O POVO BRASILEIRO NÃO MERECE UM PRESIDENTE FASCISTA COMO BOLSONARO, QUE DESTILA ÓDIO

por Carlos Vieira | 2018.10.22 - 09:09

 

 

   À memória de Diamantino Gertrudes da Silva, Capitão de Abril, coração de Maio.

 

 

          O QUE MAIS DÓI

O que mais dói não é sofrer saudade

Do amor querido que se encontra ausente

Nem a lembrança que o coração sente

Dos belos sonhos da primeira idade.

Não é também a dura crueldade

Do falso amigo, quando engana a gente,

Nem os martírios de uma dor latente,

Quando a moléstia o nosso corpo invade.

O que mais dói e o peito nos oprime,

E nos revolta mais do que o próprio crime,

Não é perder da posição um grau

É ver os votos de um país inteiro,

Desde o praciano ao camponês roceiro,

Pra eleger um presidente mau.”

PATATIVA DO ASSARÉ (1909-2002), poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro.

 

Ainda tenho em meu poder um cartaz do PT anterior à primeira eleição de Lula da Silva como presidente do Brasil, em 2003: a foto de uma ratoeira com uma fatia de queijo por debaixo da palavra de ordem “XÔ CORRUPÇÃO” e, em rodapé, a assinatura: “uma campanha do PT e do povo brasileiro”. De facto, o PT de Lula ganhou a presidência denunciando e combatendo a corrupção. Só que a corrupção é como uma fábrica com uma linha de montagem viciada. Quem entrar para a gerir tem de substituir toda a linha de montagem, porque se salta para o tapete rolante é apanhado na engrenagem. A tradicional compra de votos de parlamentares em troca do apoio a medidas do governo (“mensalão”) apanhou o próprio chefe da casa civil de Lula, José Dirceu. Não basta tirar um pauzinho na engrenagem; é preciso construir outra fábrica de raiz. Ou seja, construir um outro modelo de sociedade, mais democrático, mais justo, com maior redistribuição da riqueza, com mais igualdade. Esse é o programa socialista do PSOL e do PCdoB (que parece ter sido metido na gaveta pelo PT), o maior alvo do ódio de Bolsonaro e da elite económica e militar que ele serve. Mas só assim se acabará com a violência, fruto das desigualdades sociais.

A violência de rua, os roubos, os assassinatos diminuíram devido aos planos Fome Zero e Bolsa Família que retiraram da miséria e da fome 30 milhões de brasileiros. O Brasil nunca teve tanto prestígio internacional como teve com os governos do PT, aliado a partidos do centro e de esquerda, integrando o movimento de países emergentes (BRICS). Mas a violência voltou a recrudescer nas ruas logo que a crise económica tornou a assolar o Brasil.  A grande burguesia, ressabiada pela redistribuição da riqueza pelos mais pobres e pela extensão da classe média ,que até fez subir os salários das “babás”, as empregadas domésticas (que, como vemos nas telenovelas, quase toda a classe média alta tem, pelo menos uma), e promoveu a ascensão social de pessoas “de côr”,  graças ao sistema de cotas para a entrada na Universidade (ver, a este propósito,  o  filme “Que Horas Ela Volta?”, da cineasta brasileira Anne Muylaert, de 2015, já exibido no Cine Clube de Viseu), soube aproveitar o descontentamento popular com a subida dos preços dos transportes públicos e a degradação de serviços públicos, sobretudo na Saúde , contrastando com os gastos com os estádio do Mundial de Futebol e das Olimpíadas, também criticados pela esquerda (“Hospitais padrão FIFA!”, reclamava-se nas ruas).

A corrupção, no Brasil (como em Portugal, à nossa escala, ou noutro país qualquer), é um instrumento criminoso, criado pelas classes no poder para promoverem as suas actividades económico-financeiras fraudulentas e delas tirarem ocultos dividendos.   A corrupção é a faca de ponta e mola dos criminosos de colarinho branco. A corrupção no Brasil é  endémica, fruto do défice democrático, da falta de escrutínio popular sobre uma elite oligárquica que se reproduz através de um sistema capitalista injusto e desumano, explorador do trabalho e dos recursos naturais, que  provoca a corrosão da democracia e do carácter dos agentes do aparelho de Estado, políticos, juízes,  forças armadas e de segurança (em Portugal, os casos de Tancos e dos submarinos comprados por Paulo Portas, só para dar dois exemplos,  mostram como a nossa realidade só difere na escala).

No Brasil, antes mesmo do grito do Ipiranga de D. Pedro I, já as elites económicas viviam da exploração da mão de obra escrava, quer de índios, quer de africanos, com a benção da Igreja Católica. Embora os jesuítas conseguissem que D. Sebastião, em 1570, e D. João IV, em 1640,  proibissem a escravidão dos ameríndios (tolerando, porém, a dos africanos e embora a Companhia de Jesus tivesse, ela própria para além de escravos negros, também escravos índios “legítimos”,  capturados em guerras ou refractários à sujeição), os colonos gananciosos, donos de engenhos da cana de açúcar e os plantadores de cana, revoltaram-se contra a coroa e a Companhia de Jesus por causa dos enormes lucros que obtinham com o trabalho escravo. O mesmo aconteceu em 1888, quando a princesa Dª Isabel, filha de D. Pedro II, decretou a abolição da escravatura. Já depois da proclamação da República, os grandes latifundiários, que compravam a patente de “coronel”, elegiam os seus representantes no Congresso através do suborno e intimidação violenta dos eleitores (“voto de cabresto”). Em 1960, Jânio Quadros ganha a presidência após uma campanha contra a corrupção. O seu vice, João Goulart, “Jango”, assume a presidência, legaliza o PCB, dá direitos aos trabalhadores e enceta uma reforma agrária com expropriação de latifúndios por cultivar. É deposto em 1964 com o golpe militar apoiado pela CIA e militares dos EUA. A ditadura prolongou-se até 1985. Foram mais de vinte anos de assassinatos, prisões, torturas, censuras, perseguições. Muitos brasileiros tiveram de fugir do seu país. Outros lutaram contra a ditadura, arriscando a própria vida, como Alípio de Freitas, cantado por José Afonso. Em 1977, três dirigentes do PCdoB, são assassinados durante interrogatórios da polícia política. O GAC edita, em sua homenagem, um single com uma canção de José Mário Branco e Luís Pedro Faro, “Sangue em flor” e, no lado B, um poema de Sophia de Mello Breyner, declamado por ela.

É porque não esquecemos, que não podemos tolerar que um grunho fascista como Bolsonaro, que afirmou, em 2016, que “o erro da ditadura foi torturar em vez de matar”; que dedicou o voto sim ao “impeachment” de Dilma Rousseff ao chefe da polícia política, o coronel Ustra, torturador de Dilma; que afirmou que a ditadura devia ter fuzilado 30 mil corruptos a começar por Fernando Henrique Cardoso;  que “Pinochet devia ter matado mais gente”; que “seria incapaz de amar um filho homossexual”, preferindo que morresse de acidente; que uma deputada federal não merecia ser violada por ser feia; que insulta negros, mulheres e todas as minorias e instiga o ódio que já levou ao assassinato de mais de 50 apoiantes de Haddad, como Moa do Katendê, um mestre de Capoeira de 62 anos, assassinado na Bahia depois de defender o voto no PT; que quer acelerar o processo de destruição da Amazónia, entregando-a à exploração de madeireiros e rancheiros. A Organização dos Povos Indígenas do Amapá e Norte do Pará já apelou ao voto em Haddad, respeitador da diversidade, contra “o ódio, rancor e intolerância” de Bolsonaro.

Quanto mais não fosse, só porque a Amazónia é o pulmão da Terra, o destino do Brasil diz-nos também respeito a nós. Juntamo-nos às mais de 70 personalidades portuguesas que subscreveram um manifesto de solidariedade com a democracia e democratas no Brasil, entre os quais Eduardo Lourenço, Pinto Balsemão, Freitas do Amaral, Francisco Louçã, Carvalho da Silva, Ricardo Araújo Pereira, Pacheco Pereira, Manuel Alegre, Pilar del Rio, Sérgio Godinho, Teresa Salgueiro e Vasco Lourenço.

Estaremos na   VIGÍLIA PELA DEMOCRACIA, CONTRA O ÓDIO NO BRASIL, NO ROSSIO, VISEU, PELAS 18,30 H. DO DIA 25, QUINTA-FEIRA.