O coração dela trazia um letreiro: “Encerrado para obras”!

por Joana Gomes | 2018.01.13 - 13:09

Há tempos disseram-me que nem todas as histórias precisam de começar com um “era uma vez”. Bem…porque não?

O coração dela trazia um letreiro:  “Encerrado para obras!

Estava farta. Farta de abrir a porta a pessoas que entravam com caras simpáticas mas as botas cheias de lama. Quem depois tinha que desfazer-se daquelas pegadas era ela. Sozinha. Não é que se sentisse sozinha , mas que se tornava cansativa aquela vida de limpezas interiores, lá isso tornava.

Foi por essas e por outras que resolveu investir energias naquele letreiro. Assim poupava-lhe explicações: tudo estava bem à frente dos olhos de  quem à sua porta viesse bater. Portanto, estava livre. Podia fazer o que quisesse. Até mesmo as tais ditas obras. Acordava cedo, alimentava-se de forma saudável, passeava por onde queria passear, tirava horas do dia só para ela e não se apoquentava de o terminar sentada à varanda a ver o pôr do sol, perdida nas palavras de um livro ou nas melodias de uma canção, ou mesmo com um copo de um bom vinho tinto na mão.

Certo dia, apercebeu-se que não bebericava o seu vinho sozinha. E conversava, conversava. Dava gargalhadas e sentia-se feliz por ter ali um jardineiro com quem partilhar os fins de tarde. Nunca se tinha dado conta daquele vizinho. Aliás, nem tão pouco fazia ideia se era ou não seu vizinho. Mas que plantava flores nas traseiras de sua casa, todos os dias, disso estava certa. E que lindas eram as flores que plantava.

Convidou-o parta jantar, de modo a agradecer as flores e a companhia. Parecia até que já se conheciam há mil anos.

Os dias foram passando e acabaram por passear juntos pelas mesmas ruas, conversando conversas inacabáveis e tornando-se inseparáveis. E, pela primeira vez em muitas vidas, compreendeu que as pessoas realmente especiais não batem à porta. Elas entram pelo jardim. Chegam de mansinho, sem fazer muito barulho para não nos assustar e ajudam-nos a plantar o nosso canteiro, como se do deles se tratasse.

The end…