O demónio chegou ao “pinhal” de Costa

por Paulo Neto | 2017.10.18 - 16:44

 

 

Ouvi ontem com muita atenção as palavras do Senhor Presidente da República, proferidas no contexto do momento de desgraça e de sofrimento vivido pelos portugueses.

Desde logo realço a localização simbólica do espaço da edição, ou seja, do sítio onde mais vítimas foram feitas. De seguida a dureza das palavras transmitidas, primeiro como cidadão que sente a dor comum, segundo como mais alto magistrado da Nação que se vê, perante os factos, compelido a agir. E di-lo nesta frase:

“Mas mais de 100 mortos em menos de quatro meses, sendo um peso na consciência, são igualmente uma interpelação política ao Presidente da República, que foi eleito para servir incondicionalmente os portugueses. Para cumprir e fazer cumprir uma Constituição que quer garantir a confiança e segurança dos cidadãos.”

Depois, e por sete vezes repete o vocábulo “fragilidade” para evidenciar o estado em que estão e vivem os portugueses, perdida a confiança nas instituições que deviam cuidar, acautelar e proteger vidas e bens.

“O Presidente da República pode e deve dizer que esta é a última oportunidade para levarmos a sério a floresta e a convertermos em prioridade nacional.”

Sem hesitações, traça um ultimato neste parágrafo. “A última oportunidade”… Ou seja, se o povo diz que “Não há duas sem três”,  Costa não terá direito à terceira oportunidade, que significa, concomitantemente, a aceitação e ou previsão de um terceiro falhanço.

“Pode e deve dizer que abrir um novo ciclo inevitavelmente obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo.”

Aqui questiona quantos ocupam cargos sem terem competência para o fazer e a ilação vai directa para a ministra da Administração Interna, para o secretário de Estado da mesma pasta e para os recém-nomeados por este, membros de cúpula da hierarquia da ANPC, a três meses da época fulcral de incêndios.

“… nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia soberanamente clarifique se quer ou não manter em funções este Governo…”

Centrada que está a questão, as dúvidas desaparecem: Este Governo ou muda as suas prioridades e modo de actuar, ou sujeita-se a uma dissolução e já não a moções de censura oportunistas do CDS/PP.

Finalmente, centrado na anafórica frase “O Presidente da República pode e deve dizer”, por sete vezes de novo enfatiza que este Governo é posto em causa pelo que não faz; a imperiosidade de pôr fim a tragédias por inacção; referindo-se claramente à insensibilidade de Costa, apela à humildade e exige um “pedido de desculpas” às vítimas…

“Quem não entenda isto — humildade cívica e ruptura com o que não provou ou não convenceu — não entendeu nada do essencial que se passou no nosso país.”

Recordemos que o número sete enferma de uma simbologia muito própria, da qual se destaca o Dia em que Deus descansou após a Criação, marcando um pacto entre Deus e o homem. O sete é um número sagrado que aparece recorrentemente na Bíblia e decerto não foi por acaso por Marcelo utilizado, como marca de profunda simbologia iterativa e retórica.

Acabou o estado de graça de Costa e deste Governo. Costa ou põe fim às nomeações “fraternas” do seu clube privado, ou começa a pôr no Governo, em pastas chave, técnicos de reconhecido mérito e competência ou, as recentes sondagens que o davam acima dos 40% da intenção de voto dos portugueses, vêm por aí abaixo.

Ainda assim, beneficia da sorte de um líder de oposição completamente “castrado” e de uma nova líder, a do CDS/PP, em bicos de pés a tentar mostrar a capacidade que Coelho foi incapaz de demonstrar. E ainda lhe vai valendo a “esquerda” que e também, ou muda de prioridades de “agenda” eleitoralistas, ou se exaure no ciclone da realidade premente que vivemos e se recusa a ver, por força dos seus antolhos ideológicos…