LETRAS @CORdadas – Svetlana Alexievich

por Miguel Alves | 2018.01.27 - 11:37

 

Svetlana Alexievich, nascida em 1948

Prémio Tucholsky, 1996;

Prémio Friederich Ebert, 1998;

Prémio Herder, 1999;

Prémio da Paz Erich Maria Remarque, 2001;

Prémio Ryszard Kapuscinki, 2011;

Prémio Book Crítics Circle Award, 2005;

Prémio Médicis de Ensaio, 2013;

Prémio Nobel da Literatura em 1915.

Svetlana Aleksandrovna Aleksievitch, em bielorusso, nasceu em Stanislau, hoje Ucrânia, em 31 de Maio de 1948. Os seus pais eram ambos professores. Com a desmobilização do primeiro foram ambos para a Bielorrússia onde exerceram a sua atividade. Cresceu e estudou jornalismo em Minsk. Escreveu poesia e artigos para jornais desde os bancos de escola. Em 1967 mudou-se para Brest onde começou a trabalhar na escola e jornal local. Abandonou o ensino, que era uma tradição familiar, para se dedicar apenas ao jornalismo que incluiu o trabalho em revistas literárias. No ano 2000 abandonou o país e foi viver para Paris, Berlim e Gotemburgo. Em 2011 regressa a Minsk onde atualmente reside.

A sua primeira grande obra data de 1985 com “A Guerra não tem Rosto de Mulher” onde SA, através da voz das mulheres do exército vermelho que participaram na II guerra mundial, revela aspetos do funcionamento das tropas soviéticas até aí completamente ignorados. Além da reputação de dissidente que já tinha, este livro trouxe-lhe acusações de pacifista a soldo estrangeiro e de denegrir o papel heróico das mulheres soviéticas naquele conflito. Já no estertor deste regime, o livro foi destruído, SA foi ameaçada pelo desemprego e levada a tribunal. Valeu-lhe a chegada ao poder de Gorbatchov e a queda do regime. A Bielorrússia continua a não publicar as suas obras e quando lhe foi atribuído o Prémio Nobel em 2015, ela própria afirmaria: “fazem de conta que eu não existo”. Na mesma altura, Andrei Zorin da universidade de Oxford afirmou que a atribuição do Nobel da literatura a SA era uma tomada de posição de grande alcance moral e literário, em favor da vida e dignidade humanas, em tempos de militarismo e de regimes arrogantes.

SA criou um novo género literário de não ficção que é chamado o “romance de vozes” o qual, através de uma notável perícia literária, nos enlaça e constrói uma profunda, minuciosa e candente “paisagem de almas”.

SA foi estimulada pelo escritor bielorusso Ales Adamovich a desenvolver este tipo de literatura que pode ser denominada por “novela coletiva”, “novela evidência” ou “coro épico”. Uma espécie de obra polifónica de letras em que a voz concreta das pessoas chega intacta ao produto final, numa espécie de memorial à dor, ao sofrimento, à resistência, como ao amor, à renúncia, à resistência e à dádiva de si e na tentativa de fixação da memória de um povo. (“a melhor maneira de aprendermos alguma coisa sobre a vida é através do som das vozes humanas; a realidade sempre me atraiu como um íman, tortura-me, hipnotiza-me. É assim que eu vejo e ouço o mundo, como um coro de vozes individuais”).

SA é também uma voz denunciante e mortífera daquilo que foi a história russa e soviética, e denuncia-a no seu cerne mais profundo ao dizer que ela sempre foi uma enorme “vala comum e um banho de sangue”. Uma dinâmica permanente entre a procura de culpados e a sua execução. Um diálogo sem fim entre executores e vítimas. Desde o Principado de Kiev para o reino da Moscóvia, até às guerras da independência contra as Hordas de Ouro do Império Mongol, passando pelos dois séculos de domínio dos Romanov, pelo mundo soviético até aos nossos dias (“Esta é a nossa história. É este o tema dos meus livros, este é o meu caminho, os meus círculos do inferno”).

Quero hoje @CORdar” uma obra absolutamente notável de SA que acabo de ler: “As Últimas Testemunhas”, 2017. Tem na base a voz impressionante, cruel, crua, objetiva, quase material, do amor, da bondade e da compaixão, a par da indiferença, maldade, violência, crueldade e abandono de que a condição humana se revela capaz. Através da voz de 101crianças, hoje homens e mulheres, que viveram o que nela se nos apresenta e o poderam ainda relatar. É uma obra prima que navega nos domínios do jornalismo de primeira água, da sociologia, da política e da psicologia. Como a própria SA disse de si própria: ” É assim que posso ser, ao mesmo tempo, uma escritora, uma repórter, uma socióloga e uma psicóloga”.

Mas é também uma obra prima na eficácia política com que dizima todas as explicações e justificações para a guerra, ao mesmo tempo que vai fundo no vislumbre dos limites da condição humana: da bondade, dádiva e renúncia extremas, (“Aquele alemão… ele não dizia nada. Não pedia. Corri e chamei as raparigas. Uma delas deu-lhe um pedacinho de pão. Ele não parava de agradecer. Já sabíamos quando eles podiam aparecer e até esperávamos por eles. As educadoras censuravam-nos por isso, pois acontecia as raparigas desmaiarem de fome, no entanto, guardávamos á socapa comida para esses prisioneiros. A minha pasta de escola ia-se enchendo de documentos. Eu negava, dizia que não sabia nada, que ainda era pequeno e que no campo apanhava batatas e não armas. Na cela, eu não adormecia, mas perdia os sentidos com a dor. Podiam ser fuzilados a qualquer momento. Toda a família e os seus quatro filhos. Por esconderem uma criança judia. Do gueto. Eu era a sua morte. Que grande coração é preciso ter! Um coração desumanamente humano. Mais tarde, a minha mãe veio buscar-me. Entrou no quintal e ajoelhou-se perante esta mulher e dos seus filhos”).

à maldade e crueldade inauditas e quase inimagináveis. “Encontrámos na casa nossa a avó morta. Sepultámo-la sozinhos. A nossa alegre e sábia avó que adorava a música alemã. A literatura alemã. Lembro-me de como ardia o cabelo de minha mãe, morta. Todos tinham medo dos alemães, mesmo as crianças e os cães. Fuzilavam de acordo com a lista. Depois de encontrar todos, fuzilam… quem chorar, será fuzilado, sorriam. Eu caí para trás da arca. Recobrei os sentidos, pela primeira vez, ao sentir que qualquer coisa gotejava sobre mim… gotejava e gotejava como água. Levantei a cabeça: gotejava o sangue da mãe. …como nos campos de concentração alemães? Lá tiravam o sangue às crianças para os soldados alemães feridos. Os médicos alemães achavam que o sangue das crianças até cinco anos de idade ajuda à recuperação mais rápida dos feridos. Tinha dez anos. Exatamente dez anos. Os SS apanharam-me na aldeia. Espancaram-me com varetas de espingarda. Deram-me pontapés com botas cardadas. Depois das torturas atiraram-me para a rua e deitaram-me água no corpo. Era no inverno, cobri-me com uma crosta de sangue gelado. Não percebia o que eram as batidas que ouvia por cima de mim. Estavam a construir uma forca. Vi-a quando me levantaram e me puseram no cepo. O nó apertou-se, mas foi tirado. Os partizans fizeram uma emboscada. Mais dois segundos e seria o fim. Os que querem comer papa, façam rapidamente uma fila. Vamos levá-los a comer. Porque não regressam os que foram levados a comer papa? Vemos a chaminé preta do crematório… . A mãe jazia morta. Baixa os olhos, baixa os olhos. Mas eu esquivava-me das suas mãos e olhava. Adeus filhinhos. Lembro-me como o vento levantou o vestido da mãe quando ela caiu na trincheira. Faria vinte quilómetros se soubesse que nalgum sítio me dariam uma tigela de papas. A senhora não imagina como um dia pode parecer longo a uma pessoa esfomeada. Uma hora, um minuto. Com olhos ardentes e tudo em silêncio. Vi um homem que mastigava os botões. A fome fazia as pessoas perderem o juízo. Deixei de ouvir, então comemos o gato. Depois perdi a visão …trouxeram-nos um cão. Foi o que me salvou …se não tivesse sido esse cão, não teríamos sobrevivido.  As pessoas até terra comiam. Vendia-se terra dos armazéns e terra e sobre a qual se espalhou óleo de girassol. Uma e outra custavam caro. Os alemães arrancaram os olhos e o cabelo á mãe, cortaram-lhe os peitos. Atiçaram os cães contra a pequena Gália que se escondera debaixo de um abeto e não respondia. Aqueles trouxeram-na aos bocadinhos. A mãe ainda estava viva, compreendia tudo …diante dos seus olhos. Vai escavando…. Terminou. Então, empurram o velho para a fossa e mostram com gestos para ele se ajoelhar. Enterraram-no vivo … Ajoelhado. De manhã, a avó enrolou a mãe um lençol branco e pô-la no trenó. Todas as quatro puxámos este trenó …desculpe, não consigo continuar …Choro…”.

Quase aconteceu comigo. Não conseguir continuar a ler o livro. A catadupa de emoções que desencadeia, provoca-nos um tumulto interior que oscila entre a dor e a compaixão por um lado, a raiva e fúria por outro. É uma espécie de 101 takes cinematográficos que nos transportam para um mundo fantasmagórico, ignorado, doloroso e sucessivamente repetido: não, não é possível que tenham feito isto a cada uma daquelas crianças; não, não é possível tamanha coragem, resistência, bondade e dádiva.

Mas tem que resistir-se e lê-lo cabalmente. Cabalmente no que lá está descrito por quem o viveu, e no mergulho profundo à condição humana a que ele nos obriga. Foi apenas há pouco mais de sete décadas. Ontem. O que há de diferente nas tragédias gregas da antiguidade clássica? Nas figuras gigantescas de Homero? Será que a condição humana muda? Ou apenas se adapta, continuando igual na sua profunda essência?

Outras obras de SA;

A Guerra não tem Rosto de Mulher, 1985

Desencantados com a Morte, 1993;

O Fim do Homem Soviético: Um tempo de desencanto, 2012;

Vozes de Tchernobil, 2016;

Rapazes de Zinco, 2017.

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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