LETRAS @CORdadas -Scott Fitzgerald

por Miguel Alves | 2017.06.26 - 09:53

 

Scott Fitzgerald (1896-1940)

Francis Scott Key Fitzgerald nasceu em Saint Paul no Estado do Minnesota dos USA. Filho de um fazendeiro rico e de uma católica irlandesa, teve uma educação esmerada nas melhores escolas da sua cidade. Porém, o seu interesse pelos estudos era pouco intenso, facto que fez com que, apesar de ingressar na Universidade de Princeton, aí não tivesse concluído o curso que iniciara. Em 1917 alista-se no exército para participar na I guerra mundial na Europa. Recebe treino militar no Estado do Alabama, mas acaba por não ser mobilizado. Envereda depois pela carreira publicitária e conhece Zelda Savre com quem casa e que virá a ser sua mulher até à morte. É durante esse período que publica o seu primeiro romance que constituiu um assinalável sucesso de vendas (“Este Lado do Paraíso”, 1920). SF é situado como escritor, num período a que se designou a “Era do Jazz”, pela vida boémia e descomprometida que levava e por esta retratar os hábitos e estilos de vida da sociedade americana rica e bem posicionada. Foi visto como representante e ídolo da juventude contestatária e anti sistema da sociedade americana desse tempo (golden twenties). No dizer de Gertrude Stein, do seu grupo de Paris, SF escreveu a bíblia da “Juventude Flamejante”.

SF ficou na história da literatura americana como romancista, contista e cronista brilhante e foi um dos maiores do seu tempo apesar da escassa obra que produziu Por esse facto, é também referido como fazendo parte de uma certa “geração perdida” da literatura deste país. Escreveu a sua primeira história no jornal da sua escola aos treze anos, “The Mystery of the Raymond Mortgage”.

Na década 20 do século passado parte para França com um conjunto de outros artistas americanos. Nesses tempos, Paris era o centro do mundo em termos intelectuais e artísticos, e lá fervilharam de brilhantismo e criatividade muitas das figuras mais notáveis da arte e literatura do século XX. De entre os americanos, Ernest Hemingway é o mais saliente, e foi aí que este teve uma relação muito próxima com SF. No livro de EH “Paris é uma Festa” a sua relação com SF constitui uma parte substancial da obra. Nele estão bem expressos os hábitos alcoólicos que  constituíam um dos grandes problemas da existência de SF e que limitaram e barravam a sua capacidade de produção artística.

Em 1937 regressa aos USA e instala-se em Hollywood levando a cabo a escrita de guiões para cinema. Debilitado pelo álcool, tenta duas vezes o suicídio, aí morrendo em 1940, havendo versões diferentes se tal terá acontecido por razões de um ataque cardíaco ou se de tuberculose. Antes, já sua mulher havia sido internada várias vezes numa instituição psiquiátrica, acabando por morrer também em circunstâncias trágicas no incêndio desse hospital.

Quero hoje @CORdar a obra mais celebrada de SF e que lhe conferiu um lugar entre os maiores escritores do seu país e do seu tempo.: “O Grande Gatsby”, 1925. É uma das obras mais representativas do romance americano, que retrata o período da grande prosperidade americana e onde é exposta, numa perspetiva crítica e mordaz, a alta e possidente sociedade americana daquela época.

A história de Gatsby é relatada por Nick Carrawy, um emigrante do quente centro oeste americano que se instala no extremo leste no negócio especulativo das obrigações (“a mais domesticada extensão de água salgada do hemisfério ocidental, o grande celeiro húmido chamado Estreito de Long Island”). Nick instala-se na vizinhança da casa/palácio de Gatsby.

O casal Buchanan, Daisy e Tom, vivem do outro lado da baía. Daisy é segunda prima de Nick e é a velha e grande paixão de Gatsby (“havia na sua voz uma vibração que os homens que se haviam interessado por ela tinham dificuldade em esquecer: uma compulsão cantada. Agora era um homem encorpado de trinta anos e cabelo cor de palha, boca algo severa e atitude sobranceira. Dois olhos brilhantes e arrogantes tinham-se apoderado da expressão do seu rosto”).

Gatsby na inicial impressão de Nick “representava tudo aquilo que sinceramente desprezo”. Gatsby é uma personagem misteriosa, rico e possidente e sem que ninguém tenha a mínima noção de como terá obtido a sua imensa fortuna. A sua mansão era um colosso de excentricidades em si mesma e no que lá se passava: pela fabulosa biblioteca aí existente, pelas festas de entrada livre e onde tudo se podia consumir e utilizar, entrar e sair sem nenhum tipo de controle. (“era colossal segundo qualquer critério, era uma imitação fiel de um qualquer Hotel de Ville da Normandia, com uma torre a um dos lados, uma piscina de mármore e mais de quarenta acres de relvado e jardim. …o seu Rolls-Royce transformava-se em autocarro e transportava grupos vindos da cidade e de volta a ela entre as nove da manhã e muito depois da meia noite, enquanto a sua carrinha disparava como um enérgico inseto amarelo ao encontro de todos os comboios. …chegavam eram apresentados por alguém que conhecia Gatsby, e a partir dai agiam de acordo com as normas de um parque de diversões. Havia quem chegasse e partisse sem sequer ter conhecido Gatsby, apareciam para a festa com uma singeleza de intenções que era em si mesma o bilhete de acesso. O Gatsby comprou aquela casa para ter a Daisy ali mesmo, do outro lado da baía. Dizem que é sobrinho de um primo do Imperador Guilherme. Um dia disse que tinha estudado em Oxford. É contrabandista, diziam as jovens. Uma vez matou um homem que tinha descoberto que era sobrinho do Von Hindenburg. …era uma pessoa de uma certa importância indefinida. O que interessa é que dá grandes festas).

“O Grande Gatsby” é, simultaneamente, uma grande e fracassada história de amor, o retrato sociológico de um país e um zoom psicológico a um representante típico dessa sociedade e dessa época. A vasta, curiosíssima e pouco comum, informação existente sobre a sua produção entre o autor e o seu visionário editor ao longo de muito tempo, dá-nos, ainda, matéria para nos espantarmos e questionamos sobre a produção artística e cultural, bem como dos frequentes e às vezes graves, problemas humanos e psicológicos dos criadores. Maxwell Perkins é esse editor inteligente e sensível que vislumbra em SF o génio raro e precioso subjacente aos seus inúmeros problemas humanos, e que o leva a não desistir de conseguir a produção por parte de SF, daquela que seria uma das joias da literatura americana do século XX e que, na altura da sua primeira publicação, teve um reduzido acolhimento. Um prodígio, quase próximo também, do génio a quem consegue impor-se nesse processo criativo e da sua publicação.

Na sua obra e sobretudo em “O Grande Gatsby”, SF procura a perfeição de forma pertinaz e quase heróica face aos seus inúmeros problemas humanos e psicológicos. Através de conceitos duvidosos face a tal imenso e impossível desafio, como sejam a juventude, a beleza, uma certa aristocracia volátil, a riqueza e a diversão, conceitos que, supostamente, fariam os homens melhores e mais generosos e humanos (“não correspondeu aos seus sonhos – não por culpa dela, mas sim da colossal vitalidade da sua ilusão. Eram um indício satisfatório da irrealidade da realidade, uma promessa de que o rochedo do mundo assentava solidamente sobre a asa de uma fada). Ao mesmo tempo, como diz Jorge Luís Borges, as suas personagens são quase sempre e ao mesmo tempo “as primeiras ilusões e os últimos desenganos”.

As ilusões devem ser fontes de aprendizagem e segurança; só estamos verdadeiramente seguros depois de desiludidos. Os desenganos são conclusões e fronteiras a que de todo devemos fugir, mesmo perante as maiores evidências. Foi esse sucesso a que SF não logrou chegar.

“O Grande Gatsby”, sendo uma obra literária de fortíssimas características cinematográficas, já foi objecto de várias adaptações ao cinema. Uma delas muda em 1925, que terá desaparecido, e que por muitos é considerada como a mais conseguida.

Outras obras de SF:

Este Lado do Paraíso, 1920;

O Estranho Caso de Benjamim Button, 1921;

Belos e Malditos, 1922;

Contos da Era do Jazz,1922;

Sonhos de Inverno, 1922;

O Legume (peça de teatro), 1923;

Suave é a Noite, 1934;

O Ultimo Magnata, 1941.

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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