O que sei eu de poesia?

por Ana Albuquerque | 2017.03.23 - 09:38

 

Muito pouco! Muitas vezes, não sabemos sequer delimitar o que à prosa ou à poesia pertence! Sei, isso sim, que poesia e magia rimam. E não será por acaso!

Ao longo da nossa História, muitos foram os nomes atribuídos ao poeta. Na Grécia antiga, era designado por aedo, nome dado àquele que cantava, inspiradamente, as aventuras dos deuses ou de heróis lendários, acompanhado pela lira ou pela cítara. Para os romanos, o vate era o profeta, o adivinho, aquele que vaticinava. Era o intérprete da palavra divina. E isto conferia-lhe um estatuto especial. Entre os celtas e os gálios, o bardo era aquele que exaltava o valor dos guerreiros, era um trovador e um menestrel, alguém que compunha trovas, musicava e cantava de terra em terra.

Para além da graça concedida a seres singulares, da inspiração que os Antigos chamavam de musa, há na poesia outro poder encantatório: o ofício da língua. O termo poeta, do verbo grego poien, sinónimo de fazer, de criar, põe em evidência a faceta do trabalho, da execução de uma obra, tendo como matéria-prima a palavra. Assim se, por um lado, a poesia é um dom, ela é, igualmente, um labor, guiado pela inteligência. Para além dos dotes naturais, o poeta é um artesão que burila a palavra, os seus sons e os seus sentidos, tal como o agricultor rasga a terra e faz do suor o pão.

Se, por um lado, o poeta é um ser dotado de ouvido, um escutador de sinais, um mediador entre o transcendente e o real, um mensageiro da palavra primordial; por outro, ele é um artífice que luta, corpo a corpo, com a palavra, dando cor à página branca, quantas vezes numa gestação lenta, sofrida, parida com dor. Um poema pode ser luta até à última letra, pode deixar aparas pelo chão, até ao último som, gemido ou alívio.

Não sei muito bem o que é a poesia, mas sei que sempre gostei de poesia, talvez por isso, por não saber o que ela é “Porque quem ama nunca sabe o que ama/ Nem sabe porque ama, nem o que é amar…”, diz-nos Caeiro, o mestre de Pessoa. Gosto de poesia como ritmo, como música, como cadência, como canto, encanto e desencanto, exorcismo e luto, extravasão de uma corrente interior, libertação!

Na história da literatura ocidental, no princípio da nossa nacionalidade e da nossa língua, é indissociável a ligação entre a palavra e a música. Não se pode falar de poesia portuguesa, sem falarmos de música. Os nossos primeiros poemas foram cantigas de amigo, poemas feitos para serem cantados.

A poesia tem uma vocação musical. Há uma relação íntima, carnal, alquímica, entre a palavra e o som, entre os sons que a poesia faz por fora e os sons que ela nos diz por dentro.

Ouçamos a música do no nosso silêncio interior e convertamo-la no nosso poema!