O mundo enlouquece: veloz, feroz.

por Alexandra Azambuja | 2019.01.11 - 09:09

 

Enquanto os índios brasileiros temem pela vida – na eminência de cruzadas evangélicas – e Trump vocifera obssessivo-compulsivo o filme de terror do Muro, o populismo alimenta-se voraz do declínio da comunicação social, o caos informativo está enxameado de falsas notícias, notícias plantadas, notícias manipuladas, “jornalismo de cidadão“, produtores de conteúdos e reis do entretenimento que “entrevistam” neo-nazis e actores de pornochanchada e confundem o cidadão impreparado: tudo é notícia desde que passe na TV. Ou no jornal. Ou na net.

Com o mundo inteiro a caminhar a passos largos para o abismo – e milhões a segurar o telemóvel enquanto os passos os empurram para a linha onde o mundo – que é plano como sabemos – acaba, salvam-se os que não estão de olhos postos no écran do telemóvel e – hélas – olham para o futebol. O jogo de futebol, os comentários sobre o futebol, as notícias sobre a transferências do futebol, o futebol o futebol, o futebol.

Estamos portanto sozinhos.
Todos.

Menos esta empregada de biblioteca municipal da pequena cidade de Coeur d’Alene, no país do louco. Rodeada de livros por todos os mares, foi capaz de ouvir a pulsação cessante de uma árvore centenária e dar o verdadeiro sentido à expressão “economia circular“. O papel dos livros que um dia foram árvore, voltaram à casa mãe, transformados em folhas contadeiras, com histórias de vidas que essas, decerto, foram irrepreensivelmente felizes.

Pois que foram vidas antes da loucura violenta, triste e desesperante que o mundo da suprema ignorância hoje aplaude.

Entre um olhar sobre o telemóvel e o écran do futebol.

E imagino a corajosa e esperançada bibliotecária entre os livros,
a árvore e os leitores: a última sobrevivente da espécie humana que conhece o significado da palavra “sentido“.

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