Os missionários da política

por PN | 2017.08.25 - 12:34

 

 

O altruísta dedica-se ao bem. Não no sentido de bem pintar uma tela, de escrever um soneto perfeito, de construir uma casa bem construída. Não é esse bem. O altruísta dedica-se a fazer o bem aos outros. Ao seu semelhante.

Fazer o bem é um conceito estranho e deveria ser desnecessário por inerência ao ser humano, fraterno e justo. Solidário com os mais desfavorecidos e sofridos, seja de saúde, da sorte ou desprotegidos da fortuna. Em oposição temos o fazer do mal. Há quem o faça por perversa convicção, por mero egoísmo, ganância ou, até, por básico desconhecimento do negativo alcance dos seus actos.

Como outrora, os missionários que iam para os mais recônditos e agrestes territórios do planeta, evangelizar, difundir o cristianismo e a fé e por eles perder tantas vezes a vida, tendo na rectaguarda cómoda e decisória, na sumptuosidade dos seus conventos, os mazarinos do poder, que mais do que a fraternidade e difusão da palavra de Deus, ombreando com os poderosos dos reinos e os negreiros por eles protegidos, aplacavam a cupidez e os escrúpulos a troco de muita “burra” (*) recheada de oiro.

Também hoje encontramos muitos missionários, mas já não na inospitude do longínquo território, antes nos lugares de decisão política, tantas vezes com muito poder mas escassos da autoridade concedida pelo saber, competência, seriedade e mérito.

Parafraseando Manuel António Pina, não o poeta sublime mas sim o jornalista íntegro e coerente que escrevia no JN – que já foi um grande jornal – “Hoje, os futuros dirigentes a Nação formam-se nas “jotas” a colar cartazes e a aprender as artes florentinas da intriga e da bajulice aos poderes partidários, enquanto à Universidade cabe formar desempregados ou caixas de supermercado.”

 

 

*As “burras” eram arcas chapeadas a ferro onde vinham muito protegidas as cargas preciosas das “descobertas”.