No Palace Hotel

por Nuno Rosmaninho | 2019.08.18 - 12:09

Uma das grandes felicidades de quem gosta da Curia é poder entrar nos jardins do Palace, seguir pela direita e, se for de carro, parar na fachada lateral para não afrontar a beleza da frontaria, que todos têm o direito de admirar sem o melindre de veículos. Claro que se estivermos em Setembro de 1941 e os automóveis forem Packard, Buick, Isotta-Fraschini, Hupmobile, Auburn e Swalow, a arquitectura e o automobilismo estarão a par e nada de errado se encontrará. Mesmo assim, é preferível desimpedir as vistas de quem, sentado nas cadeiras de palhinha que correm pela frontaria, deseja admirar o arvoredo, as flores, as pranchas da piscina e a aparência dos turistas que entram e saem do hotel.

O visitante de 2019 só estranha em 1941 a naturalidade com que toda a gente ocupa o seu tempo e o usa como se fosse eterno. Também se admira com a moral do vestuário, as missas diárias na capela privativa, o apreço pelo regime nazi em nome da guerra contra o comunismo soviético, a defesa da autoridade e da ordem e o desprezo pela democracia. Mas isto só vem depois que nos sentamos e, sem querer, escutamos os fiapos de conversa das mesas ao lado.

– Estamos, então, em Setembro de 1941! – disse eu ao Anastácio.

– Sim, senhor. Setembro de 1941.

– Como correu a Volta a Portugal deste ano?

O Anastácio fez o favor de se levantar. Encaminhou-se para a porta envidraçada e puxou-a. Usou, para isso, de muita força, porque a porta, pesadíssima, parecia preparada para os homens exercerem a cortesia de a abrir à passagem das senhoras. Veio do átrio imenso com uma dezena de jornais. Nesta época, um jornal equivalia com frequência a meras quatro páginas. Os jornais trazidos pelo Anastácio formavam assim um volume fino, que ele me entregou com este comentário:

– Foi o que encontrei: as últimas edições de A Voz Desportiva de Coimbra e Sua Região.

– Conheço bem.