O nosso António da Rocha Malhada e o “Malhadinhas”

por PN | 2018.05.21 - 15:00

 

 

Acertemos desde já num pressuposto de partida: António da Rocha Malhada, foi uma personagem real, não imaginária, parcialmente ficcionada por Aquilino Ribeiro, inserido com o título “O Malhadinhas” como novela na obra “Estrada de Santiago”, que viu prelo em 1922, tendo o seu protagonista, que havia nascido em Barrelas em 1830, falecido a 23 de Março de 1914, ano em que Aquilino regressou do seu 1º exílio em Paris, que durava desde junho de 1908, acompanhado de sua mulher Grethe Luísa Martha Julia Tiedemann e de seu filho primigénito, Aníbal Aquilino Fritz Tiedemann Ribeiro.

Se Aquilino conheceu António Malhada – aceitando ainda como plausível só ter ouvido suas façanhas por boca alheia – apenas poderá ter sido no ano que permanece em Soutosa, vindo de Lisboa, entre 1904 e 1905.

O Malhadinhas reaparece autonomamente em 1949, numa publicação luxuosa, com ilustrações de Bernardo Marques. Surge novamente na reedição das obras completas, em 1958, trazendo consigo às espaldas e para “enrijar” outra novela “Mina de Diamantes”. Em 2007, aquando da trasladação dos restos mortais do escritor para a Igreja de Santa Engrácia, vulgo Panteão Nacional, a Bertrand Editora, conjuntamente com a Assembleia da República, propõe uma 4ª reedição.

Hoje, e fruto de uma feliz conjugação de vontades, pelas mãos do município de Vila Nova de Paiva e da editora de sempre, O Malhadinhas ressurge, com renovado e ufano rosto, um rico prefácio da autoria da professora da FLUL, Maria Alzira Seixo, apresentando-se num tempo certo e num espaço de excelência, 96 anos após a sua primicial edição, neste primaveril mês de maio, quando passariam 55 anos sobre o passamento do seu autor e 104 sobre a morte daquele que foi sua inspirada matriz, em Vila Nova de Paiva, a “velha Barrelas de um sino”, epicêntrico palco de excelência para uma diegese aqui primordialmente decorrida, também verça do António Malhada. Tenhamos ainda presente que Aquilino foi nos Alhais registado, em novembro de 1885, dois meses após seu nascimento no Carregal.

Registe-se também aqui, com oportunidade, que o município de Sernancelhe reeditou “Cinco Réis de Gente”, que o município de Moimenta da Beira reeditou “O Homem da Nave” e que  hic et nunc se encerra este primeiro ciclo, com a apresentação da reedição que aqui nos traz, todas elas, sempre, em parceria com a Bertand Editora, aqui representada pelo seu director, Eduardo Boavida.

E aproveitando o ensejo e porque não peço para causa própria, detenho e uso a legitimidade de requerer para esta deprecada que não nos fiquemos por aqui e que Sernancelhe encare a hipótese de dar ânimo à reedição da obra “Uma Luz ao Longe”, Moimenta da Beira, “A Via Sinuosa” e Vila Nova de Paiva “Terras do Demo”, títulos estes cujas intrigas têm respectivamente cenário dilectos no planalto e santuário da Lapa, no Convento de S. Francisco de Caria e pelos vales do Paiva e Vouga.

Numa fotografia datada de 1904, retratando um grupo de caçadores, em pose aparece no canto direito António Malhada, com suas já encanecidas e ralas suíças, chapéu de aba larga, provavelmente em burel feito e jaleca curta de montanhaque. Tinha 74 anos.

Aquilino assegura-nos no antelóquio da obra ir contar a crónica que da boca do almocreve ouviu, talvez naquele ano, desfiada em rosário, sentado num dos poiais de pedra da venda do Guilhermino, perante escrivães da vila e manatas, e que assim se abre:

“Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra – eu cá nunca me avistei com ele – mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.”

As quase pícaras aventuras de uma vida ancha de ação, levar-nos-iam, num facilitismo primário, a encarar António Malhada apenas pela ótica judicativa da vã fanfarronice, como serrano de génio assomadiço e esquentado, amoral, dado à boémia e à pândega. Na verdade, tal mais não é que uma desajustado realidade…

Grande parte desta tecida teia, ocorrerá por lógica cronológica provavelmente entre 1860 e 1880. Narrá-la-á o Malhadinhas às “Vossorias” que o ouvem nas soalheiras tardes de tédio, num Portugal decadente de um monarquia pré-moribunda, ao qual nos devemos imaginariamente remeter para uma mais cabal compreensão da vida de então, da realidade social e do carácter e génio dos homens dessa época, num espaço rústico de rudes gentes vivendo “sobre a bronca, fragrante e sincera Serra” (…) “a aldeia serrana (…) bulhenta, valerosa, suja, sensual, avara, honrada, com todos os sentimentos e instintos que constituíam o empedrado da comuna antiga. Ainda ali há Abraão e os santos vêm à fala com os zagais nos silenciosos montes; ali roda o velho carro gótico nos, mais velhos, caminhos romanos; é pagã e crê em sua religiosidade toda exterior adorar o Deus de S. Tomás; conta pelo calendário gregoriano estes terríveis dias de peste, fome e guerra e está imersa nos nebulosos tempos do rei Wamba.”

Citei Aquilino e o prefácio de Terras do Demo, a Carlos Malheiro Dias dedicado.

Afirma o protagonista Malhadinhas: “o mundo já o encontrei assim formado”, ou “A gente nasce feita, não se faz”, nestas fatalistas sentenças inscrevendo e explicando muita da sua invocada conflitualidade, obrigatória para quantos não sendo filhos de algo ou fidalgos, se erguerem do chão sáfaro onde o berço lhes fora pelo destino prantado.

O Malhadinhas, diminutivo plural de Malhada, assim chamado por ser “homem sobre o meanho, reles de figura”, nada tem a ver pelo nome com o malhar de bater, antes e certo ser o apelido de António da Rocha Malhada, nado em Barrelas, filho do também António da Rocha Malhada e de Joaquina Margarida, neto do Manuel da Rocha Malhada e de Maria Penisa, filha de um desertado ou ferido soldado francês das tropas de Massena em retirada.

O apelido Malhada, se originariamente advirá de malhar, golpe ou golpes de malho ou de mangual no trigo, menos terá a ver com bater, agredir, espancar ou escarnecer de alguém.

A família de Manuel da Rocha Malhada seria oriunda da povoação da Malhada, sita na freguesia de Vila Cova à Coelheira, assisado sendo, e segundo uso que colhia à época, ter ido buscar à toponímia do nascimento a sua antroponímia pessoal.

É curial termos presente que em “O Malhadinhas” encontramos um protagonista romanceado, filtrado na sua linguagem, erigido a personagem ficcional, e decerto, assazmente arredio, nalgumas das suas facetas físicas e psicológicas da figura que lhe deu vida, tanto quanto, da comunicação literária se afasta Aquilino Ribeiro, para na comunicação narrativa se transmutar no narrador, personagem central e autodiegética.

Homem empreendedor – hoje estaria à frente de uma start up, seria um business angel ou um político bem-sucedido – António Malhada não se conformou a uma medíocre pobreza e fez-se à vida na labuta dura e arriscada de almocreve, que porfiado, lhe granjeou o desafogo económico e que assim refere: “E se pudesses voltar atrás não escolheria outra vida, que lá diz o provérbio: arrieiro no tarde chora por arrieiro, nanja por cavaleiro.

O passo seguinte trá-lo-ia o conflituoso casamento com sua prima Brízida, filha do tio Agostinho, que lhe carreará estabilidade afetiva e lhe dará, entre mortos e vivos, 19 descendentes diretos. Este enlace matrimonial contrariado pelos pais da pretendida, só se consumará após o acidentado e ousado rapto, seguido de muita bulha e tiroteio, como o comprovou na pele o Roque Maçãzeiro…

Não será de todo justo aferirmos de um carácter violento do enamorado Malhadinhas, tomado de uma paixão que ele diz ser como “um caldeirão de água a ferver”. Mais lícito seria aceitarmos ser um homem de carácter determinado, honrando seus sentimentos e tudo fazendo para derrubar os obstáculos que lhe tolhiam o intento. Com alguma fanfarronice no-lo diz ele, acerca de seu agir:

“A língua para amansar as mulheres e homens mulherengos que faziam pouco de mim ou se atravessavam no meu caminho, a faca para rebater os tratantes que me ameaçavam o fagote.”

Vermos nele um vagabundo errante, como alguns defendem, dotado de escassos escrúpulos e muita amoralidade, também não revelará uma visão nítida, pois sendo um almocreve andarilho por força de seu mester, é ademais um homem solidário para com o seu amigo – veja-se como defende o Bernardo do Paço – aguerrido, para sobreviver num contexto adverso e antagónico, com princípios  muito ancestrais de honra e de vergonha.

Na velhice, tem uma visão lúcida e crítica da vida, do que observou e de quanto lhe foi dado apreciar. Da Justiça à Religião… não sendo despiciendo, à laia de distante alter-ego, aqui ouvirmos ecoar a voz de Aquilino.

António Malhada, à boa luz da análise, deve ser entrevisto como um ser impulsivo, com valores morais ressoantes do seu tempo, senão alguma amoralidade e uma agressividade indómita, própria de um génio corajoso, pouco dado a sujeitar-se a visões discordantes e/ou antagónicas da sua, no fundo, um homem livre e corajoso, parcialmente alheado do conceito de culpabilidade e, paradoxalmente, dotado de uma certa rigidez de princípios, muito notória no lavar da honra de sua neta Isménia, desfeiteada pelo gabarolas do Bentinho.

No fundo, se por possível analepse recuássemos ao seu tempo, não nos seria aversivo pensar que o António da Rocha Malhada foi um Homem com o qual a maioria dos aqui presentes se identificaria, nas linhas mais gerais do seu agir, dos seus códigos, da sua conduta. Um serrano duro de roer, um beirão corajoso, um ser rebelde com um gosto pela Liberdade que não anda distante daquela figura retratada por Manuel Cabanas e que tão acertadamente serviu de mote e ex-libris a Aquilino: um homem a cavalo, chouto largo, canito à ilharga, olhar no horizonte.

Alcança quem não cansa”, ou como diria o pai de Aquilino à guisa de concelho, o sábio e paciente Pe. Joaquim Francisco Ribeiro: “Tem coragem. Nunca desconfies de ti. O mundo não é outra coisa senão vontade. E quem não cansa alcança!

Em “Um Escritor Confessa-se”, no ocaso de sua vida, Aquilino refere sobre si próprio aquilo que António Malhada, por seu turno, não renegaria:

“Não teria eu torcido a vocação e o que me dava era um lavrador teso, capaz de lavrar de mão na rabiça terra para um moio de centeio na manhã orvalhada, assentar o mangual na eira e fazê-lo zurrar, ir para o arraial de pau argolado, pena de pavão no chapéu mariola e, modo de me tornar interessante ás moças, arrumar um banzé aparatoso depois de riscar no chão o círculo mágico do Malhadinhas: Eh, rapazes, daqui para dentro, mando eu; para fora, vós. Se algum quer a tola rachada, adiante-se!”

(Comunicação proferida em Vila Nova de Paiva, dia 19 de Maio, aquando da apresentação da reedição de “O Malhadinhas”)

Foto de Ana Sofia Pires