“OS VELHOS PRECISAM DE AMOR”

por José Carreira | 2017.06.12 - 12:00

 

 

“Eu segurava a mão da mulher. Os seus olhos estavam cercados por roupas negras, um lenço negro, um xaile negro. Hoje, preciso de ti. Depois de nós, nesse tempo, houve uma verdade que ficou parada nos meus olhos: alguém de quem gostamos muito, o amor, ficará nas árvores, continuará a crescer, como uma criança, dentro dos troncos e dos ramos mais finos das árvores.”

(José Luís Peixoto, in ‘Cal’)

 

No âmbito do 18.º Festival de Teatro de Viseu, fui espectador atento, no IPDJ, da peça de teatro Cal: do amor e outras enfermidades, levada à cena pelo Grupo de Teatro Molhe de Grelos.

Após o sucesso da encenação de Sem Medo Maria, baseada no livro de Fernanda Freitas, que abordou o tema da violência doméstica, desta vez, a inspiração foi o livro Cal, de José Luís Peixoto, que aborda a amizade, os laços familiares, as relações amorosas, as memórias dos idosos, a solidão, o tempo, a morte, a doença de Alzheimer…

Os fortes e prolongados aplausos do público foram o culminar do momento mágico que nos foi proporcionado. BRAVO! BRAVO! BRAVO!

Ter ao meu lado direito um casal de octogenários e à frente dois casais de adolescentes é algo digno de registo, a imagem do público eclético e intergeracional que encheu a sala. Algo difícil de alcançar, mas que foi concretizado pelas atrizes e pelos atores -Manuela Bento, Paulo Matos, Carlos Cruchinho, Daniela Cardoso, Margarida Quintal, Manuela Antunes, Isabel Brito, Florbela Cunha que deram vida às personagens – e equipa técnica – Florbela Cunha (Dramaturgia, encenação e cenografia), Helena Figueiredo (Assistente de som), Paulo Matos (desenho de luz) e Eva Paulo (Assistente de luz).

A propósito do livro, Eduardo Prado Coelho escreveu:

“A grande força está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento.”.

Foi exatamente o esquecimento, a perda de memória que mudou a vida de Olga e do marido, Vlademiro: “Ela pode não saber quem é, mas tem a graça de nem saber que não sabe quem é. (…) Não lhe chamo nada. Quando perdeu o juízo, também perdeu o nome. A gente pode estar mesmo ao pé dela, ela pode estar mesmo aqui, que se a gente chegarmos e dissermos: à Olga; ela nem se mexe, continua a olhar para onde estiver a olhar e é como se não ouvisse nada.”

Uma das personagens concluiu que “os velhos também precisam de amor”. Todas as pessoas precisam de amor, independentemente da idade.

Lanço o repto ao grupo de Teatro Molhe de Grelos: apresentem a peça, no âmbito do ENCONTRO @ VISEU 2017 – Alzheimer e Outras Demências, no dia 21 de outubro de 2017. BEM-HAJAM!