LETRAS @CORdadas – Tagore

por Miguel Alves | 2017.05.23 - 09:13

 

 

 

Rabindranath Tagore – 1861-1941

Nobel da Literatura em 1913;

Nomeado Cavaleiro Britânico em 1915;

Em 1919 rejeitou o título de SIR concedido pela coroa britânica como protesto contra a política inglesa na India.

Filósofo, dramaturgo, poeta, romancista e músico, Rabindranath Tagore nasceu em Calcutá, filho mais novo de uma família brâmane de treze filhos. Seus pais foram fundadores da fé Adi Darma*1 e eram proprietários agrícolas de grande dimensão, facto que levava seu pai a viajar constantemente pelo país. Sua mãe morreu tinha ele poucos anos de vida, tendo sido educado sobretudo por criados na enorme mansão da família conhecida pela mansão Jorasanko.

Aos treze anos viajou com seu pai pela India durante vários meses, recebendo educação em história, astronomia, ciência, poesia e sânscrito (língua antiga da família indo europeia e língua clássica da India e do hinduísmo) numa escola do monte Dalhousie nos Himalaias.

Estudou direito em Inglaterra entre 1878 e 1880, regressando depois ao seu país para administrar as vastas propriedades agrícolas da família, ao mesmo tempo que desenvolveu projetos nas áreas da saúde e da educação. Com base na sua formação em filosofia, em 1901 fundou uma escola dedicada ao estudo das filosofias oriental e ocidental (Escola Nova de Santiniketon – Morada da Paz).

RT tem uma obra vasta e diversificada: a sua produção em prosa inclui um conjunto de novelas, ensaios e contos, cuja matriz dominante são os valores humanistas, eivados de um sentido espiritual e panteísta da vida e da existência. É por muitos considerada como uma literatura da alma e a expressão da arte, da religião e da política da velha e ancestral India. Em poesia deixou-nos um legado de três mil poemas em língua bengali de substância diversa, mas sempre num fundo humanista, de caraterísticas simbólicas na sua fase final e direcionado sobre temas religiosos, políticos e sociais. Esta obra poética tem uma caraterística saliente: foi publicada sob pseudónimo, circunstância que levou os críticos a atribuírem-na a Bhãnusimba, um poeta Vaisnava*2 do século XVII e que havia sido descoberto pouco tempo antes. Como músico deixou-nos um património de duas mil canções num estilo característico: o rabindra-sangita*3 conhecido por fundir a música clássica indiana com algumas tradições folclóricas de diferentes territórios da India.

RT foi um ativista do nacionalismo indiano e amigo pessoal de Mahatma Ghandi a quem chamou a sentinela da India. A obra sobre a qual escrevemos hoje tem como pano de fundo subentendido, esse período da história deste imenso, rico, diversificado, colorido e grandioso país.

Quero hoje @CORdar a obra mais celebrada de RT, o romance: “A Casa e o Mundo”, 1916 (no original “Gora Bairé”). Uma segunda edição portuguesa de 1941 da Editorial Inquérito com prefácio de Telo de Mascarenhas, um livro adquirido por um familiar meu em 1943 e que eu li em 2001.

“A Casa e o Mundo” desenvolve-se no palácio do Marajá Nikil e tem com figuras dominantes o próprio Marajá Nikil, sua mulher Bimala e Sandip Babu, ativista do “Bande Mataram” *4. Como figuras secundárias, mas não pouco importantes na história desenvolvida, encontramos Chandranath Babu, mestre e perceptor de Nikil e Bara Rani irmã deste.

O romance está dividido em vinte e três capítulos todos com o mesmo título: Narração de Bimala, de Nikil ou de Sandip. É pela voz, alternada ou não, de cada uma destas três personagens que a obra se desenvolve e envolvendo todas as outras figuras que nela participam. Cada uma delas fala de si, da relação com as restantes, bem como do meio social, económico e político em que a trama se espraia. Numa linguagem poética, mas não desprovida de sentido social e político (“Sinto a necessidade de ser fascinada, e essa fascinação peço-a á minha pátria, sob uma forma visível. Quero que ela me forneça alguns símbolos evidentes que lancem um encanto no meu espirito. Desejaria tratar o meu país como uma pessoa, chamar-lhe mãe, deusa, Durga*5; e por essa pessoa eu tingiria a terra do sangue dos sacrifícios”), intimista, mas ao mesmo tempo universalista (“nós, as mulheres, não somos unicamente as guardiãs do fogo sagrado do lar, nós somos a própria chama que aquece a alma”), também materialista, mas com um fundo marcadamente espiritualista (“Eu nasci na India, e o veneno do espiritualismo corre nas minhas veias”).

“A Casa e o Mundo”, independentemente da história que conta, do contexto histórico, económico, social e político em que tem lugar, dos valores humanistas e espiritualistas que transmite e da beleza literária excecional que constitui, faz, nas pessoas das suas três figuras essenciais, uma “arrumação” humana e psicológica verdadeiramente notável, apesar de ela ter lugar numa sociedade oriental, profundamente desigual, histórica e temporalmente contextualizada. Foi para mim o seu fascínio maior. Vejamos:

BIMALA: é o sentimento, a emoção, a criatividade, o pudor, o arrebatamento, a sensibilidade, a fragilidade que escondem uma enorme energia física e psicológica. “O céu que entorna a luz é azul, e o rosto de minha mãe era moreno; mas tinha o esplendor da santidade e a sua beleza teria castigado a vaidade das mais belas. …era unicamente o meu coração de mulher, em que o amor não podia ser senão culto.  Nós, as mulheres, somos como os rios: força nutritiva enquanto correm entre as margens; potência destruidora quando as transbordam. …o fundo questão era saber como poder defender os meus direitos. Partir e deixar o campo livre ao inimigo era confessar a derrota.

NIKIL: é a racionalidade, mesmo que puritana, o direito, a justiça, a liberdade e a independência como rumos da vida e da ação humanas. A ponderação, o equilíbrio, a maturidade. Também o alheamento da mediocridade, da maldade, da mentira e da manipulação. “Mas reservo a minha adoração ao direito, que é um bem maior que o país. Adorar o país como um deus, é votá-lo á desgraça. Os meus sentimentos são ultrajados quando tenta mostrar a injustiça como um dever e a iniquidade como um dever moral. Querer dar às nossas paixões um lugar mais alto que a verdade, é um sinal seguro de servidão. Pode a força porventura, prevalecer, sobre a verdade?

SANDIP: é o egoísmo e cinismo frios e calculistas. O egocentrismo, a vaidade e a sedução, como instrumentos de manipulação e utilização do “outro”. A ausência de escrúpulos de qualquer tipo e nenhum remorso mesmo na conduta mais vil. Humilhado e agressivo por força da humilhação, mas nunca arrependido. A capacidade de luta, ação e realização, sem olhar a meios para atingir fins. “O seu rosto era de uma beleza notável. Mas parecia-me que havia muito metal vil na liga de que era composto. Parecia acostumado a ocupar, sem contestação, o lugar que havia escolhido. …impunha-se a meu marido e tirava proveito da sua amizade. …mostrava em tudo uma elegância rebuscada. Comecemos por encher os cofres da nossa pátria com riquezas roubadas; depois durante séculos, se necessário for, soframos. …obter resultados rápidos com o emprego da injustiça. O tempo não está para escrúpulos elegantes. Nós devemos ser brutais sem hesitação, sem raciocínio. Não tem força bastante para compreender que reconhecer um erro é o pior dos erros. Daquilo que o meu espirito cobiça, é necessário que os outros se privem. …os que não têm nem hesitações nem escrúpulos, são os eleitos da Previdência. É a nossa avidez que os faz construir as vossas muralhas e é a minha avidez que me faz passar através delas. Não sou homem que me deixe intimidar. A natureza entrega-se, mas não se entrega senão a quem a rouba. Agrada-lhe a posse violenta, o assalto, o rapto. Não tece a grinalda dos esponsais no colo descarnado dos ascetas. Não gosto dessa poesia nem dessas flores sem perfume.  Enquanto estamos vivos, saibamos queimar e ferver. O homem compraz-se em dissimular por detrás do véu das palavras. A audácia tem um poder ilimitado sobre as mulheres. As mulheres sabem ver no meu rosto, nos meus propósitos, uma paixão dominadora. É por isso que as mulheres se deixam abandonar á torrente da minha paixão, sem se preocuparem de saber se ela as conduz á vida ou à morte. A planta foi arrancada pela raiz. O que lhe falta agora são cuidados e adubos. Pode ter-se afinidades para mil seres. Nas minhas contas, nunca admiti que uma só afinidade me fizesse esquecer todas as outras. Sandip tem o poder, mas não tem a força que dá a justiça. Ele gera a vida, mas é para em seguida a ferir de morte. Possui o carcaz dos deuses, mas as suas flechas vêm-lhe do demónio”.

O processo de sedução, encantamento e manipulação platónica de Sandip a Bimala, leva esta a entregar-lhe as suas joias e o dinheiro da casa/reino do Marajá. Para fins de prestigio e liderança social e política individual que esta não vislumbrou, muito menos racionalizou porque a ele foi incapaz de resistir (“Desde o instante em que roubei o dinheiro do meu marido para o dar a Sandip, a harmonia que reinava entre mim e ele tinha desaparecido. Eu não destruíra somente tudo o que constituía em mim um valor; também Sandip tinha perdido o melhor do seu poder. Não é necessário ser bom atirador para matar a presa que está em nossas mãos”).

Quando o assalto ao palácio está prestes a acontecer (“Uma hora depois, grupos de luzes apareceram ao longe, e uma multidão numerosa aproximou-se do palácio coleando os caminhos”), já ele havia entregue de novo as joias num ato pleno de sentido e definidor da sua estrutura humana e psicológica (“Não sou homem que me deixe intimidar por si Abelha-Rainha (Bimala). Eu não vim hoje para me apoderar destas joias; vim para as devolver. Era preciso que elas me pertencessem sem contestação. Agora que me pertencem, ofereço-lhas”).

“Onde o espírito não teme, a fronte não se curva”, escreveu noutra obra RT. É certo. Mas no caso dos Sandips que andam por aí, não é o espírito, é falha no “software emocional”. O processamento não ocorre, porque é impossível ocorrer. Não há com que fazê-lo.

____________________________________________________________

*1. Adi Darma: Seita reformadora do hinduísmo que preconiza caminhos diferentes para um Deus. De certa forma, é considerado um movimento anti castas. No mínimo, o repudio das diferenças entre as pessoas e como fundamento para uma nação secular moderna.

*2. Vaisnava: Tradição hindu que adora Vishnu como Deus original e supremo.

*3. Rabindra-Sangita: Músico popular e icónico bengali, conhecido pelo seu purismo conceptual na construção musical.

*4. “Salvé Mãe”, canto indiano de Bankim Chateerji, romancista bengali. Associado ao “Swadeshi”, Movimento Nacionalista Indiano”. Tornou-se o hino nacional da India.

*5. Durga: Deusa suprema: inacessível e invencível. Encarnação do feminino e da energia criativa.

 

Outras obras de RT:

A Lua Crescente, 1950;

O Coração de Deus, 2004;

O Coração da Primavera, 2011;

Poesia, 2012;

Nacionalismo, 2012;

A Asa e a Luz, 2016;

A Voz da Mãe que dava Sentido ás Estrela, 2017.

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Pub