O silêncio

por PN | 2018.02.12 - 15:16

 

 

Havia na família um avoengo, homem austero e reto, que ao chegar ao ocaso de sua vida, passava os dias em casa, numa pequena sala de estar, uma manta sobre os joelhos, uma escalfeta aos pés se fosse inverno, em absoluto silêncio.

De olhos pasmados em nada, boca cerrada, abandonava-se ao fluir do tempo com uma resignação contrariada, mas inevitavelmente anuente. Nós, os ganapos, espreitávamos de longe tal impavidez e, arteiros, fazíamos barulhos escusados e inusitados para ver se nos ligava, nos olhava, nos repreendia. Nada. Total ausência e maior desprezo.

Houve na família uma avoenga que e contrariamente a seu cônjuge, um leitor compulsivo, nunca se interessou minimamente pela leitura, dedicando todo o seu tempo à gestão da casa, das empregadas, da quinta, reservando-se e ao ócio para o piano e para a pintura.

No crepúsculo de sua existência, apegou-se de tal febre pela leitura que passava nela seus dias, lendo quanto à mão apanhava, desde as revistas brasileiras O Cruzeiro, Às Confissões, de Santo Agostinho. Nós, os ganapos, a ver tal e tão fervorosa devoção, saltitávamos em redor, fazíamos caretas e até, nas teclas quedas do piano, digitávamos com ecoante fervor. A resposta era nada. Nada desviava a atenção da leitura e de seu tão tardio prazer.

Hoje, nesse ocaso ou crepúsculo, no silêncio em que me guardo grande parte do dia e no imenso tempo que dedico à leitura, creio compreender a ambos.

Silenciamo-nos por nada ter a dizer e, se a dizer fôssemos, temeríamos o troar de nossa ira.

Lemos, porque o a redor exterior perdeu sentido e o parco significado que ainda contém é, no seu real alarve, muito menos saboroso e mais insípido do que quanto lemos, de bons autores.

O silêncio e a leitura podem ser repúdios.  O silêncio, porém, também é uma espécie de conformismo ou recusa final de intervenção pela fatalista presciência de que nada mudará…

Pelo contrário, a leitura compulsiva, no que contém de recusa da realidade circundante, retém ainda, na sua ficção, o fio de esperança, emotivo e aventureiro de outras vivências, noutras paragens, transmudadas.

O tempo tem esse condor, não o de nos fazer sábios, mas o de dar nitidez a tanta incompreendida e desfocada acção…

 

(Fotos DR)