Os factos de Agosto

por Nuno Rosmaninho | 2019.11.10 - 01:56

Deixem-me rematar o mês de Agosto de 1942. Raras vezes medito na escolha dos assuntos que dão a passagem do tempo. Para lá das corridas de bicicletas travadas nas estradas bairradinas, nada encontro de firme. E no entanto as minhas preferências têm pouco de casual. Os existencialistas falavam do homem e da sua condição. Podiam ter exemplificado com o ciclista. Ele sente que nunca sai da bicicleta porque, uma vez nela, parece que nunca a abandonou. «Outra vez arroz?», costuma perguntar o Informático Motard na Primavera, quando se sucedem as subidas ao Moinho do Pisco.

Em Agosto, Churchill foi a Moscovo para se encontrar com Estaline. Descreveu-lhe a casa de campo, espaçosa, bela, ajardinada, com um bosque e uma cerca de quatro metros e meio de altura. Informou-o sobre a abertura de uma segunda frente de combate aos alemães no norte de África. Enfureceu-se com as suas observações corrosivas. Viu-se obrigado a participar num banquete de dezanove pratos no Kremlin, onde um leitão permaneceu intacto sobre a mesa.

Enquanto estas coisas se passavam longe, alguns desportistas escreviam sobre «espírito desportivo e paixão no desporto». Num mundo em violência extrema, Salazar Carreira faz a «apologia do desporto apaziguador de paixões», sabendo perfeitamente que é a cólera que prevalece. O desporto acalma os praticantes se a paixão competitiva não os exaltar. «A essência do desporto é a lealdade, o idealismo e o brio», diz este terno pensador, enquanto outros sublinham as estatísticas do predomínio desportivo alemão e, na União Soviética, se movem as peças para a Batalha de Estalinegrado.

No dia 30, disputaram-se no Porto as «duas horas à americana», competição que desconheço e portanto não sei explicar. A Voz Desportiva noticiou de imediato, numa nota quase invisível no fim da terceira coluna da página quatro, que «Armando Esteves e Manuel Herdeiro, do Sangalhos, foram os vencedores, com absoluto merecimento».

Nuno Rosmaninho