No tempo do come e cala eu quero brownie de chocolate!

por Joana Gomes | 2017.06.02 - 14:38

Nunca na história da humanidade se viveram momentos de tão fácil acesso à informação. E ao mesmo tempo, nunca na história da humanidade se andou tão mal informado.

Podem pensar que “esta rapariga não sabe o que está para aqui a dizer“, e não vos censuro, a maior parte das vezes eu própria não sei se sei! Mas vamos lá ver se consigo tornar isto claro: o bom jornalismo morreu quando se começou a trabalhar para as audiências dos telejornais e para os records de vendas dos jornais nas bancas. As pessoas não são informadas sobre o que realmente acontece no mundo, mas é-lhes dado apenas e somente aquilo que se acha que as pessoas vão gostar de saber sobre o mundo. E sabem a que conclusão se chega? Que a maior parte dos órgãos de comunicação social, para além de generalizar, achando que todos temos os mesmos interesses, julga que somos todos uns atrasadinhos. E é isto meus senhores. Uns atrasadinhos, analfabetos, do “come e cala“. E eu não sei quanto a vocês, mas não gosto nada que pensem isto de mim!
Eu vou vos dizer o que acontece quando (acham eles) se dá ao povo aquilo que o povo quer:
Suponhamos que um gestor de um hipermercado se apercebe que na secção de sobremesas (deixem-me tornar isto mais doce) aquela que tem mais saída é o pudim. Como tal, para quê desperdiçar dinheiro em bolo de bolacha ou brownie de chocolate quando “o que as pessoas querem” é pudim? Toca a cortar nessas tretas todas, diz ele em alto e bom som, porque o que interessa é o negócio e “o que as pessoas querem” é pudim. Os clientes à primeira vista começam a notar que a prateleira do pudim está mais abastadas que as restantes, até estão numa de experimentar. Adoram bolo de bolacha e brownie de chocolate, “mas desta vez levamos pudim, para experimentar”. E até corre bem, até gostam. Mas nada como o bolito de bolacha. Da proxima vez não vai falhar.

Mas falha. Falha quando de repente, passado uns tempos (e vocês sabem que a vida é curta, logo estes “tempos” nunca são muitos extensos), o cliente se apercebe de que “o bolo de bolacha foi descontinuado“. E porquê? Não tinha saída.Ora essa, se estavam a vender cada vez menos e quase que metidos para um canto da prateleira era normal que ninguém reparasse neles. Meu amigo, estou-lhe a dizer, não tinha saída.

E pronto, a ideia que passa é que se não tem saída é porque não é bom, não tem qualidade, e ficamo-nos por aqui. Mas poucos se questionam das razões pelas quais realmente “não tinha saída”. No entanto, há quem se questione. Os tais que fazem ondas, que agitam consciências. E chegam ao hipermercado e queixam-se da oferta. Só há pudim? Valha-nos Deus!

E não adianta estarem a pensar “vá a outro hipermercado“, porque todos nós sabemos como funciona a concorrência. SÓ. HÁ. PUDIM. Quer um queijo? Só há pudim. Um iogurte? Pudim. Alface? Pudim. Fraldas para bebés? PUDIM!! É assim que funciona, lamento. Mas repare….temos toda uma variedade incrível de pudim! Para quê pensar no bolo de bolacha se temos pudim de bolacha? Temos pudim de tudo, meu caro cliente: de banana, de pêssego, sem lactose, sem glúten, para bebés, para adultos, vegetariano, com três vezes mais cálcio. Temos tudo. E é “o que as pessoas querem”! Diz ele, em alto e bom som.

Mas sabe? Eu quero bolo de bolacha! Quero brownie de chocolate.
E já não há! Descontinuado.
Mas eu, eu também sou das que quer bolo de bolacha e brownie de chocolate e cheesecake de frutos silvestres. Eu na verdade sempre me estive nas tintas para o tal pudim “que o povo quer“. Porque eu pertenço a um povo mas exijo que seja respeitada a minha individualidade e não é porque a maioria quer que eu tenho que comer e calar. Eu quero viver num mundo onde haja espaço para todas as sobremesas! Onde se disponibilizem as coisas que a maioria quer mas também as que a minoria quer.

Infelizmente, não é isso a que se tem assistido, quer no desporto, na música, na política, na informação em geral, whatever. Nunca na história da humanidade existiu um leque de escolhas tão grande como agora. Mas também nunca na história da humanidade se afunilou tanto essa panóplia de oportunidades, dando-nos a entender que só temos um caminho, igual para todos. Como se todos tivéssemos sido programados segundo um mesmo padrão. Como se todos fossemos another brick in the Wall.