O mecenas do Fontelo

por PN | 2019.10.09 - 09:49

Dentro das minhas limitações materiais e culturais, sou um banal apreciador de arte, em sentido lato. 

Conferir um sentido estético aos espaços pela exposição e fruição de peças que rompem com a norma rotineira do mero acessório prático é um cultivo a que poucos se guindam.

Por isso, saindo do intimismo do privado e abrindo portas ao público, a praxis é de louvar.

Em minha casa, no meu espaço, tenho uma mesa e quatro cadeiras. Pratos e copos. Tachos e talheres. Uma cama. Um wc. Uma cozinha com um fogão e um frigorífico… ah, e também uma máquina de café.

Enfim, tenho o essencial. Depois do essencial, um dia comprei, com dificuldade, um quadro a óleo que me agradou e uma escultura que me fascinou. Assim, o espaço ficou “arranjadinho” e, entre o essencial e o acessório, tornou-se mais agradável e atraente para a minha vivência quotidiana.

Louvo a proliferação de estátuas que o vereador da cultura da CMV encomendou para o espaço centenário da Mata do Fontelo. A tal que tem a maioria da sua área interdita ao público por falta de cuidada manutenção da sua flora também centenar. Mas a culpa é só do “Leslie”, claro, o furacão. Provavelmente não haverá dinheiro para a sua adequada e merecida manutenção. Ou apenas faltará a sensibilidade. Ou ambas.

Hoje, é comum em muita autarquia semear “obras de arte” e cortar cerce árvores com centenas de anos. Algumas, até exemplares raros. Um autêntico e natural património botânico que é de todos. Por qualquer trancendental razão não conseguem coabitar…

Um sinal dos tempos em que os “agentes turístico-culturais”, viraram costas aos valores da terra, afiaram as motosserras e encetaram a cultura da destruição. Ou da negligência. Também da incúria.

E então, no desprezo elementar pelo essencial e pelo património natural, optaram pela cultura do acessório.

Para alguns, a megalomania, num parolismo delirante, principalmente se esteiada nos dinheiros públicos, aqueles que são sacados aos contribuintes e não lhes custaram a ganhar, tornou-se em mecenática função “pastichada” de algures, porque sim, é chic (estilo Dâmaso Salcede) e ademais satisfaz escassas clientelas elitistas e pseudo-elitistas. E dá notícia de jornal, o que não é despiciendo.

Como diz o “mecenas”, “é para os viseenses redescobrirem o Fontelo” (…)  “esta rota das esculturas permitirá às pessoas também perceber o que está a ser feito no Fontelo.”

Claro que aqui o Barthes tem toda a razão. Dar ao real cínico caução nobre exige mestria na retórica do despudor.

Valha-nos pois S. Sobrado mais o discurso da treta engrolado num psitacismo de muita labieta… “pour épater le bourgeois”.

Este fulano até já teve piada. Mormente quando quis mudar o “estaminé” para as instalações do Banco de Portugal; quando quis ser sócio de um clube de Viseu, onde, apesar de derrotado à primeira, saiu vitorioso à segunda fruto da expedita acção de uns inclusivos bons samaritanos locais; nas suas peripécias com a Viseu Marca; nas suas recorrentes colisões com chefes de gabinete, vereadores, colaboradores…

Porém, esgotada a delirante imaginação, assente a espuma do estrídulo esbracejar, começa a perceber-se o vácuo ao redor do delfim do edil-mor.

Só ainda não se percebe bem – mas lá haveremos de chegar – a essência da influência que detém.

Paulo Neto

(Foto e artigo do DV com DR)