Letras @CORdadas – Stendhal

por Miguel Alves | 2018.08.29 - 08:51

 

Henri-Marie Beyle (Stendhal) 1783-1842

 

Henri-Marie Beyle (Stendhal) nasceu em Isère, Grenoble. Órfão de sua mãe aos sete anos, foi criado e educado entre seu pai e uma tia. Teve uma infância marcadamente infeliz, por ter uma relação de grande intensidade com sua mãe. Não gostava de seu pai por ser um homem frio e sem imaginação. A sua amizade mais próxima desde a infância foi com sua irmã Pauline, com quem manteve uma relação constante e escrita até muito tarde.

Stendhal desde muito cedo se manifestou rebelde, rejeitando as virtudes religiosas e monárquicas que a sociedade da época inculcava, a par da sua firme vontade de sair da sua terra natal e viajar. Republicano fervoroso, manifestou-se favoravelmente pela execução do rei (Luís XVI) e apoiou, inclusive, a detenção temporária de seu pai.

A partir de 1796, frequentou a Escola de Grenoble onde obteve um primeiro prémio em matemática. Daí transitou para a Escola Politécnica de Paris, não tendo sido admitido por ter adoecido na véspera das provas de admissão. Por influência de um parente afastado que quis ser seu protetor, Pierre Daru, ingressou no Ministério da Guerra.

Admirador e apoiante incondicional de Napoleão, participou nas suas campanhas e batalhas. Foi auditor do Conselho de Estado em 1810 e participou nas batalhas de Itália. Acompanhou Napoleão na invasão da Rússia em 1812 e presenciou o incêndio de Moscovo. Foi nomeado Comissário para os Suprimentos de Guerra aquando da retirada francesa. Na fuga para Paris, salvou a sua vida em conjunto com os seus companheiros encontrando uma travessia alternativa à sobrecarregada ponte flutuante na travessia do rio Berezina onde sucumbiram milhares de franceses. É sabido que Napoleão atravessou este rio em fuga com o seu estado maior, deixando para trás o grosso do seu exército. Ignora-se se ele viria aí incluído. Talvez por isso, durante a campanha russa foi considerado frio e calculista no sentido de sempre conseguir livrar-se dos grandes e mortíferos problemas a que o exército francês foi sujeito. Após a queda de Napoleão isolou-se em Itália na cidade de Milão, daí partindo mais tarde para Londres e posteriormente Paris, pelo facto de o governo austríaco o acusar de ser defensor da unificação italiana. A chegada ao seu país de origem coincidiu com a fase final da perseguição aos apoiantes e aduladores napoleónicos.

Em Paris levou uma vida boémia e de participação nos salões elegantes da cidade, não obstante a sua precária situação económica que dependia exclusivamente das suas participações em jornais e revistas. A sua primeira grande obra literária foi o romance “Armance, 1827”. Perante a sua débil situação económica pediu apoio à Biblioteca Real, mas não lhe foi concedido. Valeu-lhe o apoio do seu velho protetor, tendo-lhe este obtido o cargo de cônsul em Trieste.

Ao longo da sua vida, Stendhal escreveu sob inúmeros pseudónimos, muitos deles surpreendentes e sempre variados (Dominique, Salviati,  Bombet, Cotonnet, Giorgio Vasari, William Crocodile, Poverino, Barão de Curendre e muitos outros. Aquele que o viria a celebrizar resulta do nome da cidade alemã Stendal, a que ele acrescentou um H para forçar a pronúncia alemã, onde ele viveu durante algum tempo (1807) e onde conheceu uma das suas grandes paixões, Guilhermina, e a quem apelidou de Minette (“…essa alma do norte como nunca vi em França ou na Itália”).

Esta caraterística literária remete-nos para outra da sua personalidade: a necessidade de parecer o que não era. Em “Memórias de um Egotista”, 1832, escreve: ”será que vão acreditar se disser que usaria uma máscara com prazer e ter o prazer de mudar o meu nome? Para mim a felicidade suprema seria poder transformar-me num alemão louro e magro e assim andar por aí em Paris”. Ainda nesta matéria assinala nas suas memórias o prazer de “sentir-se vivo em muitas versões”.

Stendhal foi um reputado escritor constante do grupo fundador do realismo literário, possuidor de uma apurada análise dos sentimentos humanos, análise esta detalhada nos sentimentos, convicções, atitudes e atos das suas personagens. É por muitos considerado com um realista romântico. A sua escrita é considerada por alguns como fria, seca e sem envolvência emocional, talvez porque surgida ainda no tempo de grandes figuras do romantismo. Ele próprio pressagiou que a sua obra não seria reconhecida antes de sobre ela passarem cinquenta anos. Não foi necessário tanto tempo, mas a verdade é que Stendhal apenas entrou na galeria dos grandes literatos na primeira década do século XX.

Numa das obras bem conhecidas de Stendhal (“Sobre o Amor”, 1822), teorizou sobre o processo de sedução/paixão chamando-lhe a “cristalização do amor”, teoria que hoje quase nos faz sorrir pela sua flagrante ingenuidade e simplicidade evidente.

Stendhal morreu com sífilis e atormentado com um conjunto de moléstias físicas que lhe provocavam acentuadas incapacidades. Morreu depois de ter desmaiado com uma convulsão numa rua de Paris, apesar de ter afirmado em vida que “não pensava morrer de forma indigna em plena rua”. Está sepultado no cemitério de Montmartre.

Quero hoje @CORdar uma das horas não muito celebradas de Stendhal: “Féder ou o Marido com Dinheiro”. A edição da Editorial Nova de 1972 que li, tem a caraterística particular de trazer na capa e contracapa a opinião de alguns, que são hoje enormes, vultos da literatura universal, nomeadamente: Émile Zola, Louis Aragon, Friedrich Nietzche, André Gide, Máximo Gorki, Paul Valery, Honoré de Balzac e Gustave Flaubert. Opiniões que são, umas mais encomiásticas que outras, mas todas curiosas. Eis algumas:

Nietzche: “O grande segredo de Stendhal, a sua grande malícia é escrever imediatamente”. Balzac : “O estilo de Stendhal é o estilo francês. É um estilo original que hoje já se não encontra”. André Gide: “A sagacidade e o poder de imaginação de Stendhal permitiram-lhe ver claramente a hipocrisia e a falsidade da burguesia e as contradições insolúveis da sociedade burguesa”. Zola “…deplora as várias implausibilidades dos romances e a clara intervenção autoral de Stendhal”. Erich Auerbach chega a ser muito mais contundente, mas rigoroso: ”o realismo sério moderno começou com Stendhal. Era um homem de inteligência afiada, rápido e vivo e mentalmente independente e corajoso, mas não exactamente uma grande figura. Suas ideias são frequentemente contundentes e inspiradas, mas erráticas. Arbitrariamente avançadas e, apesar de toda a sua demonstração de ousadia, carentes de certeza e continuidade internas. Há algo de incerto na sua natureza. A sua flutuação entre a franqueza realista em geral e a mistificação tola em particular, entre ao autocontrole frio, o abandono arrebatador dos prazeres sensuais e a vaidade insegura e às vezes sentimental, nem sempre é fácil de aguentar. O seu estilo literário é muito impressionante e inconfundivelmente original, mas é fútil, não uniformemente bem sucedido e só raramente toma posse e concerta o assunto”. Vladimir Nabukov afirma que Stendhal “tem um estilo insignificante”.

Féder ou o Marido com Dinheiro” poderá encaixar-se na simpatia que Stendhal nutria em viver nas suas “muitas versões” e na sua fase dos salões de Paris. É uma obra sobre a hipocrisia, a manipulação e a mentira como processos de vida e de sedução, onde não falta um duelo e uma falsa morte dele resultante.

Féder é um marselhense de dezassete anos de boa aparência e finos contornos que foi expulso da casa de seus pais por ter casado com uma atriz de teatro. Seu pai, de origem alemã era um comerciante abastado que odiava Voltaire e a sua escrita. Féder não nutria nenhuma simpatia pelo comércio, aparentemente por seu pai ter essa atividade. Julgava-se um artista e parecia desprezar o dinheiro a as atividades monótonas e burocráticas. Quando casou sabia apenas montar a cavalo e fazer retratos em miniatura, a que apenas ele reconhecia mérito. Tinham a caraterística de ser semelhantes ao modelo apenas na fealdade com que ele exagerava os seus defeitos. Alguns meses após a sua ida para Paris, a sua mulher morre deixando-lhe uma filha pequena. Rosalinde é a sua segunda mulher: bailarina na ópera que devia a sua carreira ao convívio e intimidade com figuras proeminentes dos bastidores franceses. Féder acaba por chegar “às altas funções de chefe da sua secretaria particular. Esse homem de Estado resolvera fazer andar ao mesmo tempo interesses opostos e irreconciliáveis” (ministro do comércio).

Delangle é um abastado negociante de Bordéus que tem uma irmã que considera muito diferente das outras mulheres. Valentine de seu nome. Jean-Thomas Boissaux é o seu marido. (“…parecia uma criança embora o senhor Boissaux repetisse a todo o momento que ela faria brevemente vinte e dois anos”). Boissaux é uma figura proeminente que se movimenta no meio social e político francês. É Membro da Legião de Honra, Vice-Presidente do Tribunal de Comércio e pretendente a Par do Reino. Encontra-se com Féder no seu atelier já que este começava a ter algum reconhecimento público com os seus retratos. Refere-lhe que trouxera a mulher para Paris para a transformar. Boissaux quer que Féder desenhe o seu rosto.

A história passa pelo processo de sedução entre Féder, Valentine e o dinheiro e influências do senhor Boissaux. Valentine vai ver-se perante o dilema entre Féder ou o marido com dinheiro. É uma história dominada por dois tipos de comportamento ignóbeis e desprezíveis: a hipocrisia e a manipulação nas relações humanas e em sociedade, quase sempre associadas à mentira e àquilo que nunca é completamente verdade: o politicamente correto.

Sobre a hipocrisia: “Dos remorsos de Valentine e dos sistemas de Féder, resultava que ele fazia sem amor as acções que mais paixão mostravam”. …aquele que engana o outro, é-lhe sempre superior”. Féder obedeceu, afectando a aparência do respeito mais profundo”. Entre nós, romancistas, escritores sérios, poetas, pintores, todos exageram para que os escutem”.

Sobre a manipulação: “O que poderá agradar a este original que tenho na minha frente?” As minhas desculpas dirigidas à sua vaidade, resultam. Dobremos a dose. O par do reino disse-me que não se pode considerar que é homem de Estado senão quando se verifica que se sustenta habitualmente numa opinião que não é a sua.  …explicações necessárias não podiam ser dadas com clareza e sinceridade diante de provincianos tão tenazes. Teriam ficado escandalizados a cada palavra em demasia. Na presença dessa espécie de gente, nunca devemos afastar-nos da expressão oficial à qual eles estão habituados”.

Sobre a mentira e o politicamente correto: “O homem de ideias não vai para o governo. Ao comprar Rousseau e Voltaire, o senhor está a meter-se no partido dos tagarelas. Já não quero ter livros. Parecem-se demasiado com os discursos de um dos nossos liberais na Câmara que tendem, sem se dar por isso, a fazerem-nos regressar a 1793”.

Finalmente, os afetos, a sua existência e a sua gestão: “Além disso, não lhe restava nenhuma recordação distinta e pormenorizada dos sentimentos que o tinham agitado no tempo em que estava apaixonado. Só se via fazendo estranha loucuras, mas já não se lembrava das razões que a si próprio dava para as fazer”. Porque será que este tipo de personagem é tão frequente na literatura (em Agustina está presente em todas as obras que dela li e são bastantes)? Porque a sua existência na vida real é de “igual” percentagem. Andam por aí…

Este livro não é uma obra prima. Nele são evidentes as críticas que Eric Auerbach aponta á obra de Stendhal e que referimos acima. Sobretudo uma: “…é fútil, não uniformemente bem sucedido e só raramente toma posse e concerta o assunto”.

Mas… Stendhal dá-nos a todos um conselho útil sobre o que julgamos ser a felicidade/infelicidade: “Só se vêm os inconvenientes de uma felicidade quando se está seguro dela”

Em homenagem a Stendhal, a TRENITÁLIA chamou ao seu comboio Paris-Veneza o Expresso Stendhal.

Outras obras de Stendhal:  

Romance

Armance, 1827;

O Vermelho e o Negro, 1830;

O Rosa e o Verde, 1937

A Cartucha de Parma, 1839;

Não Ficção

Roma, Nápoles e Florença, 1817;

O Amor, 1822;

Racine e Shaskpeare, 1923-1935.

Novelas

Vanina Vanini, 1827;

A Abadessa de Castro, 1932;

Crónicas Italianas, 1937-1939.

Biografias

Uma vida de Napoleão, 1817-1818, publicada em 1929;

Uma Vida de Rossini, 1824.

Autobiografia

Memórias de um Egotista, 1832;

A Vida de Henry Brular (Stendhal), 1835-1836 e publicado em 1890.

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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