O comboiozinho Portugal

por Luís Ferreira | 2018.03.23 - 19:53

Hoje trago-vos a história do comboiozinho Portugal.

Uma história (quase) real que conta pormenores das viagens que acontecem neste comboio. Não é uma história de encantar nem tão pouco de final feliz, por isso não se deixem enganar. Não tentem adormecer filhos nem netos com isto porque a minha intenção não é preocupá-los! É uma história apenas a brincar com coisas sérias, adequada para meninos grandes. Se o é, continue!

 O comboio Portugal tinha, antigamente, uma longa, mas atribulada viagem. Não se percebia se o problema era dos carris, se da carruagem ou se do maquinista, mas a verdade é que a viagem era aflitiva. O povo, sábio, descrevia-a com um “vai-se andando”.

Desde os seus primeiros serviços, o comboiozinho Portugal sofria dos problemas culturais dos viajantes. Primeiro, nunca chegava a tempo. Se a partida era às 8h30, eram 8h45 e nem sinal do comboio. E depois, havia sempre aqueles que viajavam em primeira classe à conta dos coitados que iam na segunda – a tal plebe. Contudo, toda a gente gostava do comboio e das suas viagens, mas ninguém se importava muito com o que estaria para vir “amanhã”. E, por isso, de vez em quando lá acontecia um percalço. Ora um descarrilamento, ora uma avariazita ou uma falha técnica. Nada de muito grave, do qual nunca ninguém era culpado.

Mas certo dia o comboiozinho Portugal começou a sofrer as consequências da brincadeira e quase avariou. Não parou, mas ia mesmo parando. Desta vez algo de grave se passava. Azar dos azares, ia mesmo parando num túnel, extenso e escuro. Ele ia andando, muito devagarinho e aos solavancos, mas o túnel parecia não ter fim. Nem sinal de saída nem de melhorias no comboio. Passámos demasiado tempo nesse túnel escuro onde não se via um raio de luz. E as poucas vezes que algo irradiava, era certamente proveniente de algum isqueiro que acendia a cigarrada calmante de um ou outro viajante mais ansioso. Mas mesmo sabendo que algo se passava, o pessoal insistia em fumar dentro do comboio.

Passado uns longos tempos, o comboio começou a apresentar algumas melhorias. Já ia andando mais descontraidamente e até já apitava! Mas também aqui nunca se soube muito bem quem meteu finalmente o comboio a andar. No entanto, desta vez, e ao contrário do que acontecera quando se falava de culpados, todos queriam os louros de serem bons mecânicos. Os que se sentavam nas filas esquerdas festejavam todos juntos as suas matreiras habilidades, enquanto os que se sentavam nas filas direitas ripostavam desesperadamente dizendo que eles é que tinham feito tudo. Ninguém sabe quem pôs o comboio a andar, mas ele efetivamente andou e lá saiu do túnel! No entanto, a luz que se acendeu ao fundo do túnel onde Portugal se encontrava, veio, por ironia do acontecimento, tapar os olhos a muita gente.

O comboio já andava e parecia mesmo saudável. Pelo menos era o que diziam todos os entendidos na mecânica. Havia até mais gente que apanhava o comboio. No entanto, os coitados dos jovens continuavam a não ter muitos assentos. Embarcavam então no comboiozinho Espanha, ou França, Suíça, Inglaterra ou outro qualquer. Diziam que era mais confortável e que até lhes compensava mais. E entre muitas outras situações como estas (que nem sequer tinham relevo nas decisões dos nossos maquinistas), havia uma que me chateava e irritava profundamente. É que o comboiozinho Portugal tinha saído do túnel, mas já só andava ao pé da costa. E por isso começou-se a cantar que o comboio apitava, lá ia ele a apitar, apitava o comboio, mas já só apitava à beira do mar. Portugal, o comboio, já só conhecia os carris que faziam Porto-Lisboa e pouco mais. Era por ali que havia turismo e por isso era ali que se queria estar. Ainda se pensou em descentralizar o comboiozinho Portugal para outras zonas como antigamente, mas na verdade ninguém queria sequer saber disso. Marcavam-se cimeiras do comboiozinho Portugal, mas continuavam a ser chamados apenas os mesmos de sempre. O comboiozinho agora já andava bem, mas deitava uma fumaceira como nunca dantes. Há quem diga que era para esconder alguma coisa, mas disso eu já não sei. Sei que se tentou dar a entender que queriam novamente enfatizar os originais itinerários do Portugal, mas sugeria-se agora que se fosse a pé. Se arder, ardeu; se morrer, morreu. O comboiozinho Portugal já só circulava por ali e nada havia a fazer. E assim continuou até aos dias de hoje… nunca mais o comboiozinho Portugal foi de todos, como era antes. Mas eles foram felizes para sempre. (Acho eu…)

E é esta a ironia do Comboiozinho Portugal que vos queria trazer hoje. Um comboio que é de todos, mas só de alguns; que é para todos, mas só para alguns. Um comboio que tem agora uma viagem mais curta e mais pacata. No entanto, satisfeitos com pouco, e talvez enublados com a fumaceira que o comboio nos atira para os olhos, aplaudimos. Tudo parece bem. E, na verdade, apenas os maquinistas ou outros entendidos saberão o que lá vai dentro.  Eu, que não sou maquinista nem tão pouco entendido em comboios, apenas vos escrevo estes meus caprichos. Também não sou escritor, mas gosto de ser crítico (…sem fumos!).

(Agora deixem-me lá ir para Sernancelhe. A pé, que não há comboiozinho. Os donos do comboiozinho pensam que esta região já não é Portugal. Apareçam, se quiserem. A pé!!).

 

 

 

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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