Os palcos não podem ser para todos!

por José Chaves | 2019.01.08 - 10:31

 

 

Que cada um possa ter as ideias que quiser, não há qualquer dúvida!

Que cada um pague pelos crimes que cometeu e depois disso exerça cabalmente a sua cidadania, nada contra!

Que cada um divulgue livremente as suas ideias, já tenho algumas reservas!

A liberdade de expressão não é, nunca foi, nem pode ser um direito absoluto. Caso o fosse, os crimes de injúrias e difamação não existiam no Código Penal, nem as ofensas a pessoa falecida, nem as ofensas às pessoas coletivas, organismo ou serviço constariam no nosso sistema sancionatório, assim como outros crimes que implicam ofensas!

Quando se dá palco a alguém cuja opinião (bem como os seus atos, porque já os praticou, condenado e nunca arrependido), é que as pessoas podem ser discriminadas, torturadas e até mortas, recorrendo-se ao puro ódio racial,  estamos a colocar como possível a existência dessa sociedade…

Por ideias como estas, a humanidade já sofreu demasiado…

Sofreu às mãos de gente que se sente feliz pelo sofrimento atroz que provoca nos outros, de pessoas cujo ódio as levou a mutilar, a violar mulheres e crianças, a levar para câmaras de gás apenas porque é a sua ideia.

Não nos podemos dar ao luxo de que estas ideias proliferem… Foi demasiado grave e macabro para que se possa arriscar o mínimo que seja!

Em 1945 toda a humanidade se sentiu envergonhada, mas sobretudo aqueles que, por omissão, deixaram que tivesse acontecido a mais indecente ação contra a dignidade da própria humanidade… Reduziu-se a nada, a pessoa humana! O Homem foi transformado em coisa… e ninguém ficou a salvo!

Ainda hoje, muitos alemães se sentem culpados pela sua NÃO ação, carregam sobre os seus ombros o peso de uma omissão que levou à maior barbárie de sempre contra pessoas.

É por isso que ninguém pode ficar calado. Ninguém pode ficar indiferente a uma, por muito ténue que seja, possibilidade de se repetirem atos como os que já se viram. Não basta ficar neutro, porque foi precisamente por muitos neutros que eles chegaram ao poder. Não se pode ficar calado, porque calados aceitamos a tortura e a morte por motivos raciais.

Este tipo de pessoas não pode ter palco para as suas ideias. Só a mera possibilidade de existência de uma sociedade destas deveria ser suficiente para que todos, sem exceção, nunca dessem voz a quem faz do ódio e do sofrimento a sua vida – apenas porque sim!

 

Primeiro levaram os comunistas,
Mas não falei, por não ser comunista.

Depois, perseguiram os judeus,
Nada disse então, por não ser judeu,

Em seguida, castigaram os sindicalistas
Decidi não falar, porque não sou sindicalista.

Mais tarde, foi a vez dos católicos,
Também me calei, por ser protestante.

Então, um dia, vieram buscar-me.
Nessa altura, já não restava nenhuma voz,
Que, em meu nome, se fizesse ouvir.

Martin Niemoller

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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