era profícuo às ambições de uns quantos poucos, uma altura em que ser português era andar com o seu natural “navegador” e “conquistador” muito muito apertadinhos num coração também ele espremidinho…só quem não consegue fazer este alcance de memória histórica, mesmo sendo demasiado novo para o fazer recorrendo à sua própria lembrança, é capaz de se convencer erradamente, que Abril deixou de ser importante e os seus valores deixaram de estar presentes na vida dos portugueses, eu afirmo, eu vejo, eu confirmo que se não todos os ideais, mas pelo menos alguns ainda se conservam de boa saúde neste nosso paraíso, e que a vergonha de não os lembrar nem pôr em prática tem vindo de alguns dos nossos colegas europeus, colegas que também tiveram os seus “25 de Abril”…

Tristes tempos para uma geração habituada a nunca questionar a sua Liberdade, concedida por uma geração antiga cheia de Vontade.

Viva-se Abril, Sempre!!!

Geóloga por graduação e afeição telúrica natural.
Formadora na Escola Profissional de Sernancelhe.
Técnica dinamizadora do Centro Interpretativo Aldeia da Faia.
Promotora de consciência ambiental e cultural.

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