Marta Maria Madalena

por Anabela Silveira | 2018.03.07 - 10:54

às Martas, às Marias e às Madalenas…

 

Marta Maria Madalena
o M de mulher
desoladamente sentada
no chão frio da sala abandonada

Marta Maria Madalena
o M de um mundo
tecido e desfiado

os retalhos não cabem nas gavetas desavindas
e se Marta quer guardar bocados dos dias cinzentos
Madalena prefere o perfume ébrio das
noites de luxúria
Maria cala silenciosamente as dores
que sempre a obrigaram a calar

Marta Maria Madalena
o M de mãe
daquela que foi
e da outra que nunca será
daquela que sofreu as dores antigas
e da outra que às antigas dores reais e imaginárias
juntou outras dores
aquelas que não inscritas
corroem por dentro
e matam por fora

Marta Maria Madalena
o M de mania
das manias que levaram Madalena
a calçar aquelas botas de cano alto tão escuras e tão rafadas
mas botas de tempos gloriosamente vividos
quando o corpo era o alfa e o zénite do prazer
das manias do chá bebido fervente a horas incertas
quando a tarde descia inexorável
sobre o pescoço de Marta
da mania de aconchegar o casado castanho puído roto
e nesse gesto
querer embalar os filhos perdidos
aqueles filhos Maria
que já não são teus
e nunca foram teus

Marta Maria Madalena
os EMES fundidos no M de mulher
desamparadamente sentada

 

 

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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