Numa sociedade maioritariamente homossexual poderia ser heterossexual?

por José Ferreira | 2017.03.20 - 01:49

 

 

“O grande erro do século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento, que vai e vem. Na realidade, é um ato de vontade e inteligência”

Enrique Rojas

 

 

Não nascemos o que queremos. Nascemos com um património genético capaz para sermos o que queiramos. Do ponto de vista fisiológico/biológico nascemos homens ou mulheres, porém neste património não está inscrito que iremos agir como tal.

O que faz com que na infância se comece a não seguir o que a família e a sociedade nos estipulam? Será o nosso inato ou a adversidade do meio que faz de nós seres rebeldes em busca do que mais nos conforta, daquilo que mais satisfaz o nosso Eu? A primazia do prazer que vamos encontrando nas coisas impõe-se à obrigatoriedade de estas nos serem impostas?

A meu ver, é a nossa natureza de seres pensantes, que determina com que não fiquemos estagnados, retidos na orientação sexual que a sociedade logo à nascença é obrigada a conferir-nos: Heterossexual

Dotados de capacidades mais complexas que a simples/primária aprendizagem reflexiva, iniciamos numa idade precoce o que pretendemos ser nas “idades seguintes”. Sendo a sociedade o “inconsciente coletivo”, o formador informal, pergunto: vai esta ficar impávida e serena deixando-nos ser livres nas nossas escolhas? Certamente que Não.

A consciência de que somos ao mesmo tempo, em fases diferentes desse tempo, reguladores e regulados da sociedade, para bem do nosso desenvolvimento bio-psico-social, desencadeia um conflito constante entre o “Eu” e o “Nós”. Conflito, esse, que devemos gerir para que consigamos uma homeostasia/harmonia capaz de o “Eu” e de o “Nós” coabitarem em prol do bom desenvolvimento de ambos.

Acredito que a função do “Eu” é a de providenciar, fomentar e promover o nosso bem-estar sem, no entanto, descurar a importante função que o “Nós” tem, a de balizar o exagero intrínseco do “Eu” – não deixar que o “Eu” se torne exageradamente individualista-, de moda a assegurar que as sociedades evoluem.

É este equilíbrio que faz com que o viver em sociedade seja agradável, criativo, menos penoso. No entanto, saibamos nós utilizar o aprendido no nosso individualismo para respeitar o individualismo do outro, quando assumirmos o papel de regular.

Tendo sido o Homem a criar o Bom e o Mau, o correto e o incorreto, o adequado e o inadequado, tal facto vinculou-lhe o dever de tudo fazer para manter esta dualidade em equilíbrio: preservando-a, respeitando-a e, sobretudo, cumprindo-a.

Apesar de nem sempre ser notório, na génese da sociedade foi tido em conta a conceção de normas e critérios para premiar o bem e penalizar o mau, o coletivo em prol do individual.

Sim, toda esta contextualização para falar da homossexualidade.

A meu ver, não nascemos homossexuais. No entanto, o facto de o tal património genético, que referi, nos proporcionar a capacidade de adaptação a novas vivências, novos contactos, novos afetos – e sobretudo pela busca de um bem-estar pleno – faz com que o estado civil inscrito no nosso cartão de cidadão, possa não ser o que “todos estavam a espera”.

Até aqui tudo bem, só eu falei.

Eis que ao chegar a esta parte do texto alguém que já antes foi regulado, do alto do atual estatuto de regulador contrapõe, – sim é verdade que não nascemos homossexuais assim como não nascemos delinquentes, nem doentes aditivos, ladrões e muito menos assassinos -, acrescentando em jeito de estocada final o já previsto, – então porque a estes cidadãos lhe negamos a liberdade de escolha? Simples, meu caro, por descuido seu não entendeu, ou eu não dei a entender o que acima escrevi. A sociedade tem por objetivo preservar-se, e não autodestruir-se, regular-se e, numa dinâmica constante, manter-se em equilíbrio.

Bem sei que não é somente na base das palavras ditas que salvaguardamos a nossa condição de cidadãos livres e, consequentemente, a preservação das várias sociedades que constituem a nossa grande sociedade democrática. Daí haver necessidade do suporte legal, a Lei Fundamental de um país.

Terá sido esta minha escrita, do homem que sempre viveu com mulheres, as respeitou e delas gostou, e que – assumo- sempre  exigiu a anatomia das suas palavras e atos, uma ideia tola? Perentoriamente não.

Sempre achei que tinha de o escrever e assim colaborar no rasgar do que chamam de perfeição.

Se entendeu isto, sim foi uma vitória de que nos devemos orgulhar, de poderemos ser, sempre, aquilo que somos.

Se não entendeu e ainda se questione, permita-me que lhe lembre a minha questão quando me propus escrever este texto.

Numa sociedade maioritariamente homossexual poderia ser heterossexual?