O silêncio que a chuva inspira…

por Amélia Santos | 2017.11.24 - 20:30

 

Não tenho memória de ter ansiado tanto que chovesse como este ano. Depois dos incêndios que nos queimaram um pouco da alma a todos, do calor desproporcionado, desajustado e fora de época, a ânsia de ver e ouvir a chuva foi crescendo em mim de uma forma também desproporcionada. É também a consciência aguda de que este é um bem escasso, que se esgota mais depressa do que imaginávamos, que lhe atribui ainda mais valor e valor simbólico.

Ouvir a chuva é para mim um momento em que o silêncio ritmado pela queda das pingas em qualquer superfície compõe uma espécie de sinfonia musical e poética, de grande densidade emocional. Quando recolhidos em casa, proporciona um reencontro com a mais íntima solidão, com os nossos pensamentos mais delicados, que em dias de verão e calor, ficam mascarados por vozearias, por ruídos vários, por um sem número de coisas que nos distraem de nós próprios. E ainda bem, pensamos… Também precisamos disso, de dar férias à mente, de distrair, de disfrutar do sol e do calor com a alegria que eles naturalmente proporcionam.

Mas é tão bom quando conseguimos apreciar o outono, a sua tristeza intrínseca, os dias mais curtos e frescos. É tão especial conseguir apreciar a beleza singular dos dias cinzentos, pontuada por mil cores nas folhas. É esta aguarela outonal que nos remete para a poesia da época, para a magia que uma estação do ano tão colada à melancolia pode proporcionar a cada um de nós.

É este momento de recolhimento, de acalmia interior que muitas vezes desencadeia as conhecidas depressões e tristezas, exatamente porque dispõe à reflexão solitária e cinzenta. É o confronto direto com a nossa solidão, com a irremediável passagem do tempo, com mais um ciclo que se fecha, com a incerteza do futuro e, talvez, com a morte. A caída da folha é eventualmente a mais bela expressão da morte. E ela cai verde, castanha, amarelada e vermelha. Cai em todos os matizes, com todos os formatos e tamanhos. Cai lentamente. Cai sem grito de terror. Cai em silêncio. Cai.

E no momento seguinte vemos as árvores despidas e tristes. Solitárias entre as outras. Introspetivas. E é esta solidão da paisagem que entra por nós adentro, sem pedir licença, sem dar explicações, sem sequer pronunciar uma palavra… Comungamos a natureza sem ter a perceção exata da influência que ela exerce em nós e, sem nos darmos conta, temos uma árvore despida e desprovida e sem vida dentro de nós… Uns ficam quietos sem saber o que fazer. Outros deixam que ela fira o seu interior, que arranhe, magoe até derramar sangue. Outros há que, passado o período de estranhamento que um elemento hostil sempre provoca, acomodam em silêncio todos os galhos e quando sentem que esse corpo outrora estranho já faz parte de si, regam-no com delicadeza, para que ele se renove e volte a florir, a revestir-se de folhas e a dar frutos. E cá estamos nós de novo a evocar a água que também rega, também interfere na poesia outonal e nos mata várias sedes e ansiedades e nos sacia os cinco sentidos. E também o sexto! Tão bom ouvir a chuva a cair em sinfonia, em sintonia com a poesia interior.

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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