O JACUZZI E A PANTERA

por Patricia Maia Noronha | 2018.01.17 - 10:53

Foi a Zulmira que a convenceu e lá estava ela a mergulhar o corpo na água fria. O monitor usava e abusava do apito enquanto gesticulava para indicar o exercício que a turma tinha de fazer. Joaquina fez um esforço para acompanhar mas ao terceiro exercício desistiu. A música eletrónica agredia-lhe os ouvidos e a touca de borracha estragava-lhe o penteado. Na realidade, era só nisso que conseguia pensar. Nisso e numa vingança qualquer que iria aplicar à Zulmira por tê-la convencido a meter-se na hidroginástica.

Que alívio quando ouviu o monitor dizer «até quinta-feira». «Até nunca», pensou Joaquina. Estava mortinha por voltar a casa e ver a novela das 3, sempre queria ver se a malvada da Marinela tinha conseguido enganar o marido. Mas Zulmira tinha mais uma na manga.

– Tens de ir ao jacuzzi, é a melhor parte! – disse a amiga.
– Nem pensar, estou cheia de pressa.
– Pressa. Ora essa, vens 5 minutos vais ver que perdes logo a pressa.

Hesitou. Esteve mesmo para abandonar a Zulmira ali à beira da piscina mas tinha medo de enfrentar sozinha o balneário, os cacifos, os duches.

– É que é mesmo só 5 minutos – cedeu.

Avançou cuidadosa até ao tal jacuzzi (os chinelos do chinês escorregavam muito). Ao terceiro passo patinou sobre si própria. Sem nenhum sítio para se apoiar, preparou-se para embater no chão quando uma mão musculada a agarrou. Joaquina abriu os olhos, agradecida, mas não conseguiu conter um pequeno grito. O homem que a tinha salvado do desastre era preto. Escuro como o alcatrão. Repeliu-o com um «obrigada» enojado.

– Não esperava encontrar pretos aqui… – disse à amiga.
– Joaquina, o João é o nadador-salvador, está sempre aqui e tem muito cuidado com toda a gente – defendeu Zulmira.
– Pretos na piscina, olha que esta!

Esquecendo a afronta, Joaquina pôs a ponta do pé na água borbulhante. «Ai que bom», pensou. «Quentinha». Mergulhou e fechou os olhos. As bolhinhas faziam umas cócegas ligeiras que a entorpeciam.

Ficou assim muito tempo antes de abrir novamente os olhos à procura da amiga. Zulmira ainda estava no mesmo sítio onde a tinha deixado, agarrada à outra ponta do jacuzzi. Parecia mergulhada num transe do qual despertava, de quando em quando, por breves segundos, para carregar no botão vermelho que tinha à sua frente. Joaquina aproximou-se.

– Estás bem?
– Mais que bem… – disse Zulmira sem abrir os olhos.
– E vais ficar aí para sempre?
– Tens de experimentar isto. Carregas neste botão e encostas-te à parede. Sai um jato especial que faz uma massagem… uma massagem muito boa.

«Um jato especial…», pensou, intrigada. Seguiu as instruções. Aproximou-se e ligou o botão. Sentiu um jato forte mas delicado que incidia na zona da pélvis e fazia tremer as carnes. Aquilo era estranho mas reconfortante. Vislumbrou, no outro lado do recinto, o tal nadador-salvador, o preto. Quis desviar o olhar mas não conseguiu, fascinada com aquele corpo musculado e liso que se movia lentamente, como uma pantera, em torno da piscina.

Entretanto, o jato insistia no mesmo ponto cada vez mais intenso até que Joaquina sentiu uma onda de calor que lhe deixou o corpo todo a tremer e um sorriso extasiado nos lábios. A imagem do homem-pantera acentuava aquela sensação de prazer que não experimentava há tantos anos.

Quando saíram para os balneários, ainda tinha as pernas a tremer. O nadador-salvador aproximou-se e disse-lhe:

– Tem de comprar uns chinelos melhores, com esses ainda dá uma queda perigosa e não queremos que se aleije.
– Sim, sim obrigada – balbuciou.

«Um preto educado», pensou. «E atencioso, com um sorriso de pérola». Joaquina já não queria saber da novela das 3. Só pensava em regressar à piscina (ou melhor, ao jacuzzi) e aproximar-se da pantera negra.

Mal chegou ao bairro dirigiu-se, furtivamente, à loja esotérica onde, diziam os vizinhos, havia uma bruxa que fazia todo o tipo de feitiços. Benzeu-se antes de entrar. A mulher que a recebeu não tinha ar de bruxa, parecia a mãe da Marinela (a da novela): o cabelo muito loiro e cheia de pulseiras. As instruções que lhe deu foram simples: comprar umas cuecas vermelhas, acender uma vela (também vermelha) e rezar três vezes a prece que estava escrita no papel. Depois, teria que usar aquelas cuecas enfeitiçadas todos os dias, até o homem ceder ao chamariz.

Assim fez. Sempre a mesma cueca. Nem se atrevia a lavá-las, não queria arriscar. Comprou uns chinelos topo de gama e passou a ir à piscina todos os dias, dispensando a companhia de Zulmira. Conseguia sempre arrancar, da sua pantera, um cumprimento delicado, uma «boa tarde», «como tem passado?», mas não se registavam evoluções de maior (a não ser com o jato especial que cada vez funcionava melhor).

Na terceira semana, desesperada pela falta de progresso e farta das cuecas mal-cheirosas, decidiu regressar à bruxa. Ia dizer-lhe das boas que isto de enganar as pessoas com feitiços fajutos (e caros!) é muito feio. Ia exigir um novo feitiço mais potente, talvez com aquelas velas em forma de pénis que tinha visto nas prateleiras.

Preparava-se para entrar na loja quando viu a Zulmira na mercearia ali ao lado. Desesperada por disfarçar a sua intenção, atravessou a rua à pressa. A mota que ia a passar não conseguiu travar a tempo: atingiu-a, em cheio, no rabo. Joaquina deu um trambolhão aparatoso que lhe deixou a saia toda a subida e as cuecas à mostra. Quando o INEM chegou ainda ouviu os risinhos histéricos dos miúdos a gritarem «cueca vermelha, cueca vermelha, olha, olha a raposa velha».

Ficou com várias equimoses, mas sobreviveu. Apesar da insistência de Zulmira, nunca mais regressou à piscina, nem à bruxa. No bairro, ficou para sempre conhecida como a «velha da cueca vermelha».

 

 

Os créditos da imagem são © João Angélico (http://www.joaoangelico.com/).

 

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Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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