O país dos outros

por Alexandra Azambuja | 2018.09.08 - 19:01

 

 

Para mal dos meus pecados conheço gente rica.

Não “privo com”, mas conheço de perto.

É quase sempre um desgosto trocar meia dúzia de palavras com esta gente. Fico com a ideia de que vivem noutro país. E vivem.

Na verdade, um dos muitos privilégios dos ricos é poder pagar para não contactar com o país real. Assim podem continuar com aquele discurso pateta do “Ah, os malandros do rendimento mínimo, que têm plasmas em casa e ténis de marca à custa dos meus impostos”.

Aliás, julgo que o único sistema que satisfaria os ricos seria qualquer coisa parecida com o feudalismo. Infelizmente temos essa paródia de democracia em que supostamente as pessoas são todas iguas. Só que não.

Não somos todos iguais, nem no acesso à Educação – com propinas mensais de 1000 euros nos colégios de elite (o valor de uma propina anual numa faculdade pública) – nem no acesso à saúde, ou no acesso à Justiça.

É uma grande pena ter esta distância ente os ricos – e os políticos, já agora ( que mais não são que pré-ricos) –  e a realidade.

A vinculação faz-se da proximidade, da convivência, e quem não vê, não sente. E não é boa gente.

Aliás, essa anestesia social é absolutamente imprescindível para manter a postura dos ricos sobre o resto da escumalha,  (leia-se “nós“). Como poderia um rico dormir descansado se tivesse mesmo de presenciar a miséria alheia dos empregados, a que lhe permite comprar os sapatitos Prada? Essa coisa do discurso estafado da esquerda (não a esquerda caviar, que só é de esquerda até os ‘piquenos‘ privilégios lhe serem beliscados), para a qual já não há pachorra, é o discurso de quem sente o outro como próximo, de quem sabe que a vida é uma perfeita lotaria e que o rico que do alto da sua arrogância acha que não poderia ter nascido num outro lugar, seria só um pobre pateta, se a roda da vida o fizesse nascer no lugar errado.

Aproveito pois a paciência dos ricos que conseguiram ler isto até aqui, para deixar algumas informações desagradáveis (embora verdadeiras), sobre o rendimento mínimo.

RSI: 287 mil beneficiários; 111 € cada; mais de 40% são crianças e jovens com menos de 25 anos. Em 2010, da totalidade dos beneficiários só 23% eram empregáveis.

O RSI é uma prestação sujeita a condição de recursos, o que significa que só é atribuído a famílias de rendimentos escassos ou nulos. ( e aos pobres é mesmo difícil fazer evasão fiscal…)

O ódio de tantos portugueses a esta medida de protecção social ( sobretudo o ódio dos ‘remediados‘)  é uma coisa difícil de entender.

Se há burlas? Claro que sim.
Se há abusos? Claro que sim.

Mas então o senhor aqui do prédio em frente que parece que “desviou” 5 milhões de euros para brincar com carros de corrida significa que todos os empresários da formação profissional são bandidos? Ou que todos os ricos são corruptos?

Antes de se porem a fazer políticas de achódromo, era mesmo bom que consultassem a Pordata.

E tivessem orgulho num país que tem políticas de protecção social.

Ou a crise foi provocada pelos desgraçados do RSI??

Também podem experimentar liberalizar o mercado das rendas até à epifania do mercado puro. Velhos e pobres tudo p’rá rua. Senhorios ao poder. Cá agora manias de gentinha.

Afinal são os ricos que criam emprego, já se esqueceram? Cambada de mal agradecidos!