O TEMPO OU A FALTA DELE?!…

por Cílio Correia | 2017.04.02 - 08:27

 

Não ter tempo é uma característica dos tempos modernos, de gente muito ocupada o que nem sempre acontece, mas, enfim, damos isso de barato. Não passa um dia que não se ouça alguém dizer que não lhe sobra tempo, nem um minuto e depois é capaz de perder tempo numa conversa que lhe interessa.

Acorda a correr e passa o dia em passo rápido, sempre atrasado. Parece uma coisa absurda, mas pela frequência com que se manifesta acaba por fazer parte do dia-a-dia. Não ter tempo ou faltar tempo nem sempre tem o mesmo significado.

Há dias em que ao fazer o balanço do dia se dá por satisfeito, apesar da falta de tempo, mas há outros dias em que o tempo foi escasso para tanto afazer ou o dia passou muito rápido. Teve que adiar umas quantas tarefas. Ora, não foi por falta de tempo, não soube gerir o tempo. Há quem ande em contrarrelógio.

Ainda agora tive um tempo e aqui estou eu a carregar nas teclas do portátil. Não tive tempo durante o dia e comecei a escrever às duas da manhã porque foi agora que encontrei tempo, depois de arranjar tempo para uma chávena de chá de camomila.

A falta de tempo também funciona para não ter tempo para uma conversa com quem não se quer. Até parece ilusionismo, mas não é. Pode ser absurda a ideia mas acabamos por ter tempo para o que queremos, podemos gastá-lo bem ou mal, mas isso é outra coisa. O tempo é duma flexibilidade inimaginável.

Já vamos adiantados na hora e ainda não falamos do relógio como instrumento de medida. Há quem deteste o relógio porque só lhe rouba tempo e o faz andar a toque de caixa. Olho para os ponteiros do relógio e digo para comigo, “já estou atrasado”. Sabemos que o tempo não volta para trás, a não ser na cantiga, corre inexoravelmente para a foz como o rio… tic, tac, tic, tac…

Ainda há dias ao convidar um amigo para uma tarefa, a resposta que obtive foi que não tinha tempo para isso, que era um homem ocupado… e tal e coisa. Argumentos válidos. Acabei por o persuadir, dizendo que era de alguém sem tempo que andava à procura. Riu-se, inicialmente, mas acabou por concordar que a falta de tempo não era um mal, mas uma virtude, dando outra arrumação ao tempo, dar tempo ao tempo.

Com isto passou quase uma hora. Olhei para o relógio e disse para comigo, já estás a queimar tempo de sono. Tens que te apressar senão falta tempo para descansar. A escrever nunca dou o tempo por mal empregue, ganho tempo. Bom, vou terminar, já são três da madrugada, não quero perder mais tempo.