LETRAS@CORdadas – Marguerite Duras

por Miguel Alves | 2018.04.23 - 11:53

 

Marguerite Duras (1914 – 1996)

Prémio Goncourt,1984.

 

Marguerite Donnadieu nasceu em Gia Dinh, distrito de Bin Thanh, Saigão, atual cidade de Ho Chi Minh, hoje Vietnam e na altura a Indochina Francesa.

Os seus pais foram para a Indochina Francesa para aproveitar um incentivo do governo que visava cimentar a ocupação e colonização daquele território. Seu pai morreria pouco tempo depois, facto que colocou a sua mãe, professora de profissão, e os seus dois irmãos em sérias dificuldades, face á penalização resultante do investimento que haviam feito. Esta fase conturbada e difícil da família emerge em muitas das suas obras, entre as quais aquela a que hoje nos referiremos embora apenas nos aspetos familiares dos seus intervenientes. Aos oito anos, MD ainda não sabia ler.

A família retornou a França quando ela tinha 17 anos. Estudou matemática primeiro e ciências políticas e direito depois; decidiu também mudar o seu nome Donnadieu para Duras que corresponde ao nome da vila onde seu pai tinha a casa de família (departamento do Lot-et-Garonne). Completados os estudos, inscreveu-se no Partido Comunista Francês, que a expulsaria em 1955, depois de um enorme conflito com Jorge Semprün que a acusa de todas as torpezas. Ingressou no departamento responsável pela Indochina Simultaneamente enveredou pela carreira de escritora.

MD é uma das escritoras mais publicadas, lidas e estudadas em França,  como ainda traduzidas em universidades de todo o mundo: romancista, dramaturga, novelista, poetisa, roteirista e diretora de cinema tem uma obra escrita que ronda a meia centena de obras. É das vozes femininas mais conceituadas da literatura universal do século XX e é associada ao movimento literário do “nouveau romance” e ao existencialismo. O seu trabalho como diretora de cinema não atingiu o nível de reconhecimento na área como o que o seu nome representa na literatura.

A sua polivalência artística e criativa produziu entre todas essas formas criativas malhas de intercomunicabilidade, canais e interconexões a que os estudiosos da sua obra chamam a Poética da Porosidade, que tem na sua base o conceito de que tudo tem a ver com tudo e tudo comunica com tudo todo o tempo todo.

O relevo criativo de MD é daqueles que mais atinge o inconsciente coletivo do povo francês. Talvez porque ele se manifesta sempre estrangeiro na sua própria terra e, por isso, a veja muitas vezes com uma feroz exterioridade. A sua obra aborda todos os grandes temas e passos históricos recentes do seu país: a questão judaica, o holocausto, a ocupação nazi e o colaboracionismo que gerou, o sexo, a posse e a desposse, o amor e o ódio, a devassidão, o crime, a loucura, a destruição e o caos. Talvez também porque alguns dados da sua vida lhe tenham pesado no seu inconsciente. Até surgir a sua bibliografia levada a cabo por Laure Adler havia zonas escondidas e ignoradas sobre o seu passado: uma delas e antes de entrar para a Resistência, o facto de ter sido responsável da área editorial de França durante o governo de Vichy e a de ter participado com prazer na tortura de um informador francês que denunciara uma rede da Resistência, tema que ela abordada na pessoa de Thèrese, protagonista de “A Dor”. Ela própria viria a afirmar ser esse episódio autobiográfico, mas que mais tarde se recusou a confirmar, de uma forma que alguns autores consideram como um escondido ritual de purificação. Toda a sua obra é autobiográfica (A história da minha vida não existe. Sou mais escritora do que vivente. Naquilo que vivi sou mais escritora do que alguém que vive”. “A sua história há que procurá-la na sua obra”). Também desapareceu da sua biografia um romance considerado de forte pendor colonialista: “O Imperio Francês”, escrito pouco tempo antes da II guerra mundial O seu envolvimento na Resistência Francesa teve lugar na rede de François Mitterrand, embora de forma pouco assumida ao contrario do seu primeiro marido, Robert Antelm, militante ativo da Resistência e de quem teve um filho que morreu precocemente. Por esse facto, ambos foram vítimas de uma emboscada, tendo o seu marido sido preso e enviado para o campo de concentração de Buchenwald, tendo sobrevivido e regressado em 1944. Após a morte deste, viria a envolver-se com um intelectual comunista, Dionys Mascolo, de quem teve um segundo filho.

Este período conturbado da sua vida, o impacto e os traumas da guerra na identidade individual e social dos que o viveram é abordado numa das suas obras mais reconhecidas: “A Dor”, 1985.

MD é uma escritora duplamente contemporânea: pelas sínteses que realiza da experiência humana no mundo e pela desconstrução e reconfiguração das linguagens que a sociedade contemporânea continuamente produz, reproduz e desconstrói. Personalidade complexa, arrogante, triunfante, de hábitos alcoólicos, de acesso difícil e distante, ela é a sua obra (“Escrever é também não falar. É gritar sem fazer ruído. Eu sou um assunto em ouro”. “Mas, quem era ela? Não sei. Não sei se conseguiria suportar Duras. Julgamos saber e depois não, nunca”, gatafunho encontrado pela sua biógrafa nos cadernos de uma escritora teatral).

Quero hoje @CORdar aquele que foi o primeiro grande romance de MD: “Os Insolentes”, 1943.  Trata-se de uma trama desenvolvida entre duas famílias: os Grant e os Pecresse. Os primeiros residentes em Paris, embora oriundos dos “confins da Dordonha e do Lot-et-Garone” no sudoeste de França onde possuem uma grande casa com uma propriedade agrícola e florestal (zona natal de MD). Os Pecresse naturais e residentes na mesma localidade, de origem modesta como caseiros, mas tornados ricos, possidentes e dominantes no meio Os Grant são governados pela mãe viúva, autoritária e dominadora (“assim se desfazia das coisas e das pessoas, depois de as ter amado com violência. Era incapaz de se ligar profundamente ao mesmo objecto. No amor há umas camadas inferiores de ódio”) que vive com um segundo marido distante, alheio aos dramas familiares e neles não interferindo (“mulher daquele homem que não se ia embora, porque conseguira construir naquele solo movediço uma cidadela de indiferença”). Têm três filhos, um dos quais sociopata, gastador e caloteiro, recentemente viúvo, mas o protegido da mãe (“Jacques tentava sempre, de uma manha qualquer, manipular o sofrimento que provocava; estava sempre a aproveitar-se da sua infelicidade. Toda a família sofria com Jacques, vendo chegar as letras do banco Tavarès. Sentia o perigo de revelar ao filho que lhe apetecia mesmo ajudá-lo, por isso escondia esse prazer”); um outro filho do primeiro casamento do atual marido que perpassa esquecido nos acontecimentos e Maud a única rapariga que, aparentemente, vive a ver passar os comboios, desinteressada do que se passa á sua volta, mas atuante e convicta no seu interior (“a beleza saía-lhe do rosto numa sombra selvagem. Não sentia nada a não ser o coração que batia pesadamente. Circulava nela uma repugnância quase insuportável, mas o seu corpo estava a contê-la bastante bem, como a margem sólida de um caudal. Maud tinha pouca paciência para aquelas cenas que, no entanto, eram frequentes”).

Os Pecresse eram os vizinhos mais próximos da propriedade dos Grant (“só tinham um filho, Jean, e era em torno dessa personagem que construíam todas as ambições. A paixão que aquela mãe nutria pelo filho exprimia-se, á falta de um escape, de uma forma que era tão agressiva como se ela o detestasse. Nunca o viram em lado nenhum e a mãe zelava para que não se desse com ninguém. Tornou-se calado e tímido. As raparigas desistiram. Acabou por parecer inacessível. Pensava-se cada vez menos nele”).

Em Semoic, uma povoação ao lado daquela onde vivem os Grant e os Pecresse, vive Georges Durieux que, sendo de Bordéus, comprara aí uma casa onde passava férias “Olhava para as pessoas com atenção, falava-lhes com simpatia, mas não ficava a ouvi-las por muito tempo. Tinha aquele ar de juventude aparente que exibem os falhados, os estroinas. A paixão pelas mulheres incitava-o a andar sempre atrás de aventuras, e impedia-o de se entorpecer numa ligação medíocre”. Durieux vai constituir com Maud e Jean o núcleo central da intriga familiar, sentimental e amorosa desta primeira grande obra de MD, onde está já patente a enormidade do seu talento e a sua grandiosidade criativa.

Durante a revolta estudantil de Maio de 68, que pessoalmente me formatou social e politicamente e, parcialmente, em termos psicológicos, MD escreveu: “Não sabemos para onde vamos, mas isso não é razão para lá não ir”. É um epitáfio que pode sintetizar a sua personalidade estrondosamente rica de criatividade, turbulenta em termos humanos e psicológicos, dura, impositiva e firme nas convicções, feroz na luta e no combate perante os muros da vida. Uma galáxia literária, imperecível em todas as curvas da história e que é um prazer inconfundível ler e revisitar.

Outras obras de MD:

Vida Tranquila, 1944;

Uma Barragem contra o Pacífico, 1950;

O Marinheiro de Gibraltar, 1952;

Moderato Cantabile, 1958;

Hiroxima meu Amor, 1960, (adaptado ao cinema por Alain Resnais);

O Deslumbramento, 1964;

O Amor, 1971;

O Navio Night, 1979;

Olhos Azuis, 1980;

O Mundo Exterior, 1981

A doença da Morte, 1982;

O Amante, 1984;

A Dor, 1985;

Emily L, 1987;

Chuva de Verão, 1990;

O Amante da China do Norte, 1991;

É Tudo, 1995.

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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