O sofrimento autista: a intersubjetividade em falta

por Maria José Azevedo | 2019.11.12 - 12:26

A dor de viver num mundo sem relações

        A imagem de um ser que habita num mundo sem relações, ou seja, fora da matriz intersubjetiva da experiência humana, representa a vivência do autista a qual se assemelha, na expressiva metáfora de Daniel Stern (2006), à vida num mundo sem oxigénio. O tratamento da perturbação autista centra-nos de imediato no vórtice desta questão.

        Como pode o psicanalista ou o psicoterapeuta partilhar o imperscrutável mundo solipsista autista e conduzi-lo ao espaço terapêutico de modo a que este não só conquiste a sua subjetividade, como entre no universo característico da humanidade, o intersubjetivo? É um longo e árduo processo de partilha, aquele que se constitui na psicanálise, o qual vai permitir, se tudo correr bem, o contacto mais profundo com a dor psíquica destes pacientes, a retoma do seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, o melhor conhecimento e caracterização do universo da sua dor autista.

        A falha do anelo pela intersubjetividade

        O bebé nasce com um primitivo mental, uma condição passiva, pré-reflexiva do outro, que significa uma abertura à intersubjetividade assente em mecanismos neurológicos específicos. Stern refere que é precisamente a busca de intersubjetividade, um anelo espontâneo, a motivação humana que nos conduz, à partida, para a vida de relação sem a qual não é possível viver: inicialmente com a mãe, com o pai, com os irmãos, e com os outros. É essa motivação básica que leva o ser humano à partilha das emoções, das representações e das experiências que dão sentido à vida, e da qual o ser carece para não se sentir viver num mundo vazio, sem sentido, escuro, semelhante ao espaço sideral.

        O anelo pela intersubjetividade é aquele que conduz o adulto à psicoterapia e à psicanálise e reforça a aliança da criança com o psicoterapeuta no processo de tratamento. No autista este anelo é defeituoso ou está em falha, constituindo tal falha um obstáculo maior para a cura.

        A partilha da imagem mental, a leitura das intenções e dos sentimentos do outro, o sentir no corpo o que o outro sente, o desejo de ser conhecido, que configuram uma necessidade básica ou vital do ser humano, estão profundamente obliterados no autista.

        Uma perspetiva do desenvolvimento

        Como se desenvolve então a intersubjetividade? Enuncio, em traços largos, alguns aspetos cruciais da sua evolução cronológica, começando por observar o que releva do desenvolvimento da sincronicidade, capacidade presente no fazer compartilhado de algo, enquanto premissa ao desenvolvimento da futura sintonia intersubjetiva.

        Aos três meses o bebé está centrado nos acontecimentos que são contingentes ao seu próprio corpo e comportamento para, entre os quatro e os seis meses, expandir o seu interesse para os que o não estão completamente. Interessa-se, neste movimento, pela regulação do comportamento do outro, utilizando-se a si como padrão, algo que habitualmente falha no autista.

        A partir dos seis, sete meses, os estados mentais partilhados começam a incluir as intenções dirigidas a objetivos. Trata-se, quer da partilha do foco da atenção que se destina a triangular o objeto (são três os intervenientes, por exemplo, no apontar de um objeto pelo bebé: o bebé, o interlocutor e o objeto apontado), quer da inferência de intenções (de que são exemplos o querer saber o porquê de uma  história vivida presente, por exemplo, no olhar interrogativo do bebé em busca de uma explicação para um facto vivenciado; ou o completar de uma intenção falhada, de que é exemplo a capacidade do bebé de realizar completamente uma ação que foi ensaiada com insucesso por um modelo, como a de introduzir numa caixa um objeto que o modelo não conseguiu fazer entrar à primeira tentativa).

        A partir dos doze meses inicia-se um processo de referenciação social (de que é exemplo o bebé procurar o rosto da mãe para saber o que é suposto ele próprio sentir, de que é exemplo o olhar que confirma ou não a gravidade de uma queda ou de um susto), referenciação esta que se expande aos demais elementos da família e do grupo, constituindo as raízes da regulação intersubjetiva.

        Esta regulação, que permite ao sujeito saber qual o seu lugar no grupo e manter ou reestabelecer a sua própria identidade e coesão, representa uma forma de orientação social.  Ao não lhe ter acesso, a criança autista tomba na ansiedade de desorientação intersubjetiva: não comunga do sentimento de pertença psicológica ao grupo, não sabe qual o lugar que ocupa, sente-se relegada à solidão, a solidão cósmica.

        O autista pode estar vinculado ao grupo, mas não lhe pertence, pois não partilha a sua subjetividade.

Vinculação e intersubjetividade

        A este propósito, o da relação existente entre a intersubjetividade e a vinculação, defende Golse (2007, 2018) numa linha um pouco diferente da da escola de Boston, que o primeiro semestre de vida é regido pelo primado da vinculação, sendo o segundo semestre pelo da sintonia afetiva. Segundo este autor o sistema de vinculação não está, habitualmente, perturbado no autista, enquanto o sistema intersubjetivo de sintonia está. As consequências deste facto são visíveis: enquanto o sistema de vinculação se destina a assegurar a proximidade e a ligação, o autista permanece capaz de vinculações. No entanto, é no sistema da intersubjetividade, o qual se destina ao estabelecimento da intimidade psíquica, e não meramente a física, que o autista apresenta a maior dificuldade, precisamente na área que constitui a chave do relacionamento humano. É neste sentido que ele define o autismo como a patologia do maior insucesso no acesso à intersubjetividade e à diferenciação que permite a distinção entre si e o outro.

        Assim, a criança autista vive o paradoxo de estabelecer com as figuras significativas do seu meio, mãe, pai, família, uma relação vinculada, mas sem a espessura intersubjetiva que a humaniza. Será esta falha profunda que se refletirá também no processo psicanalítico.

        A dimensão multifactorial

        Embora hoje em dia não se considere que o autismo se pode explicar unicamente por fatores relacionais (como aconteceu, por exemplo, no passado refletido na bem conhecida obra de Bettelheim (1969) o qual havia denunciado as sequelas de uma deficiente e má parentalidade sobre o futuro do acontecimento autista dos filhos, desenvolvendo uma perspetiva acusatória a qual responsabilizava os pais por esta patologia) há, contudo, a referir a presença cruzada da multifactorialidade,  nomeadamente o cruzamento dos fatores genéticos com os fatores ambientais. A consideração da intervenção do meio permite a ponderação dos fatores psíquicos, quer sobre o adoecimento, quer sobre a cura, permitindo a consideração da intervenção psicológica da relação com o outro, como formas profiláticas e terapêuticas (Golse, 2018). Deste modo, é no cruzamento com as neurociências e na abertura à investigação que a psicanálise se posiciona cada vez mais nos tempos atuais.

        Neste contexto, a conceção da etiologia do autismo sofreu uma mudança concetual radical nos últimos decénios. Também em termos psicodiagnósticos, passou de ser considerada uma patologia mental para constituir um handicap. Senão vejamos o que se nos oferece dizer pela análise das transformações ocorridas no DSM (Diagnostic and Statistical Manual). No DSM-IV (1994) o autismo é classificado como uma perturbação neuro-desenvolvimental, de etiologia endógena, na rúbrica Perturbações Invasivas do Desenvolvimento (PID), para no DSM-5 (2017) serem agrupadas sob a designação Perturbações do Espectro Autista (PEA) as PID típicas, atípicas e não específicas do autismo, numa distinção cuja precisão se pode questionar, segundo Golse (2018, pag.8). Esta imprecisão diagnóstica que assentou, segundo este autor, a partir de 1990, na mudança de terminologia e na tentativa de orientação do método comportamental para esta patologia, nomeadamente através do ABA (Applied Behaviour Analysis), teve como consequência ainda a generalização e o seu reflexo na estimativa de incidência: passou-se de uma estimativa mundial de um caso para cinco a dez mil nascimentos, para um caso para cento e cinquenta na população em geral. Portugal acompanha esta tendência, assistindo os psicanalistas de crianças ao aumento da identificação de casos de autismo na sua clínica.

        A esta circunstância, acresce ainda referir a maior sensibilidade e capacidade de identificação de núcleos autista que se encontram presentes, enquanto enclaves, em personalidades ditas normais. Refiro a este propósito os estudos de Tustin (1990) e da sua descoberta dos enclaves autistas nas personalidades neuróticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BETTELHEIM, Bruno (1969): La Forteresse Vide, Paris, Gallimard.

DSM-IV, Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais (1994): Lisboa, Climepsi Editores, 4ª edição.

DSM-5, Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais (2017): Lisboa, Climepsi Editores, 5ª edição.

GOLSE, Bernard (2007): O ser-bebé, Lisboa, Climepsi.

GOLSE, Bernard (2018): «Péface» in HAAG, Geneviève (2018): Le Moi Corporel. Autisme et Développement, Paris, PUF.

STERN, Daniel (1985): Le Monde Interpersonnel du Nourrisson, Paris, PUF.

STERN, Daniel (2006): O momento presente na psicoterapia e na vida de todos os dias, Lisboa, Climepsi Editores.

TUSTIN, Frances: Barreiras autistas em pacientes neuróticos, Porto Alegre, Artes Médicas.

Maria José Vera

(Nome literário de Maria José Martins de Azevedo, psicóloga, psicoterapeuta, psicanalista e escritora.)

Maria José Azevedo, é psicóloga clínica, psicoterapeuta e psicanalista. Foi fundadora da Sociedade Portuguesa de Rorschach e Métodos Projetivos, da Associação de Psicoterapia Psicanalítica na Infância e nos Jovens e da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. É membro da International Psychoanalytical Association, da European Psychoanalytical Federation e da Société Européenne pour la Psychanalyse de l’Enfant et de l’Adolescent.

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