O sonho de Matilde

por Patricia Maia Noronha | 2016.02.11 - 13:12

 

 

1 – Arder por Dentro

 

O calor reflete-se na cara das pessoas. Aproximam-se do fogo. Sentem o calor das chamas. Gostam da sensação de perigo. Como naquelas provas de rali onde se metem todas em cima das curvas, à espera de levar com um carro em cima. As pessoas são mesmo burras.

– Como surgiu o incêndio!? A senhora sabe o que aconteceu? – pergunta a jornalista de microfone em punho. Ao lado, o fotógrafo cola a máquina à cara das pessoas e dispara o gatilho de forma nervosa.

A vizinha de cima, uma idosa metida num roupão cor-de-rosa muito ruço, salta para junto do microfone e, nos bicos dos pés, responde logo.

– Aquilo era uma exposição de quadros e aquilo para arder é como palha, sabe? Como palha! Telas e madeira, é como palha. Eu só espero é que os bombeiros apaguem isto a tempo que as chamas já quase chegam ao meu andar – diz numa voz esganiçada, apontando para a última janela do prédio – eu saí a tempo mas as minhas coisinhas estão todas lá. Todas lá. As minhas coisinhas…
– É como lenha – repete outro curioso do bairro, abanando a cabeça – Se os bombeiros não se despacham… Vai tudo.

 

Eu estou mesmo ao lado da idosa. Reparo que a jornalista me deita o olho mas afasto-me a tempo. Seguro a mão de Matilde. Há uma sensação de impotência que tento repelir mas que me invade à força. Eu, o homem mais frio, estou aqui como uma criança abandonada. A ressaca não ajuda. Ainda sinto na boca o sabor a álcool da noite passada. A minha cabeça pesa tanto. Quase não a consigo mexer.

Os quadros queimados doem-me mais a mim do que a ela. Os quadros dela incinerados fazem-me arder por dentro. As cores dissonantes dos passarinhos que ela desenhou a medo. Com tanto medo que só podia ter corrido bem. Tudo transformado em cinzas num processo irreversível.
Que azar Matilde, que azar…

 

Pela cara de Matilde é difícil dizer o que pensa. Os olhos castanhos refletem as chamas num formato miudinho. São dois olhos a arder. Ao ver o lume nos olhos dela quase não contenho o choro. É como se toda a esperança do mundo tivesse sido afogada por este incêndio.
– Tão lindos que eram. E ninguém os viu. – digo para mim próprio.

Ao pé de nós chega o ruído ansioso da sirene. Em poucos minutos, as mangueiras dos bombeiros descarregam toda a água que podem. À medida que as chamas ficam mais fracas, a população vai perdendo o interesse e dispersando. Mas a jornalista continua a sua missão: quer registar todos os medos e lamentações. Todos os esgares.
– As minhas coisinhas todas encharcadas… – repete a velhota de há bocado.

Um polícia passa desprevenido e a jornalista apressa-se a apanhá-lo. Espeta-lhe o microfone que agora me parece grotescamente fálico. O polícia também parece insultado com aquele assédio. Ou talvez seja apenas o álcool que ainda me encharca a cabeça.
– Senhor agente. Qual a causa do incêndio? – diz ela indiferente ao olhar de repúdio do agente. O polícia afasta a mulher que mesmo assim o persegue.
– Já apuraram culpados no meio disto? Quem vai pagar os estragos?

 

À volta, toda a gente está atenta à resposta. Mas ele não se descose. Afasta mais uma vez a jornalista com um gesto brusco, deixando no ar uma vaga promessa: em breve será feito um comunicado oficial sobre o incêndio. Matilde reage pela primeira vez.
– Nenhuma pista? Nenhuma informação sobre o que aconteceu?
– Nada, Matilde. Até agora, nada de nada. Os incêndios às vezes nascem assim, sem mais nem menos.

 

Respondo ao mesmo tempo que a abraço, num gesto que não contive mas que me causou estranheza. Penso que em toda a minha vida, e hoje já tenho 45 anos, nunca tinha abraçado ninguém. Sinto que, de alguma forma, este incêndio me transformou. Remexe dentro de mim obrigando-me a renascer. A reescrever um passado que me tornou naquilo que se calhar eu nunca quis ser.

 

2 – Boca a Saber a Fome

 

A minha mãe sempre me disse que quando nasci não chorei. Eu andei com um certo orgulho a contar isto a toda a gente até que me disseram que todos os bebés choram quando nascem. A não ser os que nascem mortos. Cheguei a pensar que teria nascido morto e que a minha existência seria um fenómeno sobrenatural mas tudo indica que não se trata de nada de tão exótico. Simplesmente, a minha mãe terá mentido a si própria. Eu devo ter chorado pouco e de forma tão desapaixonada que ela acreditou que eu não tinha chorado.

Talvez tenha sido por causa disso que nunca fui um artista a sério. Nunca chorei. As emoções, na realidade, metem-me algum nojo. Até as carícias da minha mãe, quando era pequeno, me deixavam envergonhado. Nada me satisfaz. Por mais que receba, tenho a boca sempre a saber a fome.

Senti, muito jovem, que a arte era o meu destino. No liceu, era eu quem mais brilhava nas aulas de pintura. Os meus traços foram-se tornando cada vez mais perfeitos. Tão perfeitos que pareciam fotografias. E recebiam elogios rasgados dos professores.

Fui alimentando o sonho de me tornar um pintor famoso. À minha frente desenhavam-se imagens de grandes exposições com as minhas obras, artigos nos jornais sobre o novo fenómeno da pintura nacional. A minha mãe acalentou este sonho comigo: foi colocando todos os prémios e recortes de jornais com o meu nome numa caixa que batizou como “A Caixinha do Sucesso”.

Mas as coisas não correram bem assim. Ainda hoje deito as culpas do meu fracasso àquele professor da faculdade de Belas Artes. Criticava a minha técnica, o meu virtuosismo. “Saia da caixa, homem!”, dizia ele. “Liberte-se! Esqueça o mundo à sua volta. A arte não é uma representação da realidade é uma interpretação do mundo, do seu mundo interior!”

Aquela besta decididamente não gostava de mim. De tal maneira que às vezes era mal educado. Uma vez quase disse “caralho” mas corrigiu a tempo e disse “caaa..raças você não sai do mesmo sítio”. Disse isto ao mesmo tempo que pegou no meu desenho e atirou-o ao chão. Nunca esquecerei essa frase.

E eu, cada vez que organizava uma exposição, esperava que ele lá aparecesse com os seus cabelos compridos e sebosos de hippie ultrapassado. Esperava que ele aparecesse para lhe esfregar na cara a harmonia dos meus quadros e os elogios dos visitantes que não me poupavam louvores. Houve até um amigo da minha mãe, um agente imobiliário de sucesso, que me comprou quatro quadros de uma vez para decorar o seu escritório.

Cheguei mesmo a fazer uma exposição em Nova Iorque. Foi anunciada num jornal local para emigrantes portugueses. “Centro de Cultura Portuguesa acolhe exposição do  prestigiado pintor Rodrigo Mariano”, dizia o título da notícia em letras gordas. Ver o meu nome ali escrito, colado à palavra “prestigiado” emocionou -me bastante. Tenho o recorte guardado na “Caixinha do Sucesso”.

Demorei algum tempo até aceitar que, pelo menos em vida, nunca seria um pintor de famoso. Mas quantos pintores vivem na miséria e na obscuridade? Quantos alcançaram a fama só depois da sua morte? Mais que muitos, é o que tenho a dizer.

Os meus quadros não se vendem. Não põem comida na mesa. Mas arranjei maneira de viver da arte. Sou professor de pintura em vários centros de dia para idosos. E foi num desses centros, na Ameixoeira, que encontrei a Matilde.

Matilde reformou-se cedo e decidiu usar o tempo da reforma para aprender a pintar. “Um sonho antigo”, explicou-me, timidamente, apertando as mãos. O sonho de muitas das utentes dos centros. Senhoras que ainda não são idosas mas que nunca saíram da sua vidinha doméstica. Matilde era só mais uma.

As suas mãos gordinhas pegavam nos instrumentos a medo. Escolhia os pincéis e os lápis com um cuidado que me enervava.  Dei-lhe as instruções básicas para pôr os traços e as cores no papel. O que ela mais queria era desenhar passarinhos. Enervou-me novamente. Só mesmo uma doméstica para querer desenhar passarinhos.

Mas ela insistia e eu ia-me deslumbrando. Em todas as aulas desenhava passarinhos. Um passarinho em fuga. Um passarinho preso na gaiola com olhos pequenitos angustiados. Dois pássaros pousados num ramo, iluminados pela luz que passava entre as folhas. Um pássaro equilibrado no dedo de uma menina, olhando diretamente para os olhos límpidos da criança.

Eu insistia que era um tema banal, vulgar, enfadonho. Dizia-lhe: “Oh Matilde, saia de sua caixa. Arrisque. Deixe os passarinhos e as meninas”. Dizia eu. “Saia da sua zona de conforto. Experimente.”

Mas ela avançava e, apesar do medo, dava tudo o que tinha. Dava os erros todos que tinha nas mãos e não tinha vergonha disso. Punha nas telas todas as ilusões e os erros e as promessas em que acreditou. E daí nasciam pássaros com cores distorcidas. Com cabeças tortas em posições impossíveis. Com olhos humanos.

A mim ofendia-me essa coisa sagrada e delicada que era a pintura daquela mulher. Aquilo era uma provocação. Como é que uma doméstica reformada, com os seus vestidos de florzinhas que não disfarçavam a barriga proeminente, tinha nas mãos aqueles traços, aquelas cores. Eu apontava as falhas que podia. Eu fazia tudo para expor a sua insegurança. Para me vingar de alguma forma daquele talento nas mãos erradas.

Certo dia apareceu na aula de fato de treino e ténis. Parecia uma pipa enfeitada com cores vivas. Confessou que tinha começado a fazer desporto. “Dou só umas voltinhas no parque, nada de especial”, disse ela. “Ai agora anda correr Matilde? Olhe que o desporto a mais pode fazer mal às pessoas.”, dizia eu com uma certa inveja por nunca ter tido a coragem de mexer os músculos à frente dos outros. Para mim fazer desporto era uma humilhação, como que assumir que não somos suficientemente bons. E ter de vestir aquelas roupas desportivas, mostrar aos outros o desejo de estar em forma, seria para mim impensável.

Os ténis de Matilde eram feios e faziam um ruído esquisito quando andava. Uink uink uink. “Esses ténis parecem um pato”, disse-lhe nesse dia. Imaginei-a a entrar no parque. Aposto que desejou ser invisível para que ninguém a visse. Imaginei as suas coxas gordas a roçarem uma na outra causando ardor. Podia vê-la intimidada com os outros corredores, atléticos, que passariam por ela a velocidades alucinantes. Imaginei-a a beber água da sua garrafinha de plástico amachucada.

Eu viciei-me nesta coisa de a provocar mas saía sempre a perder porque Matilde mal desviava os olhos das telas. Ouvia as minhas provocações e limitava-se a esboçar um sorriso. E não seria por minha causa que deixaria de correr ou de pintar. Mesmo que isso fosse ridículo, iria usar aqueles ténis que guinchavam sempre que quisesse. Eu sentia-lhe raiva mas ao mesmo tempo ansiava por descobrir mais sobre ela. Estava viciado nesta tortura que me impunha a mim próprio. Aquela mulher, sem o saber, era uma armadilha.

Quando a escolheram para inaugurar a galeria lá do bairro quase não consegui olhar para ela. O dono da futura galeria visitou a nossa sala de pintura do centro de dia, por mera curiosidade, e ficou deslumbrado. Viu os quadros que estavam expostos nas nossas paredes – entre eles muitas das minhas obras! – mas só olhou para as peças de Matilde.

“É mesmo isto que queremos. Uma luz inédita. Pura, sem maldade!”, disse ele. E desatou a perguntar de quem eram aquelas telas. Eram pássaros. Todas imagens de pássaros. Em óleo, aguarela e desenho. “Quem fez isto?” Repetia ansioso.

Aceitei com um entusiasmo fingido participar na organização da exposição. “Claro que ajudo, com muito orgulho”. Acho que disse qualquer coisa assim e até consegui sorrir. Com Matilde e o dono do galeria, escolhemos os melhores quadros. Na realidade, levámos todos os pássaros que Matilde tinha pintado.

A galeria era um espaço modesto mas luminoso. Transportámos os quadros com todo o cuidado. Aos poucos aquelas paredes transformaram-se numa floresta inédita. Dezenas de pássaros que se despegavam das paredes como se estivessem num mundo ainda virgem que tínhamos o privilégio de ver pela primeira vez.

Quando terminámos, Matilde estava radiante de orgulho e o dono da galeria não cabia em si de satisfação. “Vai ser um sucesso Matilde, vai ver! Um sucesso!” E abanava no ar as mãozinhas. Mas a mim, aquelas cores desordenadas começavam a tirar-me o ar. Parecia que os passarinhos, com os seus olhitos disformes, me fitavam com suspeição. Despedi-me à pressa e fugi para o café ali ao lado.

Pedi logo uma garrafa de tinto. A minha mãe anda preocupada. Diz que estou a beber demais e que fico agressivo. Eu acho precisamente o contrário. Há pessoas que fazem meditação para acalmar os nervos. Eu prefiro beber um copo de vinho. Não há nada que me deixe mais descontraído.

Pensei na exposição e nos pássaros e voltei a sentir falta de ar e até uma leve dor no peito. Era injusto que aqueles pássaros estivessem ali sozinhos. Faltavam ali os meus quadros, os meus quadros que aquele homem baixote nem viu. Passou os olhos por eles mas nem os viu. Os quadros do pintor ‘prestigiado’ nem sequer foram considerados. E Matilde tinha uma exposição só dela.

À segunda garrafa de vinho a minha mãe ligou-me a perguntar como tinha corrido a montagem da exposição e eu desliguei-lhe o telefone na cara. Perguntei ao homem do café se gostava de passarinhos. Gozou comigo a dizer que sim, sobretudo de “cordonizes bem tostadinhas” e “pombos mortos”.

Bebi essa garrafa quase de penálti. Exagerei, admito. Já me custava a andar direito e quando fui ao WC não acertei com o mijo no urinol. O homem do café, ao princípio muito simpático, talvez impressionado pelo meu fato preto de corte impecável, já só me queria pôr a andar dali para fora. Penso até que se despediu de mim a gozar com os passarinhos. Tenho quase a certeza que disse alguma coisa sobre o sucesso da exposição. Eu nem lhe respondi mas pensei cá para mim que talvez não tivesse assim tanto sucesso. Talvez a exposição nem chegasse a inaugurar e ninguém visse aqueles passarinhos perversos de olhinhos insistentes.

 

3 – Tudo o Que Temos

 

É quase de manhã e continuo abraçado a Matilde. Noto, com horror, que as minhas mãos ainda cheiram a gasolina. Esfreguei-as com tanta força que ficaram todas vermelhas mas mesmo assim o cheiro não saiu. Está para aqui a espalhar-se à minha volta e não há maneira de o disfarçar. Parece cada vez mais intenso à medida que o incêndio se extingue.

Os poucos curiosos que resistem no local começam a espalhar o rumor de que o incêndio foi fogo posto. Dizem que a polícia identificou vestígios de gasolina. “Há gente para tudo”, comentou alguém.

Eu ainda estou abraçado a Matilde mas ao ouvir a palavra “fogo posto” ela solta-se com brusquidão. Agarra as minhas mãos com toda a força e leva-as à sua cara. Inspira fundo o cheiro que elas deitam. Naquela fração de segundos percebeu tudo o que se passou. Os olhos dela expandem-se de espanto e procuram os meus. Quer olhar para mim de frente mas eu não deixo.

A ressaca da bebedeira fica mais intensa. A minha cabeça está tão pesada que não a consigo erguer. Não consigo mas também não quero. Sou um saco de vergonha. Como num filme de terror, passam pela minha cabeça as imagens das chamas a ensoparem a gasolina. Do primeiro quadro a arder. Revejo-me a mim próprio a fugir, sorrateiro, do incêndio que alastra.

Não consigo olhar para a cara de ninguém. Muito menos para a de Matilde. Sei que continua a olhar para mim e vejo, pelo canto do olho, que abana a cabeça com força. Tento balbuciar qualquer coisa.

– Foi uma fagulha – digo, olhando o chão. Mas ela só abana a cabeça. Percebo que se afasta. Mal consegue andar, como se os sapatos estivessem estragados. Tropeça outra vez enquanto caminha e olha para mim. Podia ir atrás dela mas a vergonha que tenho prende-me ao chão.

Reconheço ao fundo o homenzinho da galeria. Chegou agora e agarra Matilde pelos ombros. “O que aconteceu Matilde?”, estará com certeza a perguntar. O homem abre muito os olhos e aponta para mim. Arrasta Matilde com ele. Talvez ela já me tenha denunciado. Já estão aqui ao pé de mim. Eu sinto a minha cara molhada e percebo que são lágrimas. Eu que nunca tinha chorado. Choro ainda mais ao perceber que estou a chorar pela primeira vez. Percebo que Matilde ainda não me denunciou e isso deixa-me ainda mais envergonhado.

Limpo as lágrimas todas. Desato a correr. Deixo para trás aquilo tudo. Vejo Matilde ao longe que fica mais pequena enquanto os seus olhos acompanham a minha fuga. Ninguém me chama. Ninguém me segue. Ninguém quer saber.

Os meus pés arrastam-me até à sala do centro. Não sou eu que decido, são os meus pés que me levam. Tenho uma urgência qualquer em mim. Começo a riscar uma tela. Risco com toda a força com um lápis preto aquilo que se transforma numa forma humana. Ali estou eu: sou uma mancha negra de fuligem. À volta pinto chamas que me consomem. Há também um pássaro que nos sobrevoa, a mim e às chamas, e que quase não me lembro de desenhar. Continuo com mais vermelho. É tudo ardor e fogo.

Agora a porta da sala abre-se ligeiramente. Sobressalto-me. O meu impulso é atirar-me à porta e trancá-la para que ninguém entre. Quero ficar aqui sozinho e para sempre. Sozinho, sempre.

Mas é tarde demais. Vejo o vestido florido de Matilde que espreita pela frincha da porta entreaberta. É mesmo ela que entra. Entra em silêncio e recolhe os seus materiais. Coloca os pincéis, os lápis e tudo o resto, com uma calma que me regela, dentro de uma malinha. Não me olha uma única vez. Tenho medo.

Eu acompanho todos os gestos de Matilde. Sei que tenho no rosto um olhar suplicante. O silêncio dela agride-me. Ofende-me. E tenho tintas na mão e posso atirá-las à cara dela e gritar que não tive culpa de nada. Mas isso não sou capaz de fazer. Porque a culpa é minha. Só minha. E eu ficarei sozinho e para sempre.

Está já de saída quando olha para mim pela primeira vez. Aproxima-se.

– Ninguém vai saber Rodrigo, não o vou denunciar – diz ela. Está calma como o gelo.

Depois com os seus olhos de doméstica, olhos de passarinho, observa o meu quadro.
Está bonito Rodrigo, muito bonito. As coisas mais bonitas acontecem assim quando damos tudo o que temos. Quando aceitamos os nossos medos.

Só agora olho para a minha tela. Olho comovido para a minha pintura. As chamas e a mancha humana refulgem sobre a tela e foram criadas por mim. Eu saí da caixa, sai de todas as caixas. Lembrei-me agora do meu professor e vou encontrá-lo onde quer que ele esteja para ele ver esta minha obra-prima. Quero que ele me diga agora qualquer coisa sobre o meu talento. Ele que diga.

A doce Matilde. Foi a doce Matilde que me arrancou da caixa. Olho agradecido mas vejo uma sombra de raiva cair nos olhos de Matilde. A sombra que sempre quis ver surgiu agora, quando já só queria o seu perdão e afeto.

– Não o vou denunciar – repete, agarrando a garrafa de aguarrás que, numa fração de segundos, derrama, inteira, sobre a minha primeira e única obra de arte.

 

(Texto e desenho de Patrícia Maia Noronha)

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos “Brilho Vermelho” foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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