Os petiscos do senhor engenheiro…

por PN | 2017.09.23 - 14:06

 

 

…estão ali à nossa espera na antiga estação de Parada de Gonta, que vai pela estrada “velha” de Tondela.

Victor Costa é engenheiro naval de profissão e dado à gastronomia por paixão. Provavelmente por tal, trocou o mar incerto pela terra firme e abriu, na casa do guarda-linha, ao lado da Ecopista, um pequeno bar/restaurante onde sacia a sede dos passantes e aplaca a fome dos viandantes. E chamou-lhe “Temperos Nómadas”, talvez invocando ainda a sua vida de marinheiro, com milhentos portos globo afora e de sedentária, só a vida de muitos anos a bordo passada.

Há sempre conduto sem prévia marcação, mas… se se der ao trabalho de encomendar, a panóplia de oferta é numerosa e de fino gabarito.

Se da última vez que por lá amesendámos, o javardo ou porco-bravo, avinhentado e de grêlos salteado se apresentou com uma qualidade de supino acerto, desta feita, a nossa escolha foi para um arroz de sardinha. Direis vós que é manjar pobrinho, vos retorquindo eu que a ciência da confecção o alcandorou a mesa de sibaritas.

Vamos por partes, com o “Chef Victor” incluído, como os dias da semana, os sete planetas, os sete graus da perfeição, as sete pétalas da rosa, simbolizando a totalidade do espaço e a totalidade do tempo, (“à mesa não se envelhece”), sete nos sentámos para no paio com broa iniciarmos o sapiente ritual, seguido de cogumelos grelhados só com sal e “saias” de muito folho e tenrura apropriada (redanho).

De seguida, já confortados e sem pragas a rogar à vida, apresentou-se na padela de barro o arroz a ressumbrar do tacho, boiando em sua calda saborosa e acolitado das sardinhas, banhadas em cebola, tomate e pimento que, nessa mesma madrugada, tinham saído do mar, chegado à lota da Figueira da Foz e, como o “peixe voador” do Pe. António Vieira, “naquele convés já jaziam”.

Este escriba, que tem uma embirração crónica com este tipo de “manjuas”, só parou quando viu o fundo à segunda pratada. Para todos, à disposição, um piri-piri swahili “pepper pepper” oriundo das funduras do Inferno e um vinagre caseiro a fazer jus à sua origem de “vinho agre” que bem apaladou, se tal ainda possível fosse, as humildes gramíneas que alimentam meio mundo.

O vinho, tinto e caseiro, nos seus 14 graus de teor alcoólico, cumpriu galhardamente “à chamada”…

Para aclarar o palato de tanta e tão suave “agressão”, o requeijão, o queijo das ilhas e a marmelada do senhor engenheiro, deixou-nos a toar loas à vida e, até, a esquecer-nos dos bulícios políticos que, nestes dias assanhados se tornam poluição, em geral, tirando um ou outro mais criativo, que, juntamente com seu programa, manda um “choiriço izidoro”, passados que foram, os tempos áureos dos electrodomésticos ao domicílio, ali para bandas de Gondomar…

O endereço certo desta casa de boa fama e melhor proveito é:

Rua da Estação – Póvoa da Catarina, S. Miguel de Outeiro (mas não esqueça que é pela estrada velha de Tondela, junto à linha férrea, que ninguém almeja ressuscitar, que com a “estação” vai dar). O tm é o 917 532 603 ou o 232 959 261. O email sendo temperosnomadas@gmail.com.

Se tiver um grupo de amigos, dê asas à sua imaginação e desafie o nosso engenheiro naval para a contenda. Terá uma surpresa.

Não espere luxos. Só qualidade e, se quer saber aqui lho confesso, o supra epigrafado saiu a 15€ por conviva, sem incluir a sã convivialidade.

Se souber onde há melhor, dê uma dica. Não seja egoísta, pela sua rica saúde e cidadã solidariedade humana…

 

Nota: Esta crónica não foi encomendada e o manjar, por cada um “à Porto”, foi pago.