Os subsídio-deputados

por PN | 2018.05.04 - 18:04

 

 

A Assembleia da República tem 230 deputados. Muitos. Uma floresta. Todavia, algumas árvores não fazem a floresta e queremos acreditar que ainda há deputados exemplares, com espírito de cidadania e de missão modelar.

E depois há os outros. Aqueles que aproveitam todas as oportunas circunstâncias para juntar mais uns patacos ao salário usufruído.

A lei que eles aprovam, e sendo parte interessada não deveriam ter voto na matéria, concede-lhes mordomias várias. A essas mordomias, com maior ou menor rigor, juntam sub-mordomias que lhes permitem dar “cor financeira” ao fino bouquet de rosas que já lhes cai no regaço (não, não falamos do milagre das rosas…) ao fim de cada mês.

Francisco Assis, não o franciscano mas sim o bruxelense político dizia, se a memória não nos falha, que mais valia darem um Clio a cada deputado… Compreendemos o humor e aceitamos que a medida sairia mais barata ao erário público.

Qualquer profissional, seja médico, professor, engenheiro, trolha, canalizador, se tiver que se deslocar do local da residência para o lugar de trabalho recebe nada. Porque hão-de estes cidadãos receber? Alguém lhes bateu ou obrigou a esfolarem-se todos para serem deputados?

Haverá nesta rábula mal contada alguns factores atenuantes. Talvez. Haverá quem diga que são deputados a mais e competência a menos. Talvez. Haverá quem afirme que são mal pagos. Talvez. Que fazem muitos quilómetros entre o círculo eleitoral que os elegeu e a Assembleia da República. Talvez. Haverá quem diga que para o que fazem recebem de mais. Talvez.

Certo é que nenhum foi para deputado obrigado ou ameaçado. Certo é que uma legislação ambígua e opaca permite todos os estratagemas possíveis, mesmo os mais indignos. Certo é que nunca se criou uma legislação transparente e inequívoca sobre a matéria. Porquê? Porque não interessa. A plurivocidade serve a todos e, numa linha de 180º, da esquerda à direita, não haverá muitas imaculadas e impolutas virgens a não serem dela usufrutuárias. Para descrédito de todos. Da República, do estado de direito e democrático, frequentemente autista e da classe política, em geral, entrevista, por causa de um punhado de oportunistas, como uma vil seita de malévolos aldrabões.