Mundos Internos III

por Cátia Figueiredo | 2017.04.14 - 07:40

 

 

Leiam-me os corajosos,  que não seriam apelidados de tal, se o medo não existisse.
Somos descendentes dos homens das Pedras e fomos expulsos, consta no Livro, de um Jardim perfeito.

Lidámos com muito desde aí, sendo seres sem garras, dentes e armas de defesa. Com o historial que temos, trazemos dentro um medo da Vida, da Morte (e do que lhes é parente) grande. Grande. Tão grande, que admitir é tabu.

Com esse medo da Vida (e de predadores e de expulsões), vem uma necessidade imensa de controlar. Assim – para coçar a comichão existencial –  entre a Idade das Pedras e o Tempo da Wi-Fi, aprendemos a controlar tudo em redor. Criámos o nosso Jardim de Coisas e Seres controláveis, as nossa zona de domínio e de conforto.

De facto, diz a História, controlámos pessoas, animais, espaços, nós mesmos, épocas… o Tempo.

Tudo, menos o medo essencial.

E eis que vem a Era Electrónica, onde comandar já não implica sair ao mundo. O computador, tablet e o telefone nas nossas mãos, com ícones que se prestam a ordens rápidas e dedilhados, causam dependência. Fazemos deles companheiros de estrada, de mesa e de conversa. Viramos os olhos para eles, vertemos as alegrias e tristezas neles, somos mais com eles. Eles são o alfa e o ómega da vida diária.

Hoje, tem de se falar sobre isso. Sobre como estamos a guardar a vida mental e emocional nas máquinas, e como – porque elas nos dizem mais sobre nós mesmos – virámos Narcisos a olhar para o Rio.

No outro dia, vi uma imagem de Vasco da Gama a dizer: “Siri, leva-me à India.”

Eu? Ri-me, sentei-me, mandei a Siri levar-me à India…e ela deixou-me ficar em terra.

 

Estudante de Medicina Ayurvédica, Yoga e Psicologia de Aconselhamento. Residente lá fora.

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