Monopolizar

por Alexandre Borges | 2018.02.26 - 13:57

É de alguma forma recorrente, surgindo amiúde na comunicação social, a questão da competitividade das empresas e dos trabalhadores portugueses. Curiosamente por estas bandas, quando vertida à nação em jeito de espectáculo, é sempre servida como um problema dos trabalhadores e nunca da responsabilidade de outros contextos. É-nos invariavelmente garantido que é preciso trabalhar mais pelo mesmo dinheiro, ganhar menos, reduzir direitos, olhar para o enquadramento internacional, etc., e tal, whiskas saquetas.

Estranhamente em climas mais friorentos, nas margens do Reno, o IG Metal, poderoso sindicato tudesco, conseguiu recentemente um aumento de 4.3% dos vencimentos e um alivio das horas de trabalho. Um dia tais ventos soprarão na Arrábida.

Continuando, noutro dia acordei (literalmente) com a notícia de que a Citröen de Mangualde ameaçava deslocalizar a maior empresa do Distrito de Viseu caso os critérios de classificação dos veículos para efeitos de portagem não fossem revistos. Exige a empresa que a classe classe um possa acomodar um novo modelo que por lá será – com excelente qualidade, tenho a certeza – produzido. À luz dos critérios actuais o tal veículo cairia na classe dois e, portanto, pagaria muito mais das excessivamente caras portagens portuguesas. Como eu já vi um episódio destes com um monovolume produzido para os lados de Palmela, já sei como o filme acaba – a classe um vai passar a incluir o veículo da PSA produzido em Mangualde.

Devemos um agradecimento sincero a esta multinacional. Devemo-lo por nos demonstrar de forma clara o tipo de país e de sociedade em que vivemos. Com estes actos podemos compará-la com, por exemplo a Alemanha, onde um grupo de trabalhadores, devidamente associados e organizados, conseguiu o que atrás referi.

É sempre refrescante relembrarem-nos que a nossa democracia (e sociedade) ainda tem muito que trilhar para se tornar competitiva em termos democráticos. Quando uma simples ameaça (bem vinda, note-se) de uma empresa, para que se baixem as portagens, tem mais eco nos decisores do que o bradar de diversas comissões de utentes e opiniões de cidadãos é sem dúvida revelador.

Se há quem julgue que os custos das portagens minam os custos da produtividade do país, que contribuem para a sua desertificação e para uma doentia concentração na faixa costeira (com os custos ambientais que este Verão nos fez questão de espetar pelos olhos adentro), é porque não vêm o filme todo, não estão por dentro dos problemas, e são certamente, opiniões que não valem o tempo que gastamos a lê-las (caso não sejam opiniões de empresas poderosas, naturalmente). Tais como as aquelas que nos dizem que o preço da electricidade ou dos combustíveis, dos mais caros da Europa, não tem relação nenhuma com a dita produtividade.

(Por falar em combustíveis sabia que o sabia que o preço médio actual do gasóleo é de €1,35/l, quando há um ano era de €1,07/l e que o barril de Brent está mais barato do que em 2015.)

 

 

 

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC. Virulentamente bombeiro. Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

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