Letras @CORdadas – Vassili Grossman

por Miguel Alves | 2017.08.24 - 12:22

 

Vassili Grossman (1905-1964)

Vassili Semvonovich Grossman nasceu em Berdichev na Ucrânia, ex União Soviética, em 14 de Dezembro de 1905, ano da chegada ao poder de Lenine. De origem judaica, cedo se tornou leal ao regime aí vigente. Engenheiro de profissão, durante a II guerra mundial foi considerado inapto fisicamente para ser alistado, indo para frente de combate como correspondente de guerra do “Estrela Vermelha”, órgão oficial do exército soviético. Os seus relatos enviados de Berlim e Estalinegrado, tornaram-no popular e uma das suas reportagens sobre a libertação dos campos de extermínio de Majdanek e Treblinka viria mais tarde a ser utilizada como prova no julgamento de Nuremberg.

VG começou a escrever pequenas histórias e novelas quando estudava engenharia na universidade de Moscovo onde se formou. Algumas dessas histórias chamaram a atenção de Máximo Gorky e Mikhail Bulgakov recebendo deles o incentivo para continuar. Apenas passaria a dedicar-se exclusivamente à escrita em 1930. Viria a ser aceite como membro da União dos Escritores Soviéticos em 1936 e a sua novela Stepan Kolchugin, 1957, chegou a ser nomeada para o “Prémio Literário Estaline”, mas foi excluída da lista por interferência direta do ditador e por suspeitas de que VG teria simpatias mencheviques*1.

VG foi casado duas vezes, a segunda das quais com a ex mulher de um seu amigo escritor, Boris Guber. Durante a purga estalinista, este veio a ser preso e, mais tarde, também sua mulher, Olga Mikhailovna, por esta não denunciar o seu marido como inimigo do povo. Nessa sequência os seus filhos estavam destinados a ser internados em orfanatos do regime. VG interpôs-se escrevendo ao chefe da NKVD*2. afirmando que Olga era agora sua mulher e que ela não poderia ser responsabilizada por um homem de quem estava separada já muito antes da sua prisão. Olga acabou por ser libertada e os seus filhos ficaram com o casal. Antes, já ele os tinha a seu cuidado.  “Só um homem muito corajoso teria ousado escrever tal carta ao executor do regime estalinista”, comentou o poeta seu amigo Semyon Lipkin.

Finda a guerra e após a consolidação do poder de Estaline, torna-se dissidente e um feroz crítico do regime. Participa na assembleia do Livro Negro do Comité Antifascista Judaico que documentou os crimes do holocausto. Em 1948, toda a edição deste livro seria destruída pelo regime. A sua obra passou a ser considerada ideologicamente inaceitável, os seus livros desapareceram da circulação e o seu nome foi devorado pelo esquecimento

Apesar de nunca ter sido preso, a sua obra literária foi fortemente censurada também no consulado de Nikita Khruschov e mais tarde reabilitado por este. Começa então a escrever “Vida e Destino”. Apenas um número muito reduzido das suas obras foi publicado durante a sua vida. Sua mãe, morreu numa camara de gaz.

Escritor e jornalista de grande mérito, a sua obra mais celebrada é “Vida e Destino”, de que hoje falaremos, e cuja primeira publicação só teve lugar após a sua morte. Sobre ela, o ideólogo do regime soviético Mikhail Suslov chegou a dizer-lhe que tal livro “não seria publicado nos próximos duzentos anos”. Demoraria, mas não chegou a tanto!

“Vida e Destino”, edição portuguesa de 2011 da D. Quixote, é um romance de 855 páginas, comparável por muitos a “Guerra e Paz”, 1869, de Leon Tolstoy. Ambos são uma “epopeia” grandiosa do povo russo: a resistência a forças invasoras estranhas à sua história, cultura e civilização: no século XX a de VG contra a Alemanha nazi; contra a França de Napoleão a de LT, no século XIX.

“Vida e Destino” é, porém, mais que uma epopeia, ou apenas uma falsa epopeia. Quando VG nos abre o interior das duas ditaduras mais sanguinárias do século XX, não são as suas ideologias que irrompem à nossa frente: é a profundidade maligna da condição humana que nos esmaga na sua crueza, ferocidade e frieza. Terror dos terrores em que todo o mal é praticado em nome de um suposto bem e cada um desses supostos bens é utilizado para levar a cabo todo o tipo de arbitrariedades, num cenário global de total ausência da razão e onde as razões da guerra parecem subsidiárias de males bem mais profundos, quase invisíveis em tão complexa teia. A par da resistência, estoicismo, solidariedade, amizade, tolerância, dádiva e amor que perpassa nos pequenos gestos, nos procedimentos simples e benévolos (na perspetiva de VG, reside aqui a esperança da humanidade), como nos enormes diálogos de intensa profundidade humana, cientifica e até artística com que VG nos presenteia ao longo do livro e levados a cabo em ambientes que nos parecem estar no limite da capacidade do sofrimento físico, psicológico e moral, da resistência física e da sobrevivência, mas não estão tal a sua heroicidade.

A polémica gerada mais tarde em alguns ciclos políticos e intelectuais sobre a desigualdade destes dois regimes sanguinários a anti-humanos, é absurda e mal intencionada porque desfocada do essencial: a natureza cruel, assassina e maligna que ambos estrutura (“Os comunistas alemães que metemos no campo de concentração, também foram encarcerados por vós no ano trinta e sete. Ejoy encarcerou-os, e o Reichsführer Himmler também. …o vosso terror matou milhões de pessoas, mas apenas nós, os alemães, únicos em todo o mundo, compreendemos isso: era preciso. Acha que hoje olham para nós com terror e para vocês com amor e esperança? Acredite que não: quem olha com terror para nós, olha para vós com o mesmo terror”, interrogatório de Liss a Mostovskoi).

A comparação com LT acaba na estrutura da obra, no invulgar e enorme painel de personagens e na sua dimensão. Esta obra de VG enquadra-se mais no realismo russo, próximo de Gorky e Thechkov e menos do seu classicismo.VG escreve sobre o que viu, para ele a literatura é indissociável dos acontecimentos históricos e políticos, e o realismo deste seu romance faz dele uma notável peça de história, tanto quanto da literatura.

“Vida e Destino” chegou até nós e ao ocidente em 1974 através de um microfilme e pela mão de uma teia de dissidentes soviéticos, entre os quais se encontrava Andrei Sakarov. VG havia acabado “Vida e Destino” em 1960, altura em que caiu novamente em desgraça depois de Nikita Khruschov o ter reabilitado. O KGB apreendeu todo o manuscrito por forma a impedir a sua publicação (“…de que adianta deixar-me fisicamente em liberdade se o livro a que dediquei a minha vida permanece preso? Não quero renunciar ao que escrevi. Peço a libertação do meu livro”), escreveu ele do dirigente soviético). Morre em 1960 de cancro no estomago, não sem antes ter passado uma cópia à sua amiga Leôlia Klestova, que a passou a outro amigo, Viatcheslav Lobodá, que a microfilmou, a entregou a Sakarov que, por sua vez, a fez chegar ao ocidente num maço de cigarros. Em 1980, em Lausanne na Suíça é, finalmente, publicado pela primeira em russo; em 1883 sai a primeira edição em língua francesa e em 1984 a primeira edição em italiano. Apenas em 1989 sai a primeira edição em território russo, por força da perestroika de Mikhail Gorbatchov. Trata-se de uma versão encontrada nos arquivos secretos do KGB e corrigida ainda em vida por VG.  Esta é considerada a versão definitiva da obra, que contém algumas diferenças relativas á versão microfilmada. “Vida e Destino”, é considerada uma das obras primas da literatura russa do século XX, onde ocupa lugar preponderante a heroica batalha de Estalinegrado, sendo sobretudo uma obra de militância em favor da dignidade humana, da liberdade e da tolerância. Está dividida em três partes: na primeira, situa-nos nos diversos cenários físicos, pessoais, políticos e sociais; na segunda, densifica e aprofunda os contextos em que tudo acontece e os mesmos se movimentam e atuam. Enriquece e aprofunda os diálogos nos seus conteúdos humanos psicológicos e emocionais, para tornar claro e visível o sentido geral da obra nas suas mensagens sociais, políticas e ideológicas; na terceira, tem lugar o avanço e cerco das tropas alemãs em Stalinegrado, a batalha memorável que aí teve lugar e a mudança histórica da Europa que nela se iniciou (“Um soldado morto com a máscara antigás, em que estava um bilhete escrito antes do ataque: Morto pela vida feliz soviética, deixei em casa a mulher e seis filhos.

No silêncio semelhante ao mar arcaico, mudo e turvo, o ponto de viragem da curva da humanidade estava a determinar-se nesse segundo.

Em 22 de Novembro os tanques soviéticos irromperam em Buzinovka. À noite, na zona a leste de Kalatch, na retaguarda dos dois exércitos alemães, o de Paulus e o de Hoth, aconteceu o encontro de duas unidades de tanques soviéticos avançadas, chegadas do norte e do sul. No dia 23 de Novembro, as grandes unidades de fuzileiros, avançando até aos rios Tchir e Aksai asseguraram a firmeza dos flancos externos dos agrupamentos de choque. A tarefa colocada ás tropas do Comando Supremo do Exército Vermelho fora cumprida: o cerco do agrupamento alemão em Stalinegrado foi completado em cem horas. Após uma batalha de cem horas, a junção das três frentes, a de sudoeste, a do Don e a de Stalinegrado, concretizou-se.

De noite, em Zavóljie viram que o céu por cima de Stalinegrado se iluminou com luzes multicolores. O exército alemão capitulara.

No momento em que Vassilevski informou Stálin, pelo telefone, sobre o cerco do agrupamento alemão de Stalinegrado, este ficou durante alguns instantes com os olhos semicerrados como se estivesse a adormecer. Foi a hora de vitória de Stálin não só sobre o inimigo vivo. Foi a hora da sua vitória sobre o passado. Lentamente, sem abrir os olhos, pronunciou com uma enorme entoação especial, gutural: “Alto aí, passarinho, foste apanhado, não vais fugir da rede, não nos separamos de ti por nada deste mundo”.

A mistura dos russos e dos alemães parecia inverosímil aos olhos dos combatentes. Os grupos de soldados alegres com pistolas metralhadoras faziam buscas nas caves, entravam nos poços de encanamento, expulsavam os alemães para a superfície gelada. Nos descampados, nas ruas, os soldados, aos gritos e aos empurrões, reestruturavam a tropa alemã – juntavam os soldados de armas diferentes em colunas em marcha. Os alemães lançando olhares para as mãos russas armadas, tinham medo da facilidade com que o dedo russo pode premir o gatilho. O poder emanava dos vencedores e uma triste paixão hipnótica obrigava os alemães a obedecer.

Paulus afastou um pouco o dorso da mesa, apertou os lábios.  Nestes momentos, o Führer também desejava que fizesse o seu papel, e Paulus preparava-se para o representar. A porta vai abrir-se, a sala no subterrâneo escuro vai tornar-se visível. A dor e amargura desapareceram. Resta o medo de que não serão os representantes do comando soviético que a vão abrir, mas os bravos soldados soviéticos habituados a premir com facilidade o gatilho das pistolas metralhadoras. E a preocupação com o desconhecido atormenta-o: quando o espetáculo acabar, vai começar uma vida humana – que vida, onde? Na Sibéria, numa prisão de Moscovo, numa barraca dum campo correcional”.

Pergunta VG: “Que força embotada e pesada reside na profundeza da vida se a brilhante energia de Hitler, a potência do povo terrível, alado, possuidor da mais avançada teoria levaram á margem silenciosa do Volga, a estas ruinas, a esta neve suja, às janelas cheias de sangue do ocaso?

Na Stalinegrado em guerra havia uma alma. A sua alma era a liberdade. Aqui, passados dez anos, as hostes de milhares de presos – que o regime político passou a ter – virão a construir uma potente barragem, uma central hidroelétrica estatal, uma das maiores do mundo”).

“Vida e Destino” está escrita numa linguagem de grande intensidade poética e marcado lirismo na caraterização das personagens, nos densos e profundos diálogos, na descrição da paisagem humana, social e física da Rússia, como europeia, em que a narrativa se desenvolve.

“Vida e Destino”, tal como “Guerra e Paz”, ambos com um painel enorme de personagens, assenta em torno de duas famílias (a de Strum e de Chapochnikova) da classe média alta da sociedade soviética que são arrastadas pela marcha inexorável da história para os campos de extermínio nazis da Sibéria. Strum poderá ser considerado como a peça chave desta notável, intrincada e complexa construção literária. Strum é um cientista físico teórico, apaixonado pela física quântica e pela teoria da relatividade cujo trabalho irá presidir à construção do poderio nuclear soviético. Vive angustiado e perplexo com as potencialidades que o seu trabalho lhe abre no horizonte e as incapacidades que vislumbra em poder controlá-las. Casa com Liudmila após um primeiro casamento desta com Abartchuk. Este fora preso, condenado injustamente e enviado para um campo de concentração em 1937 onde acaba executado e de quem tiveram um filho (Tolia). Judeu ao serviço do regime, sempre crítico, racional, metódico, empenhado e realizador, logo ambivalente, acabará por sofrer de forma dramática o efeito tenebroso das duas ditaduras mais sanguinárias do século XX: o nazismo e o estalinismo. Sua mãe Anna Semyonovna, é médica na Ucrânia quando esta é invadida pelos nazis. Perde o emprego, é enviada para o gueto e acaba exterminada.  A última carta que esta lhe escreve da Ucrânia, a par da descrição da chegada dos prisioneiros a uma camara de gaz, a sua entrada e gaseamento são, para nós, as páginas mais pungentes deste livro. Fica-se estarrecido e interiormente devastado pelo realismo cruel e atroz dessa narrativa (“Quero que saibas como foram os meus últimos dias: com este pensamento é mais fácil para mim abandonar a vida. No dia 7 de Julho, os alemães irromperam na cidade. …eu vinha da policlínica, depois das consultas, e parei para ouvir. Eu disse, “não semeie o pânico”. Logo nessa manhã, os alemães lembraram-me o que eu tinha esquecido durante os anos do poder soviético: que sou judia. Os alemães iam aos camiões e gritavam: ”Juden Kaput”. Muitas pessoas espantaram-me. …um professor que perguntava por ti, nesses dias malditos, ao ver-me não me cumprimentou, virou-me a cara. Passado algum tempo, foi anunciada a transferência dos judeus para outro local de habitação, autorizaram que cada um levasse 15 quilos de pertences. Duas vizinhas discutiram na minha presença: quem levaria as minhas cadeiras e a minha mesa de trabalho. Um cãozinho vadio comoveu-me: na última tarde não me largava, pedia carinhos. Meu filho, que triste foi o meu caminho para o gueto medieval, atravessar a cidade onde tinha trabalhado vinte anos. …vi centenas de pessoas que iam também para o maldito gueto. Levavam os doentes em braços. Um jovem levava uma velha ao colo, atrás dele, a mulher e os filhos carregando trouxas. Levavam o pai paralisado do doutor Margúlis sobre um cobertor. Primeiro, tinha pensado: vai ser um horror. Mas não. Imagina que naquele curral, senti um alívio de alma. Foi porque, pelo menos à minha volta, só havia gente com um destino igual ao meu. …as pessoas que conhecia, olhavam-me nos olhos e não me evitavam, falavam comigo. Vítia (Víktor). Vejo aqui gente muito má, avarenta, cobarde, manhosa, até pronta a trair, há aqui um homem horrível, Epstein, vindo de uma vila polaca. …vai com os alemães para as buscas, participa nos interrogatórios. Nunca me senti judia desde a infância, cresci no meio das amigas russas, entre os poetas. Mas nestes dias terríveis o meu coração encheu-se de ternura materna pelo povo judaico. Estava habituado a procurara nos olhos humanos os sintomas das doenças. Agora já não posso olhar assim as pessoas – apenas vejo nesses olhos o reflexo das almas: de almas boas, tristes, bondosas, irónicas e condenadas à morte, vencidas pela violência e, ao mesmo tempo, triunfando sobre a violência. Almas fortes. Aqui vejo que a esperança quase nunca tem ligação com a razão, é absurda, acho que foi gerada pelo instinto. Em lado nenhum há tanta esperança como no gueto. As pessoas vivem como se tivessem pela frente muito anos de vida. Ao mesmo campo que os alemães irrompem no gueto para as suas pilhagens, as sentinelas divertem-se dando tiros às crianças por detrás do arame farpado. Cada vez há mais pessoas que confirmam que o nosso destino pode decidir-se de um dia para outro. Agora aqui vai o que não são rumores: Hoje, os alemães levaram oitenta homens jovens para os trabalhos, supostamente para arrancar e apanhar batatas, e houve quem ficasse contente. Mas percebi de que batatas se tratava. Agora, de noite, domina-me um terror que me gela o coração. A morte espera-me. Tenho vontade de gritar, de te chamar ao meu encontro. O camponês que trouxe as notícias sobre a preparação das valas, contou que a sua mulher chorara de noite, que repetia: Eles costuram, são sapateiros, curtem o couro, reparam relógios, vendem medicamentos nas farmácias. O que será quando os matarem a todos? O que te vou dizer antes da eterna separação? …durante a vida tens sido a minha alegria. Que o terrível destino te poupe. Ouve-se o choro das mulheres e as pragas dos polícias, vindos da rua, olho para estas páginas e tenho a sensação de que estou protegida do mundo terrível cheio de sofrimento. Lembra-te de que tanto nos dias de felicidade e nos de desgraça, o amor de tua mãe está contigo, ninguém é capaz de o matar. Vive, vive eternamente”). Há quem teorize em Strum aspetos autobiográficos de VG. Este excerto é um deles.

 

Em torno de Strum movem-se um conjunto de outros intelectuais e cientistas como o historiador Maddyrov, o engenheiro químico Artélev, o físico teórico Sokolov, o velho intelectual bolchevique Mostovskoi e o menchevique Chernetsov.

Da segunda família, são muitas das mais importantes personagens da obra: as irmãs Liudmila, Evguénia, Marussia e o irmão Mitia. Dos casamentos, separações e relações cruzadas destas irmãs, surge uma série de personagens importantes do regime e da família: o próprio Strum que casou com Liudmila, Krimov, comunista convicto, comissário político em Estalinegrado acaba preso e torturado em Liubliana; Spiridónov marido de Marussia, a quem coube a resistência na defesa da central elétrica de Estalinegrado; têm uma filha-Vera, que casa com Viktorov, piloto comandante de esquadrão que morre em combate. Vera vem a ter o filho de ambos a bordo de uma barcaça (lanchão), comandada por Spiridónov, numa dramática travessia do Volga aquando da chegada dos alemães a Estalinegrado; Karimov, tradutor para tártaro da Divina Comédia, As Viagens de Gulliver e da Ilíada; Nóvikov, Comandante do corpo de tanques; Guétmanov, comissário político do corpo de tanques; Nemovkov, amigo deste; Anatoli (Tolia) – tenente do exército que morre em resultado de ferimentos de guerra; Liss, major comandante de campo, cujo interrogatório a Mostovskoi, carregado de dramatismo, inteligência e subtilezas na comparação/semelhança entre cada um dos regimes em que cada um se situava, constituem páginas indeléveis deste livro (Aconselho-o a não perder tempo inutilmente. Fuzile-me, ou enforque-me, acabe comigo. Ninguém tenciona acabar consigo. Não se preocupe, por favor. Não me preocupo, não tenciono preocupar-me. Não vejo causa nenhuma para a nossa hostilidade. Tudo se passará sempre assim: vai ensinar-nos e vai aprender connosco. Vamos pensar juntos”).

A vasta plêiade de figurantes nesta longa e quase asfixiante obra de história e literatura, tem nela um aglutinador explicativo e, ás vezes, ironicamente ao contrário, no número 8 da II parte: “AMIZADE! TANTAS VARIANTES HÁ NELA!

Amizade no trabalho. Amizade na atividade revolucionária, amizade na longa caminhada. Amizade na felicidade, amizade na desgraça. Amizade na igualdade e na desigualdade. Estará a sua essência apenas no trabalho e no destino comum? É que, por vezes, o ódio entre os membros do mesmo partido, cujas convicções diferem apenas em pequenos pormenores, é maior do que o ódio entre essas pessoas e os inimigos do partido. Por vezes, homens que vão combater juntos odeiam-se mais do que odeiam o inimigo comum. Às vezes, o ódio entre os presos é maior do que o ódio desses presos para com os seus carcereiros. É obvio que encontramos amigos entre pessoas com um destino comum. Também pode haver amizade motivada pela repugnância da profissão comum. É que nem só os heróis da guerra e do trabalho são amigos, mas também desertores da guerra e do trabalho. Outras vezes, a amizade é egoísta, outras ainda é guiada pelo espirito de autossacrificio, mas é espantoso que o egoísmo da amizade aja desinteressadamente em benefício do amigo, enquanto o autossacrifício da amizade é, no fundo, egoísta. Existe uma amizade prática, ativa, a do trabalho em conjunto pela vida, pela fatia de pão. Existe uma amizade baseada num ideal sublime, uma amizade filosófica de interlocutores, uma amizade de pessoas que têm trabalho diferentes, separados, mas refletem juntos sobre a vida. Os amigos sempre precisam uns dos outros, mas nem sempre obtêm quotas iguais de amizade. Nem sempre os amigos esperam da amizade a mesma coisa. Acontece que às vezes um amigo é como uma instância tática, com a ajuda dele a pessoa comunica consigo própria, encontra alegria em si própria, nos seus pensamentos que soam nítidos e visíveis graças ao reflexo na caixa de ressonância que é a alma do amigo. Por vezes a amizade manifesta-se na discussão, nas diferenças entre amigos. Se os amigos são parecidos em tudo, se refletem mutuamente, a discussão com o amigo é a discussão consigo próprio. É o amigo quem justifica as nossas fraquezas, defeitos e até vícios, quem afirma a nossa justiça, o nosso talento, os nossos méritos. A amizade baseia-se na semelhança, mas manifesta-se na diferença, em contradições. Então, na amizade a pessoa aspira de modo egoísta a receber do amigo o que ela própria não tem. Então, na amizade, a pessoa deseja entregar generosamente o que possui. Uma verdadeira amizade não depende do facto de o amigo estar no trono ou destronado, de estar na prisão; uma verdadeira amizade está virada para as qualidades interiores da alma e é indiferente à fama, à força exterior. Exista uma base inabalável de amizade: a fé na fidelidade do amigo, a fidelidade ao amigo. Só não necessita de amizade uma criatura forte, dotada de força absoluta. Certamente que tal criatura só poderia ser Deus”.

 

A leitura desta obra não pode deixar de associar-se a outra de algumas caraterísticas comuns: “As Benevolentes”, de que já escrevi em crónica anterior. De dimensão similar, ambas têm como temas dominantes acontecimentos decisivos da II guerra mundial. a primeira, centrada na figura de Maximiliano Aue, oficial superior das SS, numa síntese simplista tem na base as ambições imperialistas, felizmente sempre fracassadas, da nação alemã e os sinistros e abjetos caminhos que na II guerra mundial a mesma trilhou. Em “Vida e Destino”, porque escrita por um russo, é a grande alma russa que nela se espraia, num cenário de fundo que é o bolchevismo soviético estalinista e o período de terror arbitrário, imoral e fratricida das purgas de 1937. Ambas se leem compulsivamente e em permanente sobressalto psicológico, quase físico, quase irrespirável: porquê isto, porquê assim?, a questão que nos assalta e corrói em permanência ao longo da sua dramática e intensa escrita.

Falar das figuras sinistras e dantescas de Hitler e Estaline, é obrigatório, embora possa parecer redundante. Mas foram eles, serão sempre eles as células disseminadoras do maior cancro maligno, social e político de todo um século e, espera-se, de toda a história da humanidade. Apesar de terem sido os tanques soviéticos que abriram na mente de Hitler um inferno de fogo e gelo, nazismo e comunismo são a fusão num, de dois processos iguais: o terror e perseguição arbitrários, imorais, abjetos, até ao assassínio da última réstia da condição humana.

 “David passou a mão pelo umbral da porta, sentiu o seu frio liso. As pessoas que tinham estado sempre juntas dispersaram-se, perdendo-se umas às outras. Era um movimento nada próprio de seres humanos. Nada próprio, sequer, de seres vivos inferiores. Neste movimento não havia sentido nem meta, não se manifestava nele a vontade dos vivos. A corrente humana fluía para dentro da camara, os que estavam a entrar empurravam os que já tinham entrado, estes empurravam os vizinhos, e estes inúmeros e pequenos empurrões geravam um movimento em nada diferente do movimento molecular descoberto por Brown. Chegou até à parede, tocou a sua simplicidade fria com o joelho, depois com o peito, não havia caminho. Sófia Ossípovna estava parada, encostando-se à parede. …ficaram a olhar para as pessoas que moviam da porta para dentro. A porta estava longe, e só era possível perceber-se onde ficava pela brancura muito espessa dos corpos humanos, apertados, adensados á entrada, e depois dispersos pela câmara de gaz. David sentiu que ela tinha medo de o perder. Mas eles conseguiram ficar junto á parede. A mão dela apertou a mão de David, puxando-o para si. A multidão da camara estava a ficar cada vez mais densa, os movimentos cada vez mais lentos, os passinhos cada vez mais curtos. A curva do movimento do seu corpinho leve deixou de coincidir com a curva do movimento do corpo grande de Sófia que já se tinha separado. Ao perder a mão, o miúdo gritou. Os lábios das pessoas respiravam perto. Os corpos tocavam-se, os seus pensamentos e sentimentos começavam a unir-se, a entrelaçar-se. “Deixem passar”. Um homem de braços fortes, musculados, pescoço grosso e cabeça inclinada tentava passar através da massa compacta de corpos. Por causa da perturbação que produziu, David apareceu ao lado de Sófia. Ela apertou o miúdo ao seu corpo. Do lado da porta, chegavam gritos; as pessoas, vendo a compacta massa que enchia a câmara, recusavam-se a passar pelas portas abertas. David viu como a porta se fechou: o aço da porta atraído por um íman, começou a aproximar-se até se juntar tudo e formar um bloco único. David reparou que, na parte superior da parede, qualquer coisa se mexeu: era um ventilador que começou a girar. Sentiu-se um cheiro fraco adocicado. O movimento da cabeça e do pescoço de David, não causou a Sófia o desejo de olhar para onde outra criatura viva estivesse a olhar. Os movimentos da criança enchiam-na de compaixão. O roçagar dos passos extinguiu-se, ouviam-se de vez em quando palavras incompreensíveis, gemidos, gritos. Se alguém cegasse naquele momento, não teria sentido a perda. O garoto semimorto estava a respirar, mas o ar que lhe era oferecido não lhe prolongava a vida, afugentava-a. Pessoas deslizavam para o chão. As mãos fortes e quentes não deixavam de abraçar David, o menino não percebeu que os olhos se encheram de escuridão, que o coração se encheu de vazio, que o cérebro se tornou indiferente e frio. Mataram-no. Sentiu que o corpo do garoto pendia dos seus braços. Sou mãe, pensou. Foi o seu derradeiro pensamento. O vómito jorrou. Sófia Ossípovna apertava a si o David, o boneco morto”.

 

Foi inglório pretender escolher excertos desta obra que são significativos face à sua imensidão, para além da sua permanente, absoluta e total intensidade. Nessa inglória tarefa, só resolúvel pela sua leitura total, sublinhei a carta de Anna Semyon a seu filho Strum, a camara de gaz, a batalha de Estalinegrado e a questão humana essencial, a amizade que, como dissemos, parece ser a matriz emocional subjacente à narrativa.

 

“Vida e Destino” é um clamor pela história, pela identidade, pela cultura e pela tolerância entre os povos.

“Vida e Destino” é um grito de denúncia da maldade, do ódio e da arbitrariedade, e a valorização dos seus contrários.

“Vida e Destino” é a afirmação de que todas as razões, políticas e outras, para a guerra, nunca serão eternas e a história nunca as validará (“…na guerra não há inocentes, não há isentos de julgamento”).

“Vida e Destino” é a constatação de que todas as épocas da história tiveram os seus deuses. Apenas a humanidade, a tolerância, a compaixão e o amor a todos dará sentido, qualquer que seja a sua base de suporte.

*1. Menchevique (minoritário), por oposição a bolchevique (maioritário): fação do Partido Revolucionário Russo chefiado por Julius Marlov que se opôs a Lenine e que saiu derrotada no Congresso do Partido Social Democrata Russo. Foram maioritários no Primeiro Governo Provisório Russo. Um povo é também referido frequentemente neste livro: Os Calmuques: Povo budista nómada de carater forte e aguerrido, habitante da foz do rio Volga. Fez parte do exército imperial dos Czares que o utilizou para fazer frente a outros povos invasores vindos das estepes. Estiveram sob comando alemão na II guerra mundial durante a ofensiva do Cáucaso. Por isso, o regime bolchevista deportou-os para a Asia central. Em 1957, depois da morte de Estaline, poderam regressar à sua antiga pátria. Hoje fazem parte da Federação Russa.

*2. NKVD: Comissariado do Povo para os Assuntos Internos do Ministério do Interior da URSS, criado em 1934. Transformado depois em Administração Central da Segurança do Estado. Criou e administrou os “Goulags” do regime.

Nota final: Aconselho vivamente duas séries televisivas da RTP 2: “Uma aldeia Francesa”, ocupada pelos alemães durante a II guerra mundial e Outra, “Amor em Berlim” relativa à transição e unificação da Alemanha. A terceira, “Filhos da Guerra”, mini série alemã, situada na II guerra mundial no ano de 1941. Premiada com o EMMY 2014 e Prix Europe 2013. Abordam processos históricos, sociais e políticos “recentes”, que só agora será possível começar a analisar, dadas as implicações profundas que têm no inconsciente coletivo destas duas grandes, poderosas e, hoje, amigas nações, e na alma coletiva da Europa. A RTP 2 deve ser felicitada por elas.

Outras obras de VG:

Tudo Passa, 1955-1983;

Bem Hajam, 1962;

A Estrada, 1985 (francês).

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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