Mala de cartão

por Vítor Máximo | 2018.02.24 - 15:28

 

 

O dia era em tudo cinzento, daqueles que certamente nunca terá espaço de destaque num livro de recordações.

Debaixo de uma chuva miudinha, com a cabeça enfiada na gola do casaco a tiritar de frio, uma lágrima escorria lenta e vagarosamente. Maldizendo a minha sina seguia o meu caminho até a paragem ao fundo da rua. Na mão gelada pendia uma velha mala de cartão, no bolso um pesado bilhete só de ida com destino a Viseu na camioneta das oito, fazia-me andar com dificuldade.
A vida tem destas coisas. Nem sempre está tudo bem e nem sempre está tudo mal. Temos que aprender a viver com o que temos.

Ainda assim naquele dia só conseguia ver cinzento e a perspectiva era a de negrume e pesar por deixar a minha amada freguesia e ir morar na grande cidade.
Contudo quando nada o fazia prever, o meu fado mudou. Uma brisa amiga lançou aos meus pés uma folha de jornal toda escangalhada e ensopada, mas onde se conseguia vislumbrar na página 3 um título com grandes letras… “município investe nas freguesias para fixar população“.

Não cabia em mim de tão contente que estava, já não tinha de sair da minha terra.

Caramba. De repente parecia verão de são Martinho, nuvens e chuva fugiram a sete pés, ficou um dia lindo com arco-íris e tudo. Parecia um postal.
Dou meia volta e compro ali perto o abençoado jornal. Que alegria a minha, o município vai investir 1.2 milhões de euros em espaços verdes, limpeza, reparações escolares, placas, equipamentos desportivos e percursos pedestres para que as pessoas não tenham que abandonar as suas queridas freguesias.

O presidente da câmara até diz que conhece casos de reformados que regressaram às origens.
Realmente não há mal que perdure.

Já de peito feito e com as boas novas para dar à minha família, retorno à minha casa de aldeia pronto para subsistir de espaços verdes, placas toponímicas e com uma vontade imensa de correr por esses percursos pedestres fora até que chegue a idade da minha reforma para poder aproveitar em pleno e com orgulho a minha ruralidade, como também recentemente um ex presidente dizia.

 

Victor Máximo

Militante CDS-PP

Educador de infância. Militante CDS-PP

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