Louvor à língua portuguesa

por Ana Albuquerque | 2018.01.22 - 12:04

 

A nossa língua distingue-nos. A nossa língua identifica-nos. É nela que nascemos para os outros. É através dela que crescemos para a vida e damos asas aos nossos sonhos sem limites.

A nossa língua é a nossa mãe. Ela é a base, a seiva, de um património comum que herdámos e queremos guardar, cuidar, partilhar com os outros, porque uma a língua como a nossa, com oitocentos anos, não se perde, não se esgota, não se prende. Pode, pelo seu dinamismo, pela sua energia criadora, sofrer mudanças, alterações na forma e no sentido de algumas palavras. Mas uma língua como a nossa não muda na sua essência, naquilo que ela é: matriz de um povo, de uma “alma atlântica”, pelos vários continentes repartida e vivida.

A nossa língua, a portuguesa, é a nossa casa. O nosso abrigo. O nosso porto seguro. “Da minha língua, vê-se o mar”, diz Vergílio Ferreira. Eu acrescento que da nossa língua se veem os montes, os rios, as fontes. Da nossa língua se perscruta o céu. A nossa língua tem uma vocação musical. Que o digam os poetas dos princípios dos nossos tempos. Que o diga D. Dinis, nos seus cantares de amigo. Que o diga Camões, na imortalidade dos seus sonetos. Que o digam todos os poetas, todos agricultores da palavra, todos os que conduzem a charrua, traçando sulcos na folha branca e lavram a terra portuguesa e lavram as terras que habitam na nossa língua. Da nossa língua se vê o sonho que nos levou a navegar e a rasgar o desconhecido. Da nossa língua se vê todo o passado e todo o futuro ainda por achar dentro de cada um de nós que a falamos. “A minha pátria é a língua portuguesa”, diz Pessoa. Eu digo a minha língua é a minha pátria, porque nela vivo e por isso vivo.

Quando digo língua, digo amor e soletro toda uma herança que nos liga. Quando digo língua, digo mãe e saboreio a música de cada som. Quando digo vida, vivo cada segundo de cada vida que digo. Quando digo casa, digo ventre, digo lar, digo carinho, digo paz, digo pão, digo filhos, digo irmão.

Quando digo língua, digo história, digo tradição, digo estabilidade, digo mudança, digo sim e digo não, digo paz, libertação.

Quando digo língua, digo e sou tudo!