Simone de Beauvoir (1908 – 1986)
Prémio Goncourt, 1954.
Passam durante este mês os 50 anos do Maio de 1968, movimento social e político levado a cabo pelo universo estudantil e universitário francês. Movimento iniciado na universidade de Nanterre que arrastou quase toda a sociedade francesa, sobretudo a operária, levou inclusivamente à demissão de um dos maiores leaders da história de França, Charles de Gaulle, e marcou todo o restante século.
Depois de termos escrito sobre Marguerite Duras, figura importante desse movimento, na nossa ultima crónica, quero hoje escrever ainda sobre uma outra que, com o seu marido, foram igualmente figuras galvanizadoras daquele que foi um dos fenómenos sociológicos mais notáveis e importantes do século XX: Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, este último um dos maiores pensadores do século XX.
Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir nasceu em Paris primogénita de duas irmãs, filha de um advogado membro da aristocracia francesa e sua mãe vinda da alta burguesia. Fez os primeiros estudos numa escola católica, após o que estudou filosofia, matemática e línguas.
Nos seus estudos de filosofia na universidade de Paris (Sorbonne) conheceu e foi contemporânea de notáveis jovens da intelectualidade francesa à época: Merleau Ponty, René Maheue e Jean Paul Sartre com quem viveu durante toda a sua vida numa relação aberta e descomprometida.
SB, de caráter libertário, lutador e contestatário, foi escritora, filósofa, professora, memorialista e ativista política, estas duas últimas atividades enquadradas na corrente filosófica do existencialismo e da luta pelos direitos das mulheres. Leitora compulsiva desde muito jovem, também desde muito cedo pensou ser escritora. Foi professora de filosofia na universidade de Marselha durante 23 anos e depois em Rouen e Paris.
O existencialismo foi uma escola de filósofos durante os séculos XIX e XX que, pese embora terem visões muito diversas em termos doutrinais, comungavam da ideia do absurdo da vida e de um mundo sem sentido geradores de desorientação e confusão perante esse mesmo mundo e a vida. O movimento adquiriu um peso assinalável na cultura europeia a partir da I guerra mundial e fortalecido após a II guerra como resposta e reação aos efeitos da guerra na destruição da condição humana e pela afirmação da importância da liberdade e da individualidade humana. O seu fundador é considerado o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ao sustentar que o ser individual é o único responsável em dar significado á sua vida, vivê-la como entender e apaixonadamente, apesar da ocorrência de enormes dificuldades para essa vivência como a ansiedade, o absurdo, o desespero, o tédio e a alienação humanas. O casal Sartre são as duas figuras mais proeminentes deste movimento filosófico e cultural, cujo apogeu ocorreu em pleno século XX. Segundo este, a existência precede a essência. O ser humano primeiro existe e só depois determina pelas ações a sua forma de viver a vida, tornando-o assim responsável pelo seu destino.
“A Convidada” foi o primeiro romance que SB publicou, em 1943. Com ele inicia a sua luta pelas liberdades do universo feminista e o seu envolvimento na corrente lhe daria origem. O “Segundo Sexo”,1949, será a sua obra de maior repercussão internacional pelo papel que teve na abolição da opressão sobre a mulher e da luta pela sua independência e igualdade. Durante a ocupação nazi trabalhou na rádio Vichy como porta voz da propaganda nacional socialista. Em “Os Mandarins”, 1954, aborda a situação social, política e moral da França após o fim da II guerra mundial, expressas na degradação moral, na corrupção social e política e na pobreza das camadas sociais mais desfavorecidas, a par da revolta latente do mundo intelectual do país. “Cerimónia do Adeus”, 1981, é o relato pungente e dramático da degradação intelectual e física de JPS seu marido. Após a sua morte, SB ficou refém do álcool e de anfetaminas atá à sua morte.
SB fundou com JPS a revista “Temps Modernes” em 1945, uma revista política, filosófica e literária, onde abordavam a sociedade francesa e europeia nesses domínios.
Quero hoje @CORdar uma das obras de SB sobre a II guerra mundial e especificamente sobre a ocupação nazi de França no governo de Vichy: “O Sangue dos Outros”, 1945.
Obra desenvolvida em pleno cenário de guerra, é uma obra de amor onde são abordadas a luta pela libertação, os dilemas do existencialismo (“creio que os seus problemas é imaginar que as suas razões de viver devem cair do céu prontas, somos nós que as temos de criar”), a sobrevivência, a mentira (“não te incomoda mentir? É a única forme de nos defendermos, já que não se pode ser tranquilamente o que se é sem torturar alguém”) e ódio, a culpa e o castigo, o que somos, qual o sentido da vida (“…na verdade são os outros que o fazem existir”), qual o nosso lugar na história (“Não existimos se não agirmos. …não podia talhar-me um destino justo num mundo injusto. Desejava a justiça; porque é que a queria? Pelos outros ou por mim? Disseste-me um dia com raiva: é sempre por si próprio que se luta”) Obra densa, de leitura difícil e com fraturas na narrativa que servem para relativizar o enredo e valorizar a abordagem intensa e profunda da condição humana: das suas virtudes, misérias e limitações (“O que é eu seria se nada me tivesse acontecido? Não é possível fixar os limites de um acto”)
Jean é um burguês, que assim nasceu, mas que quer ser um ser humano diferente; junta-se aos comunistas, mas abandona-os aquando da morte de um seu amigo porque não quer fazer a revolução com o sangue dos outros “os comunistas vêm os homens como peões num tabuleiro de xadrez; trata-se de ganhar a partida; os peões por si próprios não têm importância”. Acaba sem pertencer a nada nem a ninguém “reduzido à justa medida de um homem: as seis paredes para construir um cubo onde vive”
Marcel um arista estranho, cínico e arguto “haverá sempre um abismo entre ti e um operário. Tu escolheste livremente uma condição que ele apenas pode sofrer”.
Helène, objeto de amor de Paul, um comunista operário, um amor natural, quotidiano, comum “uma fatalidade natural como a fome e a sede”. Mas o amor dela dirige-se e vai ser para Jean.
Jacques, amigo de Jean, que se envolve com os comunistas para se unir ao seu amigo. Acaba por morrer e vai ser o objeto desencadeador da culpa de Jean, arrastada até à razão de existir (“ando à volta no meio dos meus remorsos, dos meus escrúpulos, tendo como única preocupação não sujar as mãos. A culpa não era fazer, não era um acto, a culpa era a própria massa do meu ser, era eu mesmo. Eu lutava contra o remorso e a culpa, a culpa de existir, a minha culpa. Como me tinha atrevido a arrastar para este combate um outro que não eu próprio?”).
Uma das muitas, grandes e pequenas, sínteses desta hora poderá ser dizer-se com SB:
“É fácil pagar com o sangue dos outros. E nunca, nunca se perguntam o que se ganha em não perder nada”.
Uma lição para todos nós quando pensamos que tudo pagamos. No registo de nada perder… para tudo ganhar; logo, com o Sangue dos Outro
Outras obras de SB:
A Convidada, 1943:
Todos os Homens são Mortais, 1946;
O Segundo Sexo, 1949;
Os Mandarins, 1954;
Memórias de uma Moça Bem-Comportada, 1958;
A Força das Coisas, 1963;
A Velhice, 1970;
Cerimónia do Adeus, 1981.